Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Análise: O mundo sempre foi um pandeiro para Jorge Fernando

Jorge Fernando, que morreu aos 64 anos, amava a comédia e criou a memorável 'Guerra dos Sexos' e fez história com 'Sai de Baixo'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

28 de outubro de 2019 | 09h55

Jorge Fernando era um sujeito turbinado. O repórter sabe porque teve a oportunidade – o privilégio? - de vê-lo em pleno trabalho. Foram dois sets de cinema. Jorge Fernando tinha um pique muito grande. Dava instruções ao elenco, aos técnicos e depois, ao acompanhar a cena, talvez por ter sido ator, você podia ver que ele movia os lábios como se também estivesse dizendo o texto e aí, quando surgia algum improviso, ele se surpreendia e você podia ver a alegria estampada na cara. Jorge Fernando esteve dois anos afastado da TV, devido a um AVC. Voltou este ano na direção da novela Verão 90.

Era divertida, com uma pauta leve, positiva. Quem viu, e o repórter, convalescendo de uma cirurgia, assistiu a quase um mês de novela no hospital, só podia rir e se emocionar com o casal jovem, com as duas mães (a boa e a socialite, isto é, a má) e o vilão, na verdade, o irmão ambicioso, capaz de tudo, até de passar como rolo compressor sobre a própria família, para tentar chegar lá (no topo). A novela talvez tivesse um componente autobiográfico para ele, porque contava a história de um trio que começou criança, na TV, e Jorge Fernando, que morreu aos 64 anos, iniciou-se em 1978 – há 41 anos – com Ciranda, Cirandinha.

Tudo bem, ele não era criança, mas era muito jovem, adentrando o mundo do espetáculo, do showbiz. Logo aprendeu a dominar sua mecânica. Tornou-se cúmplice de atores e autores. E ele amava a comédia. Servindo ao texto de Silvio de Abreu, criou a memorável Guerra dos Sexos, em que Fernanda Montenegro e Paulo Autran contracenavam em cenas de pastelão – os dois mitos da representação dramática no teatro do País.

Anos depois, Jorge Fernando dirigiu-os de novo, no remake, em 2012. Nos 90, alcançou sucessos memoráveis com novelas como Rainha da Sucata, em que Regina Duarte teve um de seus grandes papéis; Vamp, uma deliciosa paródia de vampirismo; e de novo Silvio de Abreu - Deus nos Acuda e A Próxima Vítima. Os dois sempre tiveram no DNA o gosto pela chanchada e pelo teatro rebolado como expressões brasileiras.

Esse mundo sempre foi um pandeiro para Jorge Fernando, como foi para Oscarito, Grande Otelo. E o Brasil parou no último capítulo de A Próxima Vítima, à espera da revelação do assassino. Misturando teatro e TV, fez história nas noites de domingo com o Sai de Baixo Caco e Magda, Miguel Falabella e Marisa Orth, integraram-se às famílias brasileiras e o bordão 'Cala a boca, Magda!' adentrou o léxico nacional. Voltou a ser ator no seriado Macho Man e dirigiu a estrela Claudia Raia no musical Não Fuja da Raia.

No cinema dirigiu, Xuxa Gêmeas, Sexo, Amor e Traição, com Malu Mader, Alessandra Negrini, Fábio Assunção e Murilo Benício. Foi ator em Se Eu Fosse Você 2. E dirigiu também A Guerra dos Rocha, remake brasileiro de um grande sucesso argentino – Esperando la Carroza. O filme não foi nenhum blockbuster, e foi pena porque Ary Fontoura, travestido como matriarca, poderia ter recebido todos os prêmios do ano. Estava excepcional. A crítica e o público foram preconceituosos, porque, na França, anos depois, Guillaume Galienne venceu o César, o Oscar francês, com Eu, Mamãe e os Menino, também criando uma personagem de travesti e no Brasil Paulo Gustavo virou fenômeno de público com a Dona Hermínia de Mamãe É Uma Peça.

 

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