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Animação 'Big Mouth' expõe, com humor psicodélico, o terror da puberdade

‘Big Mouth’, da Netflix, tem narrativa cômica e nonsense para tratar da adolescência

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2017 | 16h50

Através das lentes da nostalgia, pode-se perder a noção da realidade. Portanto, é melhor soltar a verdade logo de uma vez, como um direto de esquerda desferido enquanto a guarda do adversário ainda está baixa: a puberdade é um saco. De repente, pelos surgem em lugares estranhos, braços e pernas se alongam, a voz muda. A criança outrora bonitinha se torna um alienígena de forma estranha e hormônios a brotar pelos poros. Ainda há a descoberta da sexualidade. Entende-se pouco, revolta-se com tudo. É o primeiro grande desafio para uma vida adulta repleta de boletos a pagar. 

É preciso vencer o primeiro grande teste que é a transformação corporal e sensorial. Não é fácil, gera traumas carregados até o fim da vida, mas é inevitável. A partir da ideia de que o início da adolescência não era nada simples, a animação Big Mouth, da Netflix, decide esmiuçar o período com humor, escatologia e boas doses de episódios completamente nonsense. Um exemplo, para se ter ideia de que não há limites para Big Mouth: em certo momento, um garoto transa com um travesseiro e, este, engravida dele, dá à luz um travesseirinho e foge. 

A série é criada a quatro mãos, por Nick Kroll, Andrew Goldberg, Mark Levin e Jennifer Flackett, mas o foco está na relação dos dois primeiros deles. Kroll e Goldberg são amigos desde a infância e viveram os anos de puberdade no subúrbio de Nova York. Embora seja ficcional, Big Mouth é um resgate ao tempo no qual os dois guris eram incapazes de lidar com seus hormônios. 

Na trama, Kroll tem a sua própria versão em animação, como o personagem Nick, um garoto baixinho, com dentes grandes demais, aconselhado pelo fantasma de Duke Ellington (sim, o jazzista), o curioso morador do sótão da casa dele. Goldberg disfarça-se na pele de Andrew Glouberman, um rapaz magro, alto e dono de alguns corajosos pelos no buço que, em alguns anos, se transformarão em um bigode – mas há longo caminho pela frente. 

As desventuras da dupla, que por vezes se torna um trio com a chegada da garota Jessi Glaser, é acompanhada de perto pelo personagem mais interessante da animação, o chamado Monstro do Hormônio, o verdadeiro responsável por provocar os impulsos sexuais sentidos pelos garotos quando estão perto de meninas e pôr colocá-los em situações desconfortáveis. Há, é claro, a versão feminina do Monstro que se revela a Jessi quando ela percebe as mudanças no seu corpo e passa a se descobrir como mulher. 

Não deixe que as imagens de Big Mouth enganem. Não há nada inocente ali. As piadas são dignas de garotos e garotas de 5.ª série – afinal, é a idade dos protagonistas. E vão incomodar os mais pudicos. Fala-se abertamente sobre sexo, sobre órgãos sexuais e tudo aquilo que os jovens, quando chegam a essa idade, querem saber, mas têm vergonha de perguntar. 

É o típico humor de Goldberg, produtor e roteirista de Uma Família da Pesada, animação criada por Seth McFarlane, dono de um gosto enorme para o humor proibido, por vezes até ardido de assistir. O choque, para ele, é algo bom. Enquanto Uma Família... é um programa para TV fechada, nos Estados Unidos, Big Mouth encontra seu hábitat natural na grade da Netflix. Lá, tem liberdade para explorar a invencionice que quiser, como o psicodélico episódio no qual um dos garotos se vicia em pornografia ao sofrer uma desilusão amorosa e é sugado para dentro do histórico do navegador de internet do seu computador. 

Mais do que humor pelo humor, Big Mouth é um estudo sobre a transformação para vida adulta. Sobre descobrir as falhas dos pais e mães, antes heróis. Descobrir o sexo e o prazer. Sobre se apaixonar e ter medo. É sobre um dos momentos mais solitários da vida de qualquer um, afinal, cada transformação é muito particular, cada corpo reage de uma forma. E, principalmente, Big Mouth faz sorrir quem tem 30 anos e sabe que essa fase, felizmente, está há anos de distância. 

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