Mike Yarish, Netflix
Mike Yarish, Netflix

Aos 74 anos, Michael Douglas estrela a série ‘O Método Kominsky’

Série de Chuck Lorre sobre envelhecimento e mortalidade também tem Alan Arkin

Dave Itzkoff, The New York Times

25 de dezembro de 2018 | 03h00

Sandy Kominsky não é exatamente um homem na flor da idade. Já foi um disputado treinador de dramatização de estrelas, mas hoje vive de ensinar aspirantes a Hollywood a enfrentar entrevistas para atuação em séries de TV ou em comerciais de xampu. Ele tem três casamentos fracassados, uma filha adolescente que não o leva a sério e um corpo que começa a se rebelar contra o dono. Assim, quando Michael Douglas foi convidado e fazer o mal-ajambrado protagonista da nova série cômica da Netflix O Método Kominsky, ele disse que só havia um meio de dar conta da tarefa, aos 74 anos: “Com graça e alegria”. E acrescentou: “Se é para encontrar comédia em envelhecer, eu sou o cara”.

Não é bem como o público vê Douglas. Em seus filmes mais famosos, como Atração Fatal e Instinto Selvagem, seus personagens requintados e agressivos acabaram por colar nele um certo machismo americano dos anos 1980-90. Não importa quão mal vestido e desprezado seja seu personagem, Douglas será sempre associado a Gordon Gekko, o elegante, inescrupuloso e cruel capitalista de Wall Street – Poder e Cobiça, de Oliver Stone.

Ele, que já foi um ator onipresente, idolatrado e altamente lucrativo, hoje apenas vive em paz com a aceitação de que tais glórias não duram para sempre. Nunca sentiu o peso da decadência, como Sandy Kominsky, mas sua vida sofreu nos últimos anos alguns fortes solavancos. Ele superou o câncer, para vir a desempenhar alguns dos melhores papéis de sua carreira. Foi também acusado de assédio sexual por uma ex-assessora. 

Depois de tudo isso, não está claro como Douglas vê a si mesmo, ou mesmo se tem uma autoimagem bem definida. Em sua percepção, ele não é nem um badalado produto do show business nem um superconfiante senhor do universo. Planejamento de longo prazo também não é sua praia – “nunca penso sobre que diabos eu tenho que fazer”.

Então, por que não fazer neste momento mais ou menos descompromissado de sua carreira, e de incertezas na indústria cinematográfica, o malvestido septuagenário de baço inchado e próstata hipertrofiada – seu primeiro papel na televisão desde os anos 1970? Como Douglas explica, “eu entendo esse cara cuja vida não correu exatamente como ele queria”. 

Nada parecia errado na vida de Douglas naquela tarde de outubro em que nos recebeu em seu luxuoso apartamento do Central Park West, que ele tem há 30 anos. Douglas estava sentado num canto discreto da sala de estar. A luz do sol que entrava por uma janela próxima iluminava seus cabelos prateados e o sorriso em seu rosto. 

Troféus, como os Oscars por Wall Street e Um Estranho no Ninho (que ele ajudou a produzir), ficam em frente de livros nas estantes. As paredes são decoradas com souvenirs exaltando seus pais famosos: antigos pôsteres de filmes, como O Rio da Aventura, com o pai, Kirk Douglas, e uma edição da revista Life de 1943 trazendo na capa sua mãe, Diana Douglas, atriz e aristocrata das Bermudas.

Apesar do óbvio pontapé inicial, Michael Douglas diz que ele próprio construiu sua carreira, durante décadas. Como marcos da longa jornada, ele destaca os anos em que trabalhou com Karl Malden na série policial de TV San Francisco Urgente; os esforços para fazer Um Estranho no Ninho depois de o pai ter desistido de estrelar o filme baseado no romance de Ken Kesey, do qual comprara os direitos; e a conquista do Oscar com Wall Street – Poder e Cobiça, em 1988.

Velhos amigos de Douglas dizem que ele sempre teve um espírito livre. Danny DeVito, que trabalhou com ele em Um Estranho no Ninho, Tudo por uma Esmeralda e A Guerra dos Roses, lembra-se de que o conheceu na National Playwrights Conference em Waterford, Connecticut, nos anos 1960. De Vito conta que quando os dois se ofereceram ao mesmo tempo para ir comprar mais cerveja, “de repente nos encaramos e eu perguntei: ‘Você está alto?’ E ele respondeu: ‘Sshtou!’. Somos amigos desde então”. 

Segundo DeVito, Douglas às vezes pode ser ousado, mas também é sério e simpático. Ele assinala que a importância da criação de Douglas como filho de pais divorciados é com frequência diminuída. Kirk e Diana se separaram quando Michael tinha 5 anos, e o padrasto do menino, Bill Darrid, teve forte influência na vida dele. “Muitos dos valores de Michael, como sua sensibilidade e preocupação com os outros, vieram da mãe e do padrasto.”

Douglas é pai de três filhos. Cameron é filho de seu casamento com Diandra Luker. Carys e Dylan, do casamento com Catherine Zeta-Jones. 

Ele é também sobrevivente de um câncer estágio 4, diagnosticado em 2010 – “um tumor do tamanho de uma amêndoa, na base de minha língua”. Diz que optou por dizer que era câncer de garganta, pois “a perspectiva de ter a língua removida e não poder mais falar não era nada bonita”. 

Douglas temia que o estigma da doença pudesse marcá-lo para sempre aos olhos da indústria cinematográfica – “isso se eu sobrevivesse, se pudesse falar”. Conseguiu, porém, retornar fazendo Liberace no filme de Steven Soderberg Minha Vida com Liberace. O desempenho valeu a Douglas um Emmy, mas não lhe trouxe grandes oportunidades – a maioria dos convites que se seguiram foi para filmes independentes, de baixo orçamento. Então veio O Método Kominsky. Chuck Lorre, o criador da série, é conhecido por outros programas como The Big Bang Theory e Mom, que são sucessos, mas não se desgarraram da consagrada fórmula multicâmera das sitcoms.

Em O Método Kominsky, Lorre quis uma filmagem com câmera única e sem fundo de risadas, o que, segundo ele, permitiria abordar melhor temas como envelhecimento e mortalidade, geralmente estranhos às sitcoms. “Acabei de fazer 66 e quero saber se existe comédia nisso”, disse Lorre. 

Um ano atrás, Lorre começou a esboçar o relacionamento entre os principais personagens da série: um poderoso executivo da área de entretenimento (vivido por Alan Arkin) cuja mulher morre de câncer no primeiro episódio, o que faz Kominsky perceber que seu próprio tempo na Terra é não só medíocre como limitado. 

Arkin disse que nas filmagens Douglas era “flexível e presente”. E acrescentou: “Há algo de cativante em seu personagem que acho que nunca vi antes: uma vulnerabilidade muito atraente”. Outros acham que existe uma brecha entre o Douglas da tela e o real e não compartilham dessa avaliação. 

Em janeiro, Susan Braudy, jornalista e executiva do cinema que dirigiu o escritório nova-iorquino da produtora de Douglas no fim dos anos 1980, acusou-o de assédio sexual. Ela disse ao Hollywood Reporter que Douglas usava repetidamente linguagem sexual chula perto dela e uma vez se masturbou em sua presença. Antes de as acusações virem a público, Douglas deu uma entrevista preventiva ao Deadline, publicação rival, para negar tudo. Em nossa entrevista, ele me disse que as acusações de Braudy eram “mentiras totais que chocaram e feriram a mim e a minha família”. E, sobre como trata as mulheres, disse: “Minha carreira fala por si”. Por e-mail, Braudy respondeu: “Michael Douglas é um grande ator e um manipulador muito habilidoso”. E acrescentou: ‘Ele acreditava que seu poder era tão maior que o meu que podia fazer brincadeiras sexuais desagradáveis e nojentas sem maiores consequências, até se deliciando como meu extremo desconforto”. 

Enquanto espera para saber se haverá novas temporadas de O Método Kominsky, Douglas experimenta novos meios de se comunicar com o pai ilustre, de 101 anos. “Ele acabou de descobrir o FaceTime”, contou. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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