AFP/ Angela Weiss
AFP/ Angela Weiss

Análise: Nona temporada de 'Drag Race' chega ao fim com revolução de comportamento e consumo de TV

Ao fim de mais uma temporada, 'RuPaul's Drag Race' continua dando visibilidade e aumentando a popularidade da velha arte do ser drag queen

Pedro Rocha, ESPECIAL PARA O ESTADO

24 de junho de 2017 | 16h36

A arte de ser drag queen é antiga, no mundo inteiro. O termo propriamente dito surgiu ainda no século 19 para designar atores homens que faziam papéis femininos. A popularização veio da metade para o final do século 20, principalmente em festas LGBT. No Brasil, um pedaço da história das nossas transformistas está no recém-lançado documentário Divinas Divas, estreia na direção de Leandra Leal, em cartaz nos cinemas. 

Foi um longo caminho até aqui, de drag queens históricas que sofreram e construíram o pavimento para as novas gerações, e o avanço e a popularização estão em linha crescente e revolucionando não apenas a própria cultura drag em si, mas também o comportamento de um grupo de consumidores dessa arte. O principal responsável por isso, sem dúvidas, é o programa RuPaul's Drag Race, o reality show que elege a cada ano uma nova representante a maior drag queen do mundo na atualidade, a própria RuPaul. 

Em 2017, em sua nona temporada, o programa passou, nos EUA, do pequeno canal Logo, voltado ao público LGBT, para o mais abrangente VH1. Com isso, Drag Race bateu recordes de audiência e de mobilização nas redes sociais. Mais importante do que isso, criou uma nova cultura para fãs do programa, principalmente para os LGBT. 

No Brasil, nada de esperar a temporada ser comprada por algum canal brasileiro para ser exibida no País, anos após seu lançamento. Ou de esperar para baixar os episódios ilegalmente no dia seguinte. Muita gente criou um novo hábito, ver o episódio durante a transmissão nos EUA, através do site da VH1. Um protesto silencioso de que há um público não explorado pelas emissoras brasileiras. 

Mais do que isso. Se o público heterossexual sempre se reuniu em bares para assistir a partidas de futebol, agora é a vez dos LGBTs aproveitarem a oportunidade de se reunir em torno da sua nova competição favorita, o drag. Assim como nos Estados Unidos, bares brasileiros começaram a exibir, em telões, os episódios do reality a cada nova sexta-feira. O resultado? Casa cheia e público ocupando até mesmo as ruas para descobrir quem seria a nova drag queen superstar eleita por RuPaul. 

A final do campeonato

A grande final da nona temporada, na noite da última sexta-feira, 23, teve ares de uma final por pênaltis no futebol. As quatro finalistas se dividiram em duplas para “dublar por suas vidas”, primeiro Peppermint e Trinity Taylor com a música Stronger, de Britney Spears. Com a revelação de uma segunda peruca e um segundo vestido, Peppermint, que é drag há mais de uma década e assumiu ser uma mulher transexual durante o programa, levou a melhor. Uma vitória não só para ela, mas também para a diversidade. No reality, a artista chegou a desabafar sobre a dificuldade de ser uma mulher trans que ganha a vida sendo drag queen.

Na outra semifinal, Shea Coulé e Sasha Velour precisaram dublar So Emotional, de Whitney Houston – e o resultado foi digno da música. Sasha fez uma verdadeira performance, soltando pétalas de rosas pelo palco. Foi a vitoriosa. Na final, contra Peppermint, mais uma surpresa: se despiu de uma máscara na interpretação de It's Not Right But It's Okay, também de Whitney. Vitória, mais uma vez. 

O programa não poderia pedir uma campeã melhor que Sasha, que sabe o papel da sua arte e está disposta a usar sua coroa para espalhar uma mensagem. “Eu acredito no drag como forma de ativismo”, opina Sasha em entrevista à Entertaiment Weekly publicada após a vitória. “É centrado em pessoas queer e em formas estranhas de ser belo, especialmente no contexto político em que a beleza é meramente definida pelo que é considerado importante.”

“Eu tenho como certo que drag ainda é sobre entretenimento, e entreter e tratar de forma leve sua identidade é uma forma de resistência, também”, completa na entrevista.

Ao mesmo tempo em que a nona temporada significou um avanço para a arte drag e para a representatividade do público LGBT na televisão, porém, viu-se surgir um lado negativo que está presente também, coincidentemente ou não, no futebol: a briga de torcidas. Com a polêmica eliminação da drag queen Valentina, quando ela se recusou a retirar uma máscara para fazer a “dublagem por sua vida” no programa, seus fãs começaram uma onda de ataque às drag queens que continuaram na competição, inclusive com ameaças de morte. 

“Algumas pessoas não são, particulamente, respeitosas, porque para elas nós não somos pessoas reais, nós somos personagens de TV”, acredita Sasha. Para combater a violência entre os fãs de drag queens, a nova campeã e a sua vice, Peppermint, vão viajar por universidades dos EUA para debater o assunto. “Muitos fãs de drag não conhecem ou têm acesso, necessariamente, ao cenário completo”, explica Velour. “Talvez com mais discussões sobre o que é a história do drag e quais os tipos de drag que existem por aí, as pessoas terão um pouco mais de contexto e podem mudar a forma como irão falas sobre o programa nas próximas temporadas.” 

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