Wilton Junior|Estadão
Wilton Junior|Estadão

Às vésperas dos 50, Malu Mader comemora sua volta à TV

Atriz terá papel na novela 'Haja Coração'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2016 | 05h00

Parece que foi ontem. Em 1986, Malu Mader já tinha currículo - pequeno, é verdade. Tivera participações em Eu Prometo, Corpo a Corpo e Ti-Ti-Ti. E, então, algo se passou. Maria de Lourdes da Silveira Mader formou dupla com Felipe Camargo numa minissérie de Gilberto Braga, Anos Dourados. A personagem chamava-se Lourdinha, como ela, mas, na verdade, a Maria de Lourdes real foi sempre Malu. Virou estrela, ícone de beleza, glamour. Gilberto Braga escreveu todos aqueles papéis para ela, Malu casou-se com Tony Bellotto, o mais belo dos Titãs. Tiveram filhos maravilhosos. Uma vida perfeita, um conto de fadas. Stop. Há dez anos, Malu enfrentou problemas graves de saúde. Deixaram cicatrizes (na alma). Há três, ela não fazia novela. Ei-la de volta em Haja Coração, a releitura de Sassaricando, mítica novela de Silvio de Abreu, de 1987. Malu faz uma personagem cômica. Está adorando.

“Fiz pouca comédia. Uma das raras foi O Mapa da Mina, e tive o privilégio de ficar amiga da Nair Bello, uma pessoa adorável. Os papéis e o Gilberto foram me orientando para outro tipo de personagem, mas sempre gostei de comédia. Meu pai adorava os grandes atores que faziam humor. Paulo Gracindo, Luiz Gustavo... Eu os via sempre com ele. Acho que foi o que despertou em mim o desejo de ser atriz.” Há 30 anos, a jovem Malu, aliás, Lourdinha, uma normalista, vivia aquele romance com o estudante Marcos, do Colégio Militar. Eram os anos 1950, e Gilberto Braga, com a direção de Roberto Talma, revisava os valores da classe média da época, tudo aquilo que ia mudar, se convulsionar, transformar pelos anos e décadas seguintes. Anos Dourados virou cult, como Sassaricando. “Sou ruim de data, mas não vi o Sassaricando porque estava gravando na época, acho que era Fera Radical, uma novela que me exigia muito. O fato de não ver não significa que não acompanhasse a repercussão de Sassaricando.”

E Malu observa - “Novela de sucesso é assim. Todo mundo comenta, você sabe tudo, mesmo que não veja, e naquele tempo mais ainda”. Havia a Tancinha de Claudia Raia, claro, mas havia Paulo Autran e as herdeiras Abdala, Tônia Carrero, Eva Wilma e Irene Ravache. “É da revisão desse núcleo que participo agora. Rebeca, minha personagem, é inseparável das amigas Carolina Ferraz e Ellen Rocche. Haja Coração não é bem um remake. Daniel Ortiz viu a novela original, que faz parte das referências dele, mas está fazendo um trabalho muito interessante de atualização. Nem por isso deixo de criar meu papel como uma homenagem. A Rebeca sofreu um revés de amor, foi embora do Brasil, mas voltou e reencontra o ex, que é o Alexandre Borges. O texto é muito leve, gostoso, o objetivo é divertir e eu estou curtindo demais essa mulher que já teve sua cota de sofrimento por amor e não quer sofrer mais. Entendo essas pessoas que se fecham, que têm medo de sofrer. Eu mesma passei por momentos duros há dez anos (Malu fez uma cirurgia no cérebro para retirar um cisto em 2005). Mas não tenho tempo para essas crises de meia-idade. Estou numa fase em que não quero sofrer nem na ficção.” E ela ri.

Esse riso faz parte da Malu solar que o repórter tem encontrado nos últimos anos, mais até em função do cinema que da TV. Ela foi a garota de programa Fátima de Bellini e a Esfinge, que Roberto Santucci, quando ainda não era o Sr. Bilheteria do cinema brasileiro por suas comédias, adaptou do livro do maridão. Malu formava dupla com Fábio Assunção, que fazia Bellini. Depois, foi o documentário que ela codirigiu (com Mini Kerti), Contratempo. E os muitos encontros durante o Festival do Rio, porque Malu é cinéfila de carteirinha. Ela admite estar bem, hoje em dia, focada em seus projetos - vai dirigir um longa. Em breve, espera. “Mas ninguém passa pelo que passei sem carregar cicatrizes. A vida não é um conto de fadas, mas eu amo viver. Espero passar esse sentimento de que existe esperança e felicidade para as mulheres de 50 anos.”

Serão 50 anos em setembro, dia 12. Malu é virginiana. Por se tratar de uma atriz e da mulher de um músico e escritor, você é capaz de pensar que não existe rotina na vida dela. “Mas existe, sim, e eu gosto. Em função da saúde, precisei fazer exercício e descobri o tênis. Gosto de jogar. E tem o hábito de almoçar e jantar em família, com os filhos. A gente é muito grudado, conversa muito e eu curto essa coisa de ter de administrar uma casa.” A vida em família é muito importante para ela. “O Tony diz sempre que sou a primeira leitora, a primeira ouvinte dele. A gente é muito amigo, tem muito diálogo. O amor tem de ter amizade.” O pai teve esse papel superimportante que ela já falou. E a mãe... “Ela foi sempre uma bússola para mim. Minha mãe é uma mulher que curtiu intensamente cada fase da vida dela, e passou isso para mim. Não sou mais aquela jovem Malu no imaginário das pessoas, mas sou essa mulher madura e feliz, apesar das dificuldades no meio do caminho. A felicidade também não é um estado permanente nem deve ser. Todo mundo tem altos e baixos, por que não teria os meus?”

E ela prossegue - “Envelhecer é difícil para todo mundo e, há dez anos, eu passava por um momento mais delicado da minha vida. Nem posso me queixar, pois essa profissão é generosa. Tem sempre um papel para cada fase da vida da gente.” A meta atual de Malu é dirigir. Ela foi estagiária no set de O Rebu, a minissérie de George Moura e José Luiz Villamarim. Adorou acompanhar o trabalho dos diretores, no plural (Villamarim e Walter Carvalho). “Eles foram muito bacanas comigo, me aceitando no set. Achava O Rebu uma novela ousada, original. E me perguntava por que não faziam, não atualizavam.” 

Malu dirigiu clipes e um documentário de forte pegada social, mas acha que a arte não precisa ser necessariamente engajada. “A arte tem de ser livre”, reflete. Enquanto se prepara para o longa, e ela não quer ficar falando sobre o assunto - “Tenho de fazer, te chamo para o set”, promete -, Malu elogia colegas, atores que passaram à direção. “O Selton (Mello) tem feito um trabalho muito bacana, que tenho acompanhado. O Matheus (Nachtergaele) fez aquele filme maravilhoso (A Festa da Menina Morta).” Como cinéfila, segue o cinema argentino, e Ricardo Darín. “O que é esse Truman, que ainda taí?” Sua expectativa é pelos novos filmes de Pedro Almodóvar e Woody Allen. “Estou louca para ver Café Society”, anuncia.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.