Atores choraram de exaustão no treino

Atores choraram de exaustão no treino

DRAMA: Consultor cita que jovens não sabem o que foi a guerra, pois nunca passaram por privações

Fábio M. Barreto, especial para O Estado de S. Paulo

10 de abril de 2010 | 16h00

 

LOS ANGELES - Um senhor de sorriso bonachão, cabelos brancos, olhos azuis e postura invejável chega ao hotel Four Seasons, em Beverly Hills. Trata-se do consultor militar mais bem pago de Hollywood: Capitão Dale Dye, fuzileiro naval veterano do Vietnã, responsável pela veracidade de filmes como Platoon, O Resgate do Soldado Ryan, e das séries Band of Brothers e The Pacific. Seu trabalho vai além das informações técnicas. É ele quem treina atores para cenas de guerra.

 

"Atores tentam me enganar, afinal, é isso que fazem da vida, mas sei como deixá-los tão desconfortáveis que a única coisa importante é sobreviver aos próximos cinco minutos do treinamento; nesse momento, é possível despir cada um dos preconceitos e ensinar as coisas boas (conceitos militares)", comenta o capitão, de 66 anos. "Toda vez que alguém conta uma história de terror sobre o treinamento, pode apostar que estava pensando: ‘Como vou me safar desse velho grisalho e maluco?’".

 

Para The Pacific, Dye treinou dois grupos: os soldados americanos (50 atores) e os japoneses (35 atores). Cada grupo tinha um acampamento próprio e realizava exercícios de combate sem roteiro ou aviso. A tensão perante o inesperado era tão importante no treinamento quanto nas filmagens.

 

Acostumado a todo tipo de ator, Dye se surpreendeu com Tom Hanks durante a preparação para O Resgate do Soldado Ryan. "O fato de ele ser famoso não muda nada, pois o fiz sofrer do mesmo jeito, mas ele foi um dos mais cabeças-duras e insistentes que já tive. Nunca aceitava explicações simples ou dogmas", lembra o veterano. "Certa vez, precisei ensiná-lo a navegar no escuro e em terreno difícil usando uma bússola e um homem de referência. Foram horas de teoria e ele só deixou o treinamento seguir depois que fizemos a manobra, comigo funcionando como referência. Aí, ele entendeu o processo. Se ele não compreender, não é autêntico, logo, não aceita.".

 

Uma das coisas mais importantes, de acordo com Dye, é transmitir o momento histórico no qual aqueles soldados estavam inseridos. "Aquela geração pós-Depressão sabia o que era passar fome, conhecia uma vida de privações; esses conceitos são impensáveis hoje e definem brutalmente a reação dos atores perante as cenas mais árduas". Em The Pacific, durante o cerco em Guadalcanal, os soldados misturavam larvas no arroz para ingerir mais proteínas, pois passavam meses sem suprimentos."

 

O processo foi ainda mais traumático para os soldados japoneses, pois a maioria dos atores não fazia ideia do que foi a Guerra no Pacífico nem compreendia a extrema disciplina do Exército Imperial. "O inimigo precisa ser digno do esforço, não pode ser um Zé Mané agindo sem propósito. Explicar que muitos deles corriam na direção dos tiros sem questionar, e em nome do Imperador, é algo inimaginável para muitos".

 

Toda essa rotina, concentrada em dez dias de treinamento gerava reações emocionais nos atores. Alguns choravam por exaustão ou por evolução. "É preciso saber quando apoiar, afinal, treinamento militar não representa apenas gritos ou punição", diz o capitão. "Há momentos em que é necessário afastar a pessoa da rotina, oferecer um ombro amigo, conversar e respeitar suas reações".

 

Este é um trabalho indispensável para um bom filme ou série sobre guerra. Mas até o experiente capitão vê essa parceria com Tom Hanks e Steven Spielberg como algo fora dos parâmetros. "Analisando filmes sobre o Pacífico, Além da Linha Vermelha leva nota 3, enquanto The Pacific leva nota 9 em termos de veracidade, realismo e senso histórico."

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