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Análise: 'Narcos' disseca o crime como atividade bilionária

Wagner Moura inaugura a era do criminoso visionário, que sabe usar a informação, na série de José Padilha para o Netflix

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 de setembro de 2015 | 14h37

Toda a obra, brasileira e internacional, de José Padilha pode ser vista como uma tentativa de entendimento e discussão das questões sobre segurança no mundo contemporâneo. Seus maiores sucessos de público e crítica, os dois filmes da série Tropa de Elite, tratam da criação e fortalecimento do Bope como unidade especial da polícia do Rio e sua infiltração pelo crime. Em Hollywood, ele fez RoboCop, sobre a polícia do Futuro, e a corrupção dos grandes conglomerados.Em Narcos, conta a história do lendário traficante Pablo Escobar e como ele inundou de cocaína o mercado norte-americano – mas conta a história pelo ângulo do seu nêmesis, o agente da DEA, Steve Murphy. Lá no começo de sua carreira, no documentário sobre o episódio do ônibus 174, Padilha adotara o ângulo do criminoso, que agora faz coexistir com o da polícia.

É interessante que Padilha tenha chegado a essa fusão dos dois mundos antagônicos, mas serão mesmo antagônicos? Escobar ‘compra’ a polícia da Colômbia, e chega até a anunciar que quer ser presidente do país, e certamente corrompe muito policial dos EUA, mas a série não põe o foco nessa questão. Escobar é pintado como assassino de policiais (norte-americanos) e o agente da DEA é o mocinho da trama, se existe um. É o aspecto, provavelmente, mais controverso de Narcos. A celebração do herói wasp. Inclusive, embora o nome de Wagner Moura seja o primeiro do elenco, nos outdoors, nos EUA, a primeira foto é do loirinho Boyd Holbrook, mas ele não é único, o herói solitário. Forma dupla com o agente colombiano, mas como o ângulo é o de Holbrook, o começo de Narcos – estamos falando dos primeiros dois capítulos --, a série é a história da iniciação do gringo.

Padilha, até aqui, tem trabalhado para o cinema. Com sua direção de cena forte, ele cria narrativas intensas, senão espetaculares. Dado o episódio da piratagem de Tropa de Elite, nunca saberemos quanto o filme teria feito nos cinemas. Tropa 2 bateu o recorde histórico de Dona Flor e Seus Dois Maridos – a transposição do romance de Jorge Amado para a tela, por Bruno Barreto – e se converteu na maior bilheteria de todos os tempos do cinema brasileiro. É curioso que ele tenha feito Narcos para a Netflix, um serviço de streaming, para ver online, na internet. Narcos pode estar sendo visto como uma experiência planetária – milhões de espectadores no mundo –, mas não existe um espaço onde essa multidão se encontre para compartilhar a experiência. Primeiro, ela é curtida individualmente, e só depois compartilhada na rede. E isso muda a relação do público com o filme (a série?).

Numa sala de cinema, o público provavelmente teria rido da cena em que Escobar esconde uma fortuna no sofá da mãe, e ela reclama que ficou muito desconfortável para se sentar. Mamãe, que já havia preparado as jaquetas para transporte das drogas pelos ‘mulas’, observa que o filhinho devia colocar o dinheiro no banco, mas ‘Pablo’ diz que não confia no sistema financeiro porque os banqueiros são gananciosos. É a típica cena que, a par da informação – a acumulação da riqueza –, proporciona alívio cômico, mas funciona menos individualmente.

Outra cena é mais importante. Escobar ainda não ingressou no mundo da droga. Contrabandeia bens – televisores, sistemas de som etc. Ele tenta atravessar uma ponte da fronteira à frente de um comboio de caminhões. A polícia o interrompe. Escobar, com a maior calma do mundo, cita os nomes de cada policial, faz um histórico da família de cada um deles e diz que o que terão a ganhar,. se o deixarem passar. E ele acrescenta, provocador – não há nada nem ninguém que escape ao seu crivo, na Colômbia. Outra cena interessante. Os EUA apoiaram o golpe de Pinochet no Chile convencidos de que ele era mocinho, e estava combatendo a ameaça comunista de Allende.

No poder, Pinochet provocou o banho de sangue que todo mundo sabe – talvez não fosse o mocinho em que a ‘América’ apostou. Mas os bad guys, às vezes, fazem boas coisas. Pinochet massacrou a ferro e fogo os traficantes que esytavam estabelecendo suas bases no deserto chileno. Só escapou um, o Barata, e ele foi para a Colômbia. Associou-se a Escobar, que depois o descartou. A culpa foi de Pinochet. Essas cenas todas contam uma história particular. O traficante que pensa como empresário e tem uma visão – Escobar antecipou que ganharia mais, se introduzisse a droga nos EUA, via Miami. E ele foi pioneiro na espionagem – que por volta de 1980 ainda não era virtual – para saber tanto sobre todos, consolidando seu poder.

O problema talvez tenha sido o excesso de ambição. O agente conta que seu grupo comemorava a apreensão de uma partida de cocaína, mas isso era uma cortina de fumaça para que centenas entrassem clandestinamente nos EUA.

Esse ‘negócio’ gigantesco – laboratórios e usinas de produção na Amazônia colombiana, sistema de transporte e distribuição – passou a render bilhões de dólares e talvez tenha sido o volume de dinheiro que assustou Washington e levou o então presidente Reagan, e sua mulher Nancy, a virarem garotos-propaganda no combate ao poder (econômico, além do de fogo) de Escobar. Narcos documenta a criação do cartel de Medellín e a incorporação de ‘revolucionários’ à firma de Escobar.

Tudo isso é muito forte, o crime como atividade econômica, o que já havia em Tropa de Elite e RoboCop, só que aqui a história é ‘real’. Mas, embora real, ela é ficcionalizada. O roteiro, incluindo a narração em off, é emprestado de Goodfellas/Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese, que Padilha, pelo visto, adora. Uma pequena digressão – boa parte da crítica vive hoje dizendo que a melhor dramaturgia do audiovisual dos EUA, na atualidade, estás na televisão, mas claro que, como aqui, ‘chupada’ da indesejável Hollywood, onde os autores não teriam tanta liberdade.

Narcos, portanto, conta a história de Escobar, interpretado por Wagner Moura. Muita gente, na rede, tem discutido o sotaque de Moura. Bobagem. A dúvida, que havia, dissipa-se logo. Era se Moura, um ator com uma sensibilidade especial, que já foi Hamlet e o bombeiro gay de Praia do Futuro – a obra-prima de Karin Ainouz –, poderia recriar na tela o aspecto mais brutal da persona de Escobar, que ele tinha de possuir, para ter chegado tão longe. Moura tem momentos assustadores pela frieza – você vai encontrar outros momentos assim, em breve, no potente Sicário, de Denis Villeneuve, que também aborda o mundo das drogas.

Escobar, de um lado, e de outro o agente da DEA e seu parceiro colombiano. Pedro Pascal, que faz Javier Peña, é chileno-americano e ficou conhecido pelo papel de Oberyn Martell na cultuada série Game of Thrones. Boyd Holbrook, o Murphy, iniciou-se como modelo, participou de campanhas dos maiores, mas a carreira deu um salto em 2005, quando a fotógrafa Ellen von Unwerth fez um ensaio com Omahyra Mota e ele. Primeiro como exposição e, depois, como livro, Omahyra & Boyd ganhou extraordinária exposição. O modelo virou artista. E é um verdadeiro ator (ou está muito bem dirigido por Padilha).

Existe ainda um aspecto que não pode ser negligenciado. Droga, dinheiro. A criminalidade como negócio que move o mundo. E o sexo que injeta adrenalina. Padilha nunca foi um diretor bom de cama – brincadeirinha. Mas mesmo a passagem da mulher do Capitão Nascimento para o teto de Irandhir Santos em Tropa 2 se fez de maneira muito discreta, pudica. Em Narcos, pelo menos nos primeiros episódios, cada personagem que compõe o tripé de protagonistas tem direito a uma forte cena de sexo. Escobar interrompe violentamente a cena de sexo porque a jornalista, em pleno gozo, faz um comentário que ele julga inapropriado sobre sua mulher. Os mocinhos também tem, cada um, o seu momento de ardor sexual. Holbrook com a mulher, e a cena será interrompida por um tiroteio – ‘Bem-vindos à Colômbia.’ Pascal com a prostituta que será sua informante, e vai pagar por isso. Essa pegada, digamos, ‘erótica’ talvez seja, com a narração em off, outra contribuição de Scorsese. Basta comparar com o priaprismo, regado a droga, de Leonardo DiCaprio em O Lobo de Wall Street.

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