Bergman e o velho fantasma de Hitler

O Ovo da Serpente é uma séria advertência sobre o perigo que a intolerância representa

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2009 | 01h02

Bons cineastas tentaram diferentes abordagens da ascensão de Hitler ao poder - nem todos com o mesmo êxito. Entre eles está certamente o norte-americano Bob Fosse, diretor do musical Cabaret, que há 37 anos surpreendeu ao associar a barbárie nazista aos números de dança apresentados num clube noturno de Berlim. Mais surpreendente foi a adesão do cineasta sueco Ingmar Bergman à leitura analógica de Fosse. Seu O Ovo da Serpente (DVD Versátil, R$ 49,90), realizado seis anos depois do musical americano, e igualmente ambientado nos anos 1920, na República de Weimar, parte da mesma tese: foi o chamado homem comum, com sua carga preconceituosa, que construiu o Terceiro Reich.

Em O Ovo da Serpente, a exemplo de Cabaret,a estrela principal também é uma vedete de um mafuá berlinense (Liv Ullman, ex-mulher de Bergman). Outro desajustado social é um trapezista judeu cujo irmão cometeu suicídio (David Carradine). Entre o musical de Fosse e o drama de Bergman há muitos pontos em comum, menos a forma narrativa. Em Bergman, o conflito extrapola a dimensão política para ganhar contornos psicológicos.

Não é o melhor filme de Bergman, talvez por ter bons atores em papéis errados - e David Carradine, como trapezista, parece tão deslocado no papel como Liv Ullman, um pouco acima do peso em sumárias roupas de vedete. De qualquer modo, é um manifesto vibrante com bela fotografia de Sven Nikvist e uma advertência contra o ovo do antissemitismo que parece a todo momento prestes a trazer ao mundo a velha serpente do nazismo.

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