Caiua Franco
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Cristina Padiglione
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Atuação de Chico Diaz causa comoção na novela 'Velho Chico'

Emoção termina com o assassinato do personagem

Entrevista com

Chico Diaz

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2016 | 04h00

Não é fácil mobilizar os olhares da plateia quando se está metido em moldura tão rica de elementos igualmente impressionantes, como é o caso de Velho Chico, a novela das 9 da Globo. Inserido naquela fotografia de encher a tela, nas linhas de um épico capaz de fazer o espectador chorar dia sim e dia também, Belmiro, o oprimido que não se permite oprimir, é um fiel retrato do brasileiro que não desiste nunca – e não vai aí nenhuma analogia a campanhas eleitorais que tenham se utilizado dessa imagem.

Chico Diaz foi aplaudido de pé por sua performance como o sertanejo retirante da saga de Benedito Ruy Barbosa, sob a precisa direção de Luiz Fernando Carvalho. Mas, convém reservar uma caixa de lenços para o capítulo de hoje, quando Miro, ao defender o filho Santo (Renato Góes) da fúria enciumada de Cícero (Pablo Moraes), toma um tiro fatal. “Ô, choradeira”, comenta o ator, em entrevista ao Estado por telefone. A morte de Miro causará enorme comoção no vilarejo de Grotas do São Francisco e promete manter o personagem vivo na memória afetiva do público.

Como você construiu essa figura, de traços rudes e alma doce?

Sempre tive muita vontade de retratar esse Brasil positivo, do trabalho, da vontade, da possibilidade de crescer, sempre fui muito observador, sempre me propus a cobrir a geografia brasileira do homem brasileiro em toda a sua extensão. O Belmiro se encaixa muito bem, não só pela geografia, mas também pelos tempos que estamos vivendo, pela oportunidade de o brasileiro esforçado criar seus filhos, plantar seu terreno, colher seu fruto. É um presente do Benedito e do Luiz. Esse personagem, nós temos em Vidas Secas, em Rachel de Queiroz, no (Cândido) Portinari, no Di Cavalcanti. São várias informações e fontes que temos dele, ao longo de 100 anos.

Ele já lhe foi apresentado com esse DNA?

Não, eu fui correr atrás, é uma responsabilidade minha. Fiz Corisco e Dadá, fiz O Baile Perfumado, fiz o Lua Cambará, eu tenho frequentado o Nordeste na minha carreira de cinema e tinha muitas informações de como poderia me aproximar do Belmiro, isso me apresentou os caminhos por onde eu poderia ir.

Belmiro vive nos anos 1960 e 70. A relação de opressão no Nordeste mudou na mesma proporção do avanço socioeconômico?

Eu vejo sempre metáforas. Para mim, como intérprete, tudo são símbolos, não um Brasil só de 60, de Francisco Julião, das ligas agrárias, mas também é o do forte contra o fraco em todas as instâncias. Podemos estar falando de anos 60, mas é plenamente adequado para os dias que correm, em se tratando do fraco, do pobre, da honestidade, do trabalho, de uma possível fertilização do seu terreno, essa coisa de criar filhos, ter um lado positivo. O acesso à informação é importante, o acesso à educação, a noção de pátria, a família.

Podemos esperar por uma reversão dos oprimidos sobre os opressores até o fim da novela?

Não posso adiantar como termina a história, mas essa esgrima, essa medição de forças é uma realidade brasileira. Nós temos sobrenomes arraigados desde as capitanias hereditárias, com aqueles grileiros de terra que até hoje exercem poder em todas as instâncias. Nesse sentido, continua havendo uma tentativa de autoestima do pequeno, uma tentativa de crescimento, de educação, mas também tem o lado de lá, que não quer muito que as pessoas se desenvolvam. Mas, aos poucos, a gente segue com vento favorável. A evolução do homem sempre se mostrou vagarosa.

Esse coronelismo passa pela figura arcaica do Saruê (Tarcísio Meira) e se institucionaliza no advogado, em tese civilizado...

É curioso esse confronto entre a Tropicália e o sertão agrário. Apesar de a pessoa ter visitado outras instâncias, a capital, de informações, da Tropicália, do modernismo, piração e liberação sexual, ao voltar ao seu âmago, é o conservadorismo que vai levar o Afrânio. É difícil se livrar do que somos, tanto do lado bom como do lado ruim. O peso da nossa história, temos que continuar carregando.

Miro ficará ao menos na memória afetiva dos personagens?

Sem dúvida. Ele é rico por ser raiz, por ser um elemento fundador, não só na questão da paternidade, mas no trato com a terra. São dois símbolos poderosíssimos. Ele funda a dinastia dos Santos, é o pai lembrado do Santo, que vai ser o Domingos Montagner, protagonista da segunda fase. Essa herança do bem, essa luz que o Belmiro traz na sua persistência, isso vai continuar na novela. Para ele, como grande herói, a vida não tem graça sem a morte. Então, ele encontra o seu destino, até para se manter vivo na lembrança da família. E para a história andar, né?

Que já vai correndo rápida.

Isso também é uma forma moderna de narrar. O Luiz Fernando aposta na inteligência do espectador, no sentido de não dar nada mastigadinho, de jogá-lo no espelho, para que as pessoas reflitam, nos dois sentidos do verbo – de refletir e de refletir-se. É uma luz que esclarece, abre caminhos, não é uma luz que só ilude, apenas, que entretém. Ele está realmente educando, trazendo valores, opiniões sobre nosso país, através de todos os temas que coloca na imagem. Fica aquela questão de que a novela é uma derivação da radionovela, que tem que ser muito falada e muito explicada e ele quebra com isso. Não tem que ser tão falada nem tão explicada. O espectador, no século 21, com a internet, já tem uma codificação muito mais inteligente.

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