'Bete é boa, mas não é boba'

MATER DOLOROSA: Atriz fala sobre a matriarca que a traz de volta à TV

Patrícia Villalba, de O Estado de S. Paulo

15 de maio de 2010 | 16h00

 

Perto de completar 60 anos na televisão, entre teleteatros, novelas e minisséries, Fernanda Montenegro arrisca dizer que nunca experimentou uma personagem como Bete Gouveia, a mãe condutora da trama de Passione, a quem ela começa a dar vida na tela a partir de amanhã.

 

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Com as vilanias de sua personagem anterior em novela, a Bia Falcão de Belíssima (2005), ainda frescas na memória dos noveleiros que mal podem esperar para vê-la novamente numa trama de Silvio de Abreu, a atriz vai às origens do folhetim, no século 19, para explicar Bete. "Ela é uma mulher apassivada - não que seja uma mulher passiva, mas é apassivada pelas circunstâncias sociais que a encurralaram numa posição de mater dolorosa. É uma personagem de melodrama, de folhetim mesmo", define.

 

Linda, com seu novo corte de cabelo, à Jean Seberg, a atriz encontrou o Estado em São Paulo, num hotel na zona sul, para falar sobre a personagem e a novela que a trazem de volta à televisão.

 

Já sei que a Bete Gouveia é uma personagem bem diferente da Bia Falcão, que você interpretou em Belíssima. O que pode adiantar sobre ela?

 

Sabe, eu nunca fiz uma personagem assim, absolutamente aburguesada, no sentido da grande mãe, da mulher que sofre todas as pressões. Ela vive numa casa senhorial, que ela ajudou a erguer, mas onde é apenas uma nora de uma sogra matusquela, que pensa que ainda tem poderes de administração doméstica. É uma personagem de melodrama, de folhetim mesmo. A novela é a grande saga de uma família, narrada como um bom melodrama do século 19. O que eu acho ótimo porque, por incrível que pareça, esse bom melodrama faz falta na televisão.

 

É uma novela, então, que volta ao passado?

 

Sim, ela volta às origens do século 19, mas conduzida de forma moderna. Acho que qualquer maneira de amar vale a pena, e não precisa que se ambicione chegar a Dostoievski ou a Balzac, mas que se tenha pelo menos esse mistério, essa inventiva e essa capacidade humanizada de contar uma boa história.

 

 

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A Bete, ao que parece, é uma heroína clássica, uma mocinha. Acha que, à primeira vista, ela tem menos poder de seduzir o público do que teve a exuberante Bia Falcão?

 

Mocinha, não, porque ela é uma mulher de 75 anos. E ela é boa, não é boba (risos) - isso faz diferença. É... Vou te dizer, não é que o querer do público não conte, não é isso. Mas são personagens tão diferentes que não sei se o resultado vai agradar ou não, ter empatia ou não. O que sei é que todos nós estamos com os cavalos todos em ordem para começar uma corrida. Não é isso? E é um elenco de primeira. Acho que há algum tempo não se tem um elenco assim.

 

E até que ponto um grande elenco segura o público?

 

Não adianta você chamar 60 atores e só dar papéis de fato para 10. Fica um desencanto pelos corredores da estação, não é? É muito triste chamar um elenco enorme e encurralar essas pessoas, independentemente de ganhar o seu salário. Não é só pão que a pessoa quer. A pessoa quer participar, ser usado, estar presente. E o Silvio (de Abreu) não abandona elenco. Acho que é preciso um autor que invente essa trama e que dê material e uma lógica para essa viagem de um ano - é uma viagem de um ano, gente! E o elenco não pode tirar leite de pedra. Claro que se você tiver um bom leite, vai fazer um bom pudim ou até salvar alguém da morte com uma boa mamadeira.

 

Que tal o Tony Ramos como filho?

 

Era o destino (risos). Brinco com ele porque numa cena eu digo "você é bonito". E agora quando encontro com ele, eu sempre repito "você é bonito". E Tony é bonito, né? E ele está bonito, você precisa ver.

 

O que te faz, a esta altura do campeonato, estar numa novela?

 

Ah, meu amor, eu faço televisão com prazer desde janeiro de 1951. Faça as contas: 60 anos. Sempre enfrentei a televisão como um meio eletrônico a ser experimentado. Ela transmite para o País inteiro um tipo de dramaturgia que tem trabalhos memoráveis. Fico muito contente quando estou num projeto positivo que é transmitido por uma televisão que chega a todo Brasil, a lugares que não teria como eu chegar com meu espetáculo. Hoje em dia se aceita sem nenhum problema dizer "eu te amo", sendo que há 70, 80 anos, só se aceitava se fosse "I love you".

 

Sei que já passou muito tempo, mas vou ter de perguntar o que você achou do final da Bia Falcão em Belíssima.

 

Olha, fora dos folhetins, os bandidos geralmente se dão bem. Não vou dizer que sempre se dão bem, porque não quero que todos eles se deem bem. Mas também há bandidos e bandidos, não é? O Calabar é tido como traidor. Mas de quem? Do colonizador? Quem era mais bandido ali, o colonizador ou o Calabar? Oficialmente, ele é traidor e ponto.

 

Mas não é que ela somente terminou impune, é que ela terminou tomando Champagne em Paris com o Cauã Reymond.

 

Muito bem. Mas ela mereceu o Cauã (risos).

 

Na época, o jornal recebeu o e-mail de um leitor indignado, que questionava "quem é aquele Cauã para beijar a Fernanda Montenegro?".

 

E beija bem o Cauã, viu...

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