Até parece que ele é da família

Ator fala sobre discreto espírito aventureiro de Lineu, o patriarca da Grande Família

Patrícia Villalba, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2008 | 21h42

Há oito anos vivido pelo ator Marco Nanini no seriado A Grande Família (Globo), Lineu é, como personagem, tão pacato e distinto quanto parece ser como pai e marido. "Ele é muito tranqüilo, não me aborrece. Posso ensaiar outro espetáculo que ele não se intromete, não tenta ocupar o espaço do outro", brinca o ator, no camarim do Teatro Cultura Artística, em São Paulo, onde, justamente, tem tido a permissão de Lineu para subir ao palco todos os fins de semana como Odorico Paraguaçu, na peça O Bem Amado. À vontade entre os dois personagens - tão diferentes e queridos do público -, Nanini recebeu o Estado.O Lineu é um homem comum, pacato, pai de família. E você já fez personagens histriônicos. Sob esse ponto de vista, é mais fácil ou mais difícil trabalhar com um personagem como ele?As duas coisas são difíceis. Dar forma a um personagem, seja ele qual for, é difícil. Leva um tempo para você se habituar, compreendê-lo melhor, passar da teoria para uma vivência mais emocional dele. Para começar a saber como ele pode sentir alguma coisa, não só a teoria do ator, mas também a teoria do personagem. É uma parte que eu acho penosa, vamos dizer. Depois, quando o personagem está afiado e você está se dando bem com ele, quando entra em harmonia, é uma viagem mais tranqüila, porque você já tem vários parâmetros, então consegue adaptá-lo, percebê-lo melhor. Isso é no começo. Mas depois de oito anos, um personagem como o Lineu não chega a ter vida própria?Não precisa nem ter oito anos, acho que chega uma certa altura em que, quando há essa simbiose, quando começa a ficar mais orgânico, o personagem começa a atuar no inconsciente da sua interpretação, e seu inconsciente passa a atuar na composição do personagem. O Lineu é o meio-de-campo, é o que dá credibilidade para a família, é o provedor. Isso dá um mapa de até onde posso ir.Vi um conjunto de fotos das oito temporadas do programa, e é divertido ver como ele (você no caso) foi mudando. Mas é uma mudança física. Você percebe grandes mudanças na personalidade, no jeito de ser do Lineu?Agora mesmo, neste ano, ele resolveu dar uma mudada, tirar uma licença da Vigilância Sanitária e voltar a ser veterinário. Mas sempre teve certo espírito aventureiro, que vem à tona quando ele perde um pouco o controle, bebe demais ou acredita demais no Agostinho. Só que essa semente aventureira nunca ficou explícita. São mudanças muito sutis, não vejo nada muito gritante. Mas sei que ela está em andamento. Até porque é necessário que mude, senão você fica congelado numa situação. Neste tempo todo nunca entrou em crise por estar há tanto tempo com o mesmo personagem?Não, acho que porque já tinha tido experiência parecida no teatro (ele ficou 11 anos em cartaz com a peça ?O Mistério de Irma Vap?). Ali, eu aprendi que você tem de descobrir onde pode se divertir, para que o dia-a-dia não seja previsível, senão fica chato. Comigo, o Lineu é muito tranqüilo, não me aborrece. Eu posso ensaiar outro espetáculo, que ele não se intromete, não tenta ocupar o espaço do outro. Eu sei que na hora certa vou encontrar com ele, e fazer de novo. No início, quando tinha as paradas de férias e voltava, levava um susto, demorava uns dois dias para me encontrar. Agora, não.Você reeditou o Lineu, que já foi de Jorge Dória, e agora, no teatro, o Odorico Paraguaçu, que já foi de Paulo Gracindo. Como lida com isso?Não. Esses dois atores são tão incomparáveis, que não vem um medo. Eu, por exemplo, como ouvinte de música, quando há uma música gravada por vários intérpretes, gosto de ouvir todas as interpretações. O artista trabalha para os seus contemporâneos. A obra de um autor fica. O texto do Dias Gomes está aí. Mas o Paulo Gracindo, infelizmente, se foi. Esse dado é fundamental. Eu já interpretei para a sua avó, para você e, agora, para sua filha. Mas é capaz que sua neta não me veja atuar. O medo é relativo, por isso não tenho não. Porque se tivesse, estaria perdido, tanto num caso quanto no outro.

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