Helen Sloan/HBO/AP
Helen Sloan/HBO/AP

Atriz de 'Game of Thrones' diz que sua personagem é um mistério até para ela

Carice van Houten, que interpreta a complicada Melisandre, fala sobre o ato final da Sacerdotisa Vermelha na última temporada da série

Jennifer Vineyard, The New York Times

04 de maio de 2019 | 03h00

Se você está planejando uma batalha contra as forças sobrenaturais do gelo, uma sacerdotisa vermelha com uma relação mágica com o fogo provavelmente tem de estar no seu sistema de discagem rápida. Felizmente para o pessoal envolvido na batalha de Winterfell, como vimos no episódio de domingo de Game of Thrones, Melisandre (Carice van Houten) ofereceu exatamente isso, mesmo sabendo que se retornasse ao Norte seria executada.

 

Seus atos – pondo fogo em armas e trincheiras, mantendo uma conversa incentivadora crucial – contribuíram para a vitória dos vivos sobre os mortos, mas isso teve um custo. Como ela previu, ela morreria nesta terra estranha e sua morte foi voluntária. Em uma entrevista por telefone, Carice van Houten relembrou sua complicada personagem. 

Foi um tremendo episódio para Melisandre. Você acha que foi uma conclusão satisfatória para sua personagem?

Eu achava que seria assim quando disse a Varys na Temporada 7 que ambos iríamos morrer. Na verdade, fiquei comovida quando li o roteiro. Acho que foi um belo final para a personagem. Infelizmente, ainda não assisti ao episódio. Lembro que a filmagem da cena foi muito intensa. Terminou com uma nota elegante e comovente, o que não vimos muito na história dela. E as reações das pessoas também significaram muito.

Espero que você tenha tido respostas muito mais gentis do que aquelas odiosas que costumava receber, e ainda recebe às vezes, quando as pessoas a associam à sua personagem.

Sim (risos). Jamais me senti pessoalmente ameaçada. Elas adoravam me odiar. Não me importo se odeiam a personagem, mas quando começam a misturar a personagem com a minha pessoa então a situação fica desagradável. E até certo ponto Melisandre, pelo menos, mereceu esse ódio. É uma reação lógica aos seus atos dizer a ela para desaparecer. Se você queima crianças vivas, que diabo! Por isso também acho que a série é muito boa porque brinca com as simpatias das pessoas. Também recebi mensagens adoráveis de Gwendoline Christie, Liam Cunningham e outros membros do elenco dizendo como estão felizes. Fico contente com o que eles sentiram por Melisandre. As pessoas subestimaram o caráter e a complexidade dessa personagem e fico feliz que não a veem como um demônio, seja lá o que for. Fiquei contente que no final ela mostrou alguma humanidade.

Você tirou conclusões do que sucedeu com ela entre o que vimos na temporada 7 e agora? Ela disse que iria para Volantis e, entre aquela ocasião e agora, seu poder aumentou. Alguma ideia do que sucedeu nesse tempo em que ela partiu ou como decidiu estar na batalha de Winterfell naquele momento?

É possível especular a respeito, mas não sei. Realmente, não sei. A personagem foi um mistério mesmo para mim durante esses anos. Quem é ela? Qual seu objetivo? Que idade ela tem, de fato? Mas às vezes o fato de não saber, acho eu, me ajudou. Consegui projetar minhas características nela e usar minha imaginação. Sempre achei que isso acrescentava algo mais à personagem e ela sabia que estava ali por uma razão, mesmo que não soubesse o que era. Ela precisava das visões no fogo para lhe dizer para onde ir. Necessitava do Senhor da Luz e ele, ou ela, guiou-a até lá. Ela não acha que tem poder, sempre foi honesta quanto a isso. “Não sou eu. Sou apenas um recipiente.”

É verdade, mas ela pode ter um poder que erroneamente atribui a um deus. E já errou antes.

Sim. E isso a afetou, mas quando trouxe Jon de volta a confiança retornou.

Como foi filmar a cena da trincheira?

Era minha última cena e foi emocionante porque eu tinha de dizer adeus. Ficou claro para mim, naquele momento, que Melisandre não estava ali para se beneficiar. Há muita empatia e esperança naquela cena mesmo que não se entenda as orações que ela faz. Foi um momento muito intenso.

Foi espetacular o momento em que ela acendeu as espadas dos Dothraki e também quando pôs fogo na trincheira. A coisa mais eficaz que ela fez na batalha foi motivar Arya.

Exatamente. Acho que isso também a iluminou e lhe conferiu humanidade, o que adorei. E eu sabia que elas retornariam a algum momento no passado e aos “olhos castanhos, olhos verdes, olhos azuis”. Foi significativo. E naturalmente, muitos fãs espertos no momento entenderam aquilo. 

Como interpretou a cena final, quando ela remove o colar, a ilusão de glamour e caminha como uma velha e cai? O que essa imagem final transmitiu a você?

Que o meu trabalho acabou aí. Cumpri o meu propósito. De certo modo, é uma espécie de sacrifício. Ou seja, suicídio soa um forte demais, mas foi isso. Ela está velha, anseia por paz. Está acabada.

Mas não totalmente. Ainda há muita coisa sobre ela que não sabemos. Sua vida anterior, como ela chegou ali, seus segredos, o que ocorreu quando era escrava, o que sucedeu antes de ela se ligar à religião.

Concordo. Eu também anseio por isso. Adoraria saber mais sobre ela, porque ela é misteriosa. Mas gosto disso. 

Talvez ela surja nas próximas séries que sucederão ‘Game of Thrones’. Melisandre viveu mais do que muitos personagens epoderá estar por aí durante a Conquista de Aegon ou a Dança dos Dragões.

E ainda poderei interpretá-la! Ela foi dominada por aquela religião e gostaria de ver quando isso começou. Gostaria de vê-la quando criança. Mas por mais doloroso e triste que tenha sido esse fim, acho que tinha de ser assim. Foram sete anos espetaculares e foi o momento perfeito. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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