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Análise: Os anos 1980 foram um apimentado caldeirão que deixou saudades

A Globo procurou pescar novos talentos reorganizando festivais

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2017 | 16h00

Era preciso furar o cerco de uma cultura brasileira acomodada, que não explorava as contradições do Brasil urbano e industrial. John Travolta, Olivia Newton-John, Cid Moreira, Flávio Cavalcanti representavam a alienada cultura elitizada. Ninguém ousava emitir opiniões. O conformismo fez parceria com a autocensura. Só Glauber Rocha se salvava no programa Abertura (Rede Tupi). Tom Zé era sensacional. Com Jards Macalé, Jorge Mautner e Luiz Melodia, eram tachados de malditos. Pelos jornais, rádios e TVs, não acontecia nada, nada, nada de relevante. 

A Globo procurou pescar novos talentos reorganizando festivais. O MPB-80 teve a final no Maracanãzinho. Oswaldo Montenegro ganhou com Agonia. Que agonia. Foi Deus Quem Fez Você, de Amelinha, ficou em segundo. Que desespero. Mas no MPB-81, lá estava Perdidos na Selva, de Júlio Barroso. Passou desapercebida. A velha esquerda não seduzia mais uma juventude que, depois de ler os existencialistas, começava a ler os beats e Nietzsche. Os Anos 80 começaram em 1977. Numa galeria do centro de São Paulo, chegavam os primeiros vinis nada comportados dos Ramones e Sex Pistols.

Na peça Trate-me Leão, do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, duas garotas andavam pelo palco doidonas de Mandrix. Queriam transar com Chubby Doo: “Escuta aqui, garanhão, bonitão, gostosão da minha vida, duas mulheres te esperam ardentemente. Vou esperar por você completamente nua”.

Nunca tínhamos visto nada parecido. Nem pareciam atores (Regina Casé, Luiz Fernando Guimarães, Evandro Mesquita). Esboçavam temas do cotidiano. Não por outra, Hamilton Vaz Pereira, o diretor, está na série do Canal Viva. Com Evandro, que explodiu anos depois com a banda Blitz. 

Não tínhamos fé no futuro. No teatro, outros grupos seguiram a mesma onda. Ornitorrinco, Manhas & Manias de Débora Bloch e Andrea Beltrão e o besteirol de Pedro Cardoso e Miguel Falabella levavam a anarquia para os palcos.

Você Não Soube me Amar arrebentou. Lançada em 1982 pela EMI Odeon, levou gravadoras multinacionais em busca do novo rock underground, de uma juventude tachada de alienada, a Geração Coca-Cola (ou Geração AI-5).

Titãs se formaram no Colégio Equipe. Em Brasília, Aborto Elétrico se dividiu em Capital Inicial e Legião Urbana. Paralamas estourou. O Ira!, também. Lobão saiu da Blitz e fez uma carreira ampla. Leo Jaime indicava o franzino Cazuza à banda Barão Vermelho.

Em 1981, os punks lotavam shows no subúrbio, organizavam festivais. No ABC, surgia um punk oriundo do movimento operário. Olhar Eletrônico (Fernando Meirelles, Marcelo TAS) dava os primeiros passos na renovação da TV brasileira. Tadeu Jungle levou tudo isso para a TV Cultura (Fábrica do Som). Enfim, a Globo reagiu. TV Pirata e Armação Ilimitada afanou do besteirol os melhores talentos.

* MARCELO RUBENS PAIVA É ESCRITOR E COLUNISTA DO 'CADERNO 2'

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