Análise: Repetição e prazer, a vida (e a morte) do ‘show da vida’

Ainda há lugar para a telerrevista dominical 'Fantástico' na TV?

Eugênio Bucci, Especial para o Estado

05 Agosto 2018 | 06h00

O Fantástico ficou ultrapassado? A fórmula da “telerrevista dominical” estaria esgotada neste nosso tempo em que a família já não se reúne para ver televisão no domingo à noite. Existe ainda algum sentido num programa que supõe a família como espectadora? Há lugar para isso na era da internet e das redes sociais?

Perguntas assim incomodam não apenas a Rede Globo, mas empresas de televisão aberta no mundo inteiro. É sabido que os supereventos esportivos, como a Copa do Mundo, turbinam os negócios da TV aberta em vários países. No Brasil também. Mas aqui, além do futebol, outros formatos mostram vitalidade. A telenovela segue de pé, embora claudicante, com seus diálogos mal resolvidos e suas situações forçadas. Entre outros sinais de força, o horário eleitoral gratuito talvez seja o mais eloquente. Pesquisas apontam que o fator preponderante na formação da opinião do eleitor segue sendo a velha televisão. Tanto é assim que os partidos entregam os princípios que têm (e os que não têm) em troca de uns segundos a mais no horário eleitoral. A velha TV está longe do fim, contrariando as profecias reiteradas. A TV esbanja saúde quando mostra o conhecido (o velho futebol, por exemplo) com pitadas de novidade.

É nessa perspectiva que o Fantástico não ficou ultrapassado. Nenhum outro programa demonstra tamanho engenho para combinar a reedição de truques antigos, repetidos, com realces de novidade. A indústria do entretenimento é isso. Enquanto promete ruidosamente o novo a cada segundo, oferece repetições sobre repetições. O consumidor ama. 

O prazer do espectador pode até fingir que gosta de novidade, mas adora mesmo é reconhecer o que já conhece. Como as crianças que gostam sempre de voltar às mesmas fábulas infantis, as massas se refestelam no reencontro com o gozo do qual sentem falta. É como no vício. Os circuitos por onde trafegam as fantasias sexuais na imaginação dos viventes também vivem de repetições. Os percursos são os mesmos. São repetidos. Eis aí a razão pela qual a indústria do entretenimento funciona segundo as mesmas chaves. Prazer e repetição são a receita dos campeões de audiência.

O Fantástico, esse museu de grandes novidades, ou essa novidade preenchida pelos museus afetivos de cada um de nós, virou uma instituição nacional porque soube revestir com trajes novíssimos a emoção, tão antiga, de acreditar que viver é um esforço que vale a pena. O programa vai ao ar na hora em que tem início a ressaca do final de semana, no instante em que o desânimo e, não raro, a hipótese do suicídio vêm arranhar a consciência da gente. 

O Fantástico é, como sempre foi, uma peça estética a nos convencer de que seremos capazes de enfrentar a segunda-feira. Sua missão (não escrita) é convencer seu público a seguir acreditando na humanidade. O “show da vida” tem ido cada vez mais longe para narrar a aventura humana. Foi no Fantástico que os brasileiros viram a melhor cobertura sobre a inacreditável operação de resgate que salvou aqueles garotos de um time de futebol de um país remoto. Foi no Fantástico, também, que a cobertura mais fez lembrar o circo espetaculoso de A Montanha dos Sete Abutres, o filme esplêndido e penetrante, de 1951, dirigido por Billy Wilder. A aventura humana é um circo, por mais verdadeira que seja.

O Fantástico não ficou ultrapassado graças ao seu jornalismo e às suas reportagens, cada vez mais competentes, sobre esse tal de “show da vida”. Até mesmo as denúncias de corrupção do “repórter secreto”, ao tratar da tragédia do desvio generalizado do Erário, oferecem pitadas de otimismo. Sendo verdadeiro, sem deixar de ser circo, o jornalismo no Fantástico reanima a esperança de quem não sabe mais o que esperar.

O Fantástico é a prova de que, mesmo quando a família em carne e osso já desistiu de se reunir em torno da tela, um certo sentimento de família segue intacto, como uma nostalgia pungente, nos laços imaginários que ainda unificam um país tão segregado. Não, o programa não caiu no anacronismo. Não é página virada, ainda, embora, a qualquer momento, talvez tenhamos de encarar o atestado de óbito do “show da vida”.

ARTICULISTA DA PÁGINA 2 (SEÇÃO ‘ESPAÇO ABERTO’) DO ‘ESTADO’ E PROFESSOR TITULAR DA ECA-USP

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