Leandro Pagliaro
Leandro Pagliaro

Bicentenário da Independência: Luiz Fernando Carvalho dirige série para TV Cultura

Sem título definido, produção contará com 16 capítulos e evidenciará importância de figuras 'esquecidas' pela História como Maria Felipa e Maria Graham

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2021 | 05h00

Quando foi convidado pela direção da TV Cultura, em março, para dirigir uma minissérie sobre a proclamação da Independência brasileira – que será exibida em setembro do próximo ano –, o diretor Luiz Fernando Carvalho foi taxativo: não faria algo limitado ao bicentenário, mas ampliaria o período a ser focado, ou seja, iniciando com a chegada da família real ao País, em 1808, e terminando com a morte de d. Pedro I, em 1834. 

“Minha proposta é fazer uma reflexão sobre a aurora do século 21”, explica o encenador ao Estadão. “Estamos diante da ‘colonialidade’, sistema fundado pela modernidade. Logo, apresentamos a modernidade como uma sucessão de eventos trágicos. O despontar de uma era trágica.”

A emissora aceitou a proposta e, desde setembro, Carvalho iniciou sua habitual forma de trabalho para a criação de uma minissérie de 16 capítulos com 30 minutos cada e ainda sem título definido – por ora, é utilizado o subtítulo O Sono do Homem Branco. “Sono como ideia de entorpecimento, opressão, cegueira, passividade e morte”, explica. “Aqui, nesta América que sonha um novo Portugal, neste Eldorado de indígenas dizimados e africanos escravizados, eis o feitiço maior: ‘O Sono do Homem Branco’.”

Carvalho ensaia com o elenco em um galpão na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo. Trata-se, como de hábito, de um trabalho de aprofundamento de conhecimento, ou seja, não se trata apenas de repetir as cenas, mas de estudar e entender o momento histórico. Para isso, o diretor promoveu palestras elucidativas, como com a historiadora Ynaê Lopes dos Santos. “Pensar o século 19 é refazer o caminho antes dele, na divisão do mundo entre opressores e oprimidos.”

Figuras esquecidas pela História

Luiz Fernando Carvalho pretende, com sua minissérie ainda sem título sobre o período da Independência, apresentar o avesso da História. “O olhar comum para aquele momento é romanceado, quando foram momentos bárbaros. Assim, é preciso fazer uma autocrítica, a começar pela própria cultura branca, que se julgava superior”, explica.

Assim, a partir desse norte e sem buscar atualizações (“Não quero simplesmente trazer o século 19 para os dias de hoje”), Carvalho escalou um elenco heterogêneo, com multiplicidade de vozes, em que atrizes baianas discutem seus problemas com angolanas que vivem em Portugal. E, apesar da presença de atores consagrados (Antonio Fagundes, por exemplo, vai viver d. João VI, assim como André Frateschi será o intérprete de Chalaça), o diretor pretende inverter o papel do protagonismo. “Currículo não pesa.”

Presença feminina

Assim, ao lado do dramaturgo Luís Alberto de Abreu, o diretor elabora um projeto que busca reivindicar a participação de um conjunto de saberes, culturas, subjetividades e personagens que foram postos à margem ou que, violentamente, foram apagados pela história oficial. “A importância da presença feminina na Independência do Brasil está em d. Leopoldina, artífice central daquele processo”, observa Carvalho, que escalou uma atriz inglesa para o papel. “Surgem também figuras como Maria Felipa, cuja participação foi referencial na luta pela independência da Bahia, e o Padre José Maurício, maestro negro da Corte Imperial, mas ausente dos registros tradicionais.”

Ao relevar a importância de figuras hoje esquecidas, o diretor combate o que chama de Pedagogia da Ausência, ou seja, um sistema que funciona a partir da exclusão e do apagamento de nomes e fatos. “A série, portanto, é uma escavação em busca do passado, reencontrando fantasmas nas salas do império, colonialismo, violência social, autoritarismo e escravidão.”

Preparação

Dessa forma, o processo criativo é detalhado, como sempre acontece nos trabalhos de Carvalho. Boa parte do elenco ensaia em um galpão na Vila Leopoldina, na zona oeste paulistana. Lá, acontecem também os debates com historiadores e sociólogos, que trazem uma visão mais esclarecedora e menos edulcorada da história oficial. “É o momento em que todos participam, sem exceção”, conta o encenador, destacando, por exemplo, a presença das costureiras que confeccionam os figurinos criados por Alexandre Herchcovitch, em um ateliê montado no espaço. “Todo conhecimento é compartilhado, pois essa é a síntese do galpão.”

É esse entendimento que faz com que o projeto da minissérie seja um trabalho atual, não de época. “Nosso presente está repleto de passado. Me parece fundamental essa ponte entre nossas fundações e os desdobramentos que ocorreram nos séculos seguintes. O século 19 foi um período estrutural, marcando avanços e retrocessos com os quais lidamos até hoje.”

Os ensaios continuam no galpão até 17 de dezembro e, em janeiro, começam as filmagens, que deverão ocorrer no Rio, Salvador e Lisboa, no Palácio de Queluz, palco do início (1808) e do fim da história (1834) contada pela série. 

“São várias questões em busca de respostas: a quem interessou a Independência? Ela realmente existiu ou foi um golpe da elite?”, questiona Carvalho. “Em meus trabalhos, sempre me pergunto: que país é esse? Agora se faz necessária a atualização dessa interrogação. Nos tempos de hoje, quando a linguagem do streaming se torna cada vez mais onipresente no cotidiano das pessoas, o convite da TV Cultura é um enorme desafio: refazer o diálogo entre entretenimento e educação.”

Atriz inglesa vai viver D. Leopoldina

Apesar de sua reconhecida cultura e da importância que teve na conscientização de seu marido, o então príncipe d. Pedro, na proclamação da Independência do País, a imperatriz Maria Leopoldina (1797-1826), da Áustria, era tratada na corte brasileira simplesmente como “a estrangeira”.

“Era uma mulher obrigada a viver uma solidão em um país completamente diferente do seu e com um marido que levou a amante para morar no palácio”, conta Luiz Fernando Carvalho que, para marcar a distinção dessa personagem, decidiu buscar uma atriz que não fosse brasileira – depois de semanas de pesquisa, ao lado do preparador de elenco Nelson Fonseca, vasculhando perfis de artistas europeias, ele elegeu a inglesa Louisa Sexton para viver a imperatriz que tinha paixão por mineralogia, além de admirar autores como Voltaire, Rousseau e Goethe.

“Logo que descobriu os primeiros detalhes sobre Leopoldina, Louisa começou a estudar tudo sobre ela”, conta Carvalho, lembrando que a atriz britânica cursou a escola de artes apoiada por Paul McCartney, em Liverpool.

Filha de uma família ligada às artes, Louisa Sexton atua desde criança e já participou de curtas e séries, além de uma rápida participação no longa Harry Potter e a Pedra Filosofal, de 2001.

Segundo Carvalho, a atriz se prepara a partir de biografias e livros que trazem a correspondência de d. Leopoldina, como Cartas de uma Imperatriz, lançado pela Estação Liberdade e com extenso material da monarca.

“Outra fonte importante são os escritos deixados por Maria Graham, que conviveu com Leopoldina”, explica ele, referindo-se à viúva de um militar britânico que, vivendo na corte no início da década de 1820, foi escolhida pela imperatriz para ser a governanta de seus filhos, notadamente de Maria da Gloria, primogênita do imperador brasileiro e que chegou a ser rainha de Portugal, em 1833.

“Maria Graham manteve uma preciosa correspondência com Leopoldina, que lhe confidenciou suas agruras no Brasil”, diz Carvalho.

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