JOÃO COTTA/DIVULGAÇÃO
JOÃO COTTA/DIVULGAÇÃO

Autor, diretor e atores falam sobre 1ª cena de sexo gay na TV aberta

Longa sequência envolve Caio Blat e Ricardo Pereira em tempos em que homossexualidade era considerada crime de Lesa Majestade: cena vai ao ar no dia 12, terça

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

05 Julho 2016 | 05h00

Está gravada e editada a primeira cena de sexo entre dois homens na TV aberta brasileira. Apesar de todo o suspense criado em torno da sequência que une o militar Tolentino, personagem de Ricardo Pereira, e Caio Blat na novela das 11 da Globo, sabe-se que haverá nu traseiro, que seu tempo no ar será longo, precedido por uma discussão entre o par em questão, e que o conteúdo sexual foi “esvaziado”, nas palavras do diretor Vinicius Coimbra, em detrimento do aspecto afetivo.
Mas “está tudo ali, a cena tem tudo”, prometem Blat e Pereira. Os dois, assim como o diretor e o autor, Mario Teixeira, falaram com exclusividade ao Estadosobre o episódio, previsto para ir ao ar no dia 12, dentro de uma semana, emLiberdade Liberdade.
Considerada sodomia, a homossexualidade era tratada como crime de lesa majestade, naquele início de século 19. “O que importa são as consequências desse momento, e as consequências serão nefastas”, explica Teixeira. “Naquela época, a sodomia era considerada crime, com enforcamento. Não era nem preconceito, porque o conceito de homossexualidade nem existia, era tratado como ato inatural, como pecado.”
Autor, diretor e atores enfatizam, sobretudo, o tema da intolerância presente na novela em vários aspectos, como na questão da segregação dos negros, na religião, na violência doméstica, na violência contra os insurgentes à Coroa e contra a mulher. “Estou muito feliz por ter feito essa cena e pela Globo bancar isso, não só essa questão da homossexualidade, mas voltar a abordar a questão do negro, a questão da violência contra a mulher, vários casos horrorosos, e isso vem num ótimo momento, em que a intolerância tem se mostrado tão nociva”, diz Coimbra. Assim, o caso entre Tolentino e André está absolutamente inserido nesse contexto, o que deu a todos uma margem de compreensão que vai muito além da cena em si. De todo modo, o ineditismo da situação exigia cuidados extras. “Quando recebi a cena, fiquei pensando como abordar, como fazer com que o público não repudie o casal, é uma cena difícil, como sempre foi na televisão”, explica o diretor, que continua: “A intolerância era um caminho, a gente tinha que tirar essa cena da situação homossexual e criar uma identificação com o público para que as pessoas se vejam naquela condição de não serem aceitas. Quando vi a cena, vi uma cena de amor e não de sexo, e tentei colocar o máximo de poesia para que o público torça por esse casal”. Ricardo Pereira acredita que a torcida já existe. “As pessoas que acompanham a novela pelo Twitter estão torcendo muito por eles”, diz.

Tecnicamente, atores e diretor concordam que os cuidados no set são similares aos de qualquer cena com o sexo oposto. “Tivemos o mesmo cuidado”, garante Coimbra. “A gente trabalha com mais privacidade para que os atores fiquem muito à vontade, com o mínimo de pessoas no set.” E o que seria esse mínimo? “Ah, umas 12 pessoas”, responde o diretor. “Adoro fazer essas cenas com mais tranquilidade, sempre tem alguém no set que não precisaria estar ali, então tiramos.” Caio Blat endossa: “Não tem constrangimento a mais por isso, tem o mesmo constrangimento de ficar nu na frente de colegas, de repetir a cena várias vezes, a mesma coisa que a gente tem com uma atriz”.
Teixeira ressalta que o maior conflito a ser enfrentado pelos dois não virá de forças externas, mas dos próprios personagens, em especial de Tolentino, um militar reprimido que não aceita sua orientação sexual. “O julgamento vai acontecer aos olhos da sociedade, eles serão considerados culpados, mas o amor sempre redime tudo. As pessoas eram castigadas de modo muito severo, eles vão pagar caro por isso, mas o grande drama desses personagens é interno. Eles vão sofrer por serem quem são”, revela o autor.
Típico comportamento de quem não se aceita nessa posição, Tolentino parte para a agressão sobre as mulheres. “No dia seguinte à gravação da nossa cena, gravei uma cena em que eu espanco uma prostituta e a sufoco, quase até a morte. É uma coisa muito forte também, muito delicada. Esse conflito, para ele, é horrível, e ele vai se vingar dessa orientação nas meninas do bordel, na forma como ele maltrata as mulheres, na forma como vai bater em todo mundo, um ato de punição nele mesmo: ele vai tentar descobrir um montão de coisas que façam com que ele esqueça o que aconteceu.”
André vai tirar satisfação com o amigo, ao vê-lo com uma mulher, e alguém flagrará os dois juntos. Só o advogado será denunciado e preso. Mais ciente de sua orientação que o outro, não negará nem confirmará o que houve. Não à toa, a sequência teve referências fortes em filmes como O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee, que enfocava a paixão entre dois caubóis no Oeste dos Estados Unidos, nos anos 1960. “Mas eu acho que a nossa história está mais para Morte em Veneza”, anuncia o autor. “Tem várias referências, a gente pesquisou também Almodóvar e outras fontes, mas depois que nós vimos toda a cena editada e montada, posso dizer que a nossa é a mais bonita de todas”, promete Caio, que conta: “O Ricardo, quando viu, chorou, de tão linda que é a cena”.

INTOLERÂNCIAS ABORDADAS em Liberdade Liberdade
Violência doméstica
Dionísia (Maitê Proença) apanhava muito do marido, Terenciano (Jackson Antunes)
Segregação aos negros
Não só pela escravidão, mas também por negros alforriados que “andavam” com brancos, como Bertoleza (Sheron Menezes)
Segregação às prostitutas
Meninas do bordel não tinham direito ao convívio social
Segregação feminina
Papel social da mulher era reduzido à subserviência
Segregação religiosa
Tratada como bruxa, a curandeira Ascensão (Zezé Polessa) pode ir para a fogueira, pela Inquisição, como o judeu convertido a novo cristão Caldeira (Jairo Mattos)
Divergências ideológicas
Insurgentes contra o pensamento único da Coroa eram punidos com morte na forca e crianças eram privadas de escolas

Homossexualidade ainda é abordada com reservas na TV
Sem direito a beijo, Cristina Prochaska e Lala Deheinzelin formaram o 1º casal gay da telenovela brasileira em Vale Tudo (1989), de Gilberto Braga. A morte de uma personagem motivou debate sobre direitos civis. O autor voltou a abordar o tema em outras novelas, mas nunca enfrentou resistência tão grande como quando promoveu o beijo entre as personagens de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg em Babilônia. Mas o primeiro beijo gay em TV aberta foi no SBT, entre Giselle Tigre e Luciana Vendramini, na novela Amor e Revolução(2011), de Tiago Santiago. 
Na Globo, Alinne Moraes e Paula Picarelli trocaram selinho no fim de Mulheres Apaixonadas (2003). O beijo de fato só viria em Amor à Vida (2014), de Walcyr Carrasco, quando o bom moço Niko (Tiago Fragoso) redimia o vilão Félix (Mateus Solano).

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