'Beto Rockfeller foi um ruído na teledramaturgia'

Diretor do improviso, Lima Duarte ajudou a lapidar as experimentações da trama

Alline Dauroiz, de O Estado de S. Paulo,

16 Novembro 2008 | 00h22

Por que Beto Rockfeller foi tão importante?Ela não nasceu para ser importante, nasceu para ser diferente. As novelas, naquela época, não eram tão simples, tão graciosas. Eram novelas com barões, condes... O sistema telenovela já estava começando a necrosar. E é obrigação do artista enviar um ruído. Beto foi um ruído no sistema da teledramaturgia televisiva. Havia também uma sociedade emergente, de operários especializados da Volkswagen, da Mercedes, que queriam uma novela para eles. Beto Rockfeller foi a primeira novela a usar música popular em vez de sinfonia clássica. O tema da Ana Rosa era Dio, Come ti Amo (Domenico Modugno). Da Irene Ravache, Here, There and Everywhere (Beatles). Da Maria Della Costa era I Started a Joke (Beeges). E da Bete Mendes era F...Comme Femme (Salvatore Adamo). Eu dizia: Dá um close na Bete e solta a música, vamos ficar só nisso. Era uma coisa linda. O que sua direção teve de diferente?Era compatível com a idéia. Os personagens eram muito coloquiais, cotidianos, a gente inventava. Fiz coisas que tinha exercitado na TV de Vanguarda. Quisemos trazer as pessoas mais próximas. E era isso que eu exigia de todos. E todos foram muito bem. Eram pessoas tão prováveis, tão possíveis, falando a nossa língua. Tinha muito caco no texto. Improvisávamos cenas inteiras. Como você lidava com os merchandisings do Luis Gustavo?Pô, eu não sabia. O Tatá (Luis Gustavo) era um safado (risos). O diretor comercial veio em cima de mim, e eu não ganhei nada. O Tatá dizia:"Engov é hangover, de ressaca em inglês. Estou lançando uma nova gíria". Porque nós lançamos gírias: "É uma brasa", "Pô, bicho", "Bicho magro" "Bicho gordo"....foi o Plínio (Marcos) que dizia. Além de dirigir, você também participou como ator?Nós tínhamos um personagem misterioso, nunca apareceu a cara dele. Era o dono da oficina que o Vitório trabalhava (o Domingos) e que o Beto pegava os carros para dar banda. E ele falava assim: "(Com voz bem grave) Vitóóório. Vem aqui." Aparecia só minha mão ou o pé. E o público queria ver a cara dele. Um dia, ele teve um ataque e morreu. Aí no velório, o Vitório disse: "Posso beijar meu patrão?" E quando ele vai beijar, põe a cabeça na frente da câmera e tapa a cara do dono. E aí fechava o caixão e ninguém via a cara do morto. Porque você deixou a direção da novela antes do fim?Eu trabalhava no Teatro de Arena e fui convidado para ir à Broadway, com a peça Arena conta Zumbi (de Gianfrancesco Guarnieri). Cheguei pro Bráulio e falei: "Está na hora de acabar a novela. Já está em 300 e poucos capítulos.Ninguém agüenta mais trabalhar." E para acabar com essa instituição que virou o último capítulo das novelas, queria fazer várias versões do fim do Beto Rockfeller, e exibi-las todas. Perguntaríamos ao general-comandante do 2.º Exército como ele achava que deveria terminar. E o que ele dissesse, iríamos escrever "O último capítulo, segundo o general-comandante do 2º General do Exército".Depois, faríamos "O último capítulo, segundo Cardeal Arcebispo de SP", "O Último Capítulo segundo a Yolanda Penteado Matarazzo", "o último capítulo, segundo o governador do Estado". Mas não fizeram. Disseram que a novela não poderia acabar. Então o Bráulio e eu resolvemos sair. Eu não ia deixar de ir pra Broadway E como ficou sua carreira depois?Em 71 eu fui pra Globo. O Boni me levou para fazer lá uma revolução, como a gente tinha feito na Tupi, sem saber que uma revolução não se faz. Ela acontece, quando chega o momento. A gente só tem o trabalho de catalisar tudo isso e realizar. Então me deram a novela O Bofe para dirigir, escrita pelo Bráulio Pedroso também. Foi um dos maiores fracassos da Rede Globo. Meu (fracasso) pessoal foi enorme. Não deu certo por que a gente quis romper com o sistema, num lugar onde existia o "Sistema Globo de Televisão". O sistema desabou em cima da gente. Então aqueles diretores muito enciumados falavam: "Esses caras tão fazendo brincadeira, ninguém entende nada dessa porcariada". O que a gente temia que acontecesse com o Beto, de fato aconteceu em O Bofe. O Bráulio saiu e foi substituído pelo Lauro César Muniz e eu pedi para sair, solidário ao Bráulio. O Daniel Filho, o Dias Gomes e o Boni ficaram tentando me convencer a ficar, porque eu tinha ainda três meses de contrato também como ator. Então eu pensei em fazer só por três meses o personagem que o Dias Gomes tinha me oferecido.E esse personagem acabou sendo o Zeca Diabo, de O Bem-Amado, e eu fiquei um semideus lá (risos). Você acha que a novela faria sucesso hoje?Acho que não, está datada. E o Bráulio também era maravilhoso, era um grande autor, ele tinha umas idéias incríveis.Era uma delícia, muito cínica, bem moderna. Por outro lado, era muito sutil, muito elegante. Algo que se perdeu. Vivemos o tempo da boçalidade. E o uso do caco (improvisar o texto)?Hoje a a TV perde em espontaneidade. Mas tem que haver certo rigor, senão aqueles meninos desandam a falar besteira. Caco tem que ser bem colocado, inteligente. Comigo essa regra não é muito rigorosa. Tem muita novela que eu acertei o texto no estúdio. Porque chega uma hora em que o personagem é mais seu do que do autor, e você sabe como conduzir. Quando o autor coloca algumas coisas um pouco fora, você sabe que aquilo está psicologicamente errado. E eu corrijo muito. Mas todos eles gostam muito. A Glória Peres mesmo já disse que eu posso fazer. O público da TV mudou mais do que a própria novela?Muito. Ah! Hoje é tudo tão pueril, ninguém aprofunda nada. Ficou tudo assim tão rapidinho, pra digerir logo e ir embora para a balada. Mas novela entra dentro das casas, na intimidade do público. Então, você tem que ter o comportamento de um companheiro velho que chega toda noite pra te contar uma história. Tem que falar direito, com o coração do público. Senão o público fala: "Ah! Vou embora..." E o que mudou na teledramaturgia?Entrou muito dinheiro. Acho que a Globo está se permitindo um mínimo de experimento nesses Casos e Acasos e tal. Mas experimenta muito na forma: câmera alta, câmera baixa... A história continua mesma.Está faltando um novo ruído na teledramaturgia?É, precisaria. Mas na Globo é impossível. Lá tem que jogar no certo. São milhões de dólares...Antigamente não era tão caro, estava tudo em crise, a gente fazia o que queria. Hoje envolve milhões de espectadores, exportam para vários países. Você tem que ir no certo, não pode experimentar. E sem experimentar, não dá para fazer Beto. Experimentar significa acertar ou errar. 

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