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Autora da minissérie 'Justiça', Manuela Dias diz que a dimensão pessoal das leis é seu interesse

'Justiça', com Adriana Esteves, Débora Bloch, Cauã Reymond e outros atores, estreia nesta segunda-feira, 22, na Globo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

22 Agosto 2016 | 05h00

Quando começou a trabalhar no projeto que agora culmina – a minissérie Justiça estreia nesta segunda, 22, na Globo –, Manuela Dias não estava nem grávida. Helena, seu bebê, está com seis meses. Manuela desculpa-se, numa entrevista feita por telefone, de sua casa, no Rio. “Quando a gente tem um bebê pequeno assim, tem sempre mil coisas com que se ocupar, e preocupar.” Ela ainda está amamentando a Helena. Autora, mulher, mãe. Poderosa! “Quem, eu? Sou é trabalhadora”, define. Para o espectador, de TV e cinema, que tem visto nos últimos tempos tanta coisa da lavra de Manuela – os filmes A Hora e a Vez de Augusto Matraga e Floresta Que se Move, a minissérie Ligações Perigosas –, parece que sua ascensão está sendo rapidíssima, vertiginosa. Ela corrige. “Na verdade, tenho assinado esses trabalhos, e Ligações é minha primeira minissérie como autora principal, mas tenho uma trajetória de 20 anos na Globo.”

Escreveu para a linha de shows (Xuxa e A Grande Família), colaborou na adaptação de Os Maias e Hoje É Dia de Maria, de Luiz Fernando Carvalho. E, mesmo agora, quando vai estrear Justiça, texto de Manuela Dias, direção-geral de José Luiz Villamarim, os créditos são muito mais extensos. Manuela é a autora principal, mas colaboram Mariana Mesquita, Lucas Paraizo e Roberto Vitorino. Villamarim é diretor artístico, mas também dirigem Walter Carvalho, Luisa Lima, Isabella Teixeira e Marcus Figueiredo. Sobre a coautoria, Manuela esclarece – “Eles trabalham comigo na definição da escaleta (o roteiro dos capítulos). Os diálogos, escrevo sozinha.” E Manuela é uma grande dialoguista. Vinícius Coimbra, que dirigiu Ligações Perigosas – entre outros trabalhos de Manuela –, já o disse mais de uma vez ao repórter. “Vinícius é um querido”, diz Manuela. Foram casados, separaram-se, a atual dele tem um papel em Justiça. Ficou um grande respeito e uma grande admiração – pelos profissionais e pelas pessoas que são. Manuela também já foi casada com o diretor Paulo Caldas. Escreveu Deserto Feliz para ele. Moravam no Recife, a cidade que fornece o quadro dramático para Justiça. “É uma cidade que tem muitas armas e onde as pessoas tratam questões de honra e amor com muita visceralidade. Muita coisa tem de ser resolvida no tiro, no grito.”

E ela conta como Justiça começou. “A moça que trabalhava comigo veio me pedir ajuda para o marido dela, que havia matado o cachorro do vizinho. O cachorro invadia o quintal deles. Matava galinhas e patos, e ela me pediu, por favor, que interferisse. O marido foi solto, mas a história ficou na minha cabeça. Comecei a pensar, não na Justiça em si, mas na forma como ela interfere ou repercute nas pessoas. A dimensão pessoal das leis. O público e o íntimo. O certo e o errado, o que é justo ou não.”

Justiça começou a tomar forma e o telespectador que hoje cultua as minisséries norte-americanas, dizendo que é nelas, não em Hollywood, que está a criatividade do audiovisual dos EUA, bem deveria prestar atenção no que vai se passar a partir desta noite. A nova minissérie de Manuela irá ao ar de segunda a sexta, menos às quartas-feiras. Vai contar quatro histórias, num total de 20 capítulos – cinco semanas. Cada dia vai rolar uma história, mas, como se trata da vida de uma cidade – o Recife –, os personagens de um dia podem se cruzar com os de outro.

Débora Bloch na segunda, Adriana Esteves na terça, Luisa Arraes e Jéssica Ellen na quinta, Cauã Reymond e Marjorie Estiano na sexta. “Não se trata nem de ser coadjuvante. Pode ser só figuração. A protagonista de segunda é coadjuvante na terça, figurante na quinta e tem uma aparição brevíssima na sexta. O Cauã (Reymond) passa como um transeunte na história de Débora (Bloch), na segunda. Só depois, na sexta, o público vai descobrir o drama dele, que matou a mulher, e por quê.”

Transeunte – Manuela foi roteirista do filme de mesmo nome de Eryk Rocha. Adaptou Guimarães Rosa, Shakespeare e Choderlos de Laclos para Vinícius Coimbra. Os grandes autores adestraram seu olhar. Manuela diz que lhe deram ‘musculatura’. E o que é isso, exatamente? “Afiaram minhas ferramentas de contar histórias, me deram esse aprendizado para enxergar os pontos de vista.” Mas ela conta que não seria escritora, se não fosse observadora. “Estou sempre prestando atenção nas coisas. Me interessa não só o que as pessoas dizem, mas o como. Tem agora uma moça trabalhando comigo, de babá, que é do Maranhão. Me encanta a prosódia dela.”

Quando preparava o roteiro de Transeunte, Manuela saiu a campo. “Montei uma mesinha e oferecia R$ 1 para quem me contasse uma história. As pessoas se abriam. Sabia que um dia ia terminar usando aquele material.” Justiça segue essa linha, que Manuela chama de ‘dramaturgia de rua’. Na entrevista que deu ao Estado, Cauã Reymond, um dos atores de Justiça, já havia comentado a narrativa não linear e a forma como Waltinho (Carvalho) e (Zé Luiz) Villamarim filmavam de diferentes pontos de vista.

Forma e conteúdo nasceram juntos em Justiça – “O meio e a mensagem”, diz a autora. “No fundo, há uma grande narrativa linear, mas são várias histórias lineares e paralelas, umas tocando as outras.” Sobre esse ‘tocar’, ela reflete – “Todo mundo é especial, protagonista da própria história. Ninguém é coadjuvante em sua história, pode ser na do outro”. Justiça é sobre isso. Manuela admite que, com todo o sucesso que tem colhido ultimamente, está ansiosa. “E não vou estar? Uma estreia é sempre uma estreia. A gente prepara, se empenha, mas chega esse momento em que a criação nos escapa e passa a ser do público. E se as pessoas não gostarem?” Mas ela acredita – espera – que vão gostar. Elogia o grande elenco, o José Luiz (Villamarim). “Tenho tido essas parcerias fantásticas, mas o Zé é especial. É uma questão de proficiência no trabalho. A gente se completa, mas tem aquilo que é da alçada de cada um, e a gente respeita.”

Já pesquisando para um próximo projeto, e ocupada nessa atividade tão caseira que é a amamentação de Helena, Manuela fala um pouco de cinema, para encerrar. O filme que mais a impactou ultimamente foi Vitória, do alemão Sebastian Schipper, uma trama de assalto, narrada num único plano. Foi pela técnica? “Foi tudo. A história, a realização.” A própria Manuela dirige Love Film Festival, que será lançado neste semestre. O filme, lançado no Festival do Rio do ano passado, tem outros três diretores, incluindo Vinícius Coimbra e Bruno Safadi. “Não me sentia segura para assumir sozinha. E pulverizei a direção como estratégia de guerra, para manter o controle”, confessa.

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