Wagner Moura em 'Narcos'
Wagner Moura em 'Narcos'

Análise: ‘Narcos’, com Wagner Moura, é um ‘Tropa de Elite’ com um inimigo global

Série dirigida por José Padilha que estreou nesta sexta-feira, 28, acerta no ritmo e repete a linguagem do filme que lançou o cineasta

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

28 de agosto de 2015 | 10h54

Capitão Nascimento tinha suas camadas. Era o mocinho que buscava levar o bem e a paz para as favelas do Rio de Janeiro? Ou vilão disfarçado, extremamente violento e capaz de realizar atrocidades das mais degradantes para conseguir o que quer? A forma de encarar o personagem de Wagner Moura em Tropa de Elite (o primeiro filme, principalmente) dependia de você, eu, ou quem quer que assistisse ao longa que colocou José Padilha nos holofotes do cinema mundial.

A parceria entre ator e diretor se repete em Narcos, nova série própria do Netflix, disponível para todos os assinantes do serviço de televisão por streaming a partir desta sexta-feira, 28. Ganha-se no alcance global, mas perde-se a incisão. O Padilha de Narcos não é capaz de transformar o seu protagonista, o maior narcotraficante do mundo Pablo Escobar, neste personagem complexo. Cai-se na dicotomia.

O diretor conta a história do nome que coloca medo em políticos colombianos e norte-americanos até hoje. Aquele responsável por criar o que hoje se conhece como narcoterrorismo. Alguém, veja só, capaz de derrubar um avião lotado de inocentes apenas para assassinar um homem que ali estava.

Qual é o limite politicamente correto, o socialmente aceito neste marasmo que é o entretenimento de 2015, para flertar com o lado humano do monstro Escobar? A possibilidade existe, mas é deixada em segundo plano em Narcos de Padilha. O diretor brasileiro que se mudou para Los Angeles prefere a ação, a caçada de gato e rato realizada pela coalisão entre as polícias colombiana e norte-americana e os cartel de Medellín, liderado por Escobar – quem é gato e quem é o rato, nem sempre é tão claro quanto parece, ainda bem.

A série, cuja segunda temporada não está oficialmente confirmada, mas parece ser questão de tempo, acerta no ritmo da ação alucinante, contudo. Sexo e violência não são jogados de forma aleatória na tela. Padilha parece entender a linguagem da TV por streaming. Quando todos os 10 episódios de uma hora de duração são disponíveis ao mesmo tempo, o espectador é quem comanda a forma como consumir aquilo tudo. Liberdade criativa a mais ao diretor, que não precisa se preocupar em ganchos para segurar o público até a semana seguinte, quando o próximo episódio vai ao ar.

Narcos é sobre a caçada a Pablo Escobar, maior traficante e produtor de cocaína que o mundo já viu, morto a tiros em 1993. E, por isso, a força policial ganha destaque. Faz parte do trabalho de Padilha, essa constante tentativa de humanizar a força destinada a proteger a sociedade, mesmo que esses vigilantes também devessem ser vigiados. A força policial é centrada em Boyd Holbrook, ator que interpreta o agente Steve Murphy, cansado de perseguir traficantes pequenos em Miami designado a capturar o maior deles. Javier Peña, vivido por Pedro Pascal (Game of Thrones), é o parceiro do gringo nessa caçada em território colombiano.

Escobar, contudo, não era só monstro. Assim como não era santo. Matava, sim, mas amava. A humanidade do personagem foi o que atraiu Wagner Moura ao papel. O ator se disse espantado ao ver uma imagem do narcotraficante pendurada ao lado de Jesus Cristo, na visita que fez em Medellín. Pouco se vê disso, contudo, em Narcos. Padilha e Moura falham em conseguir criar uma empatia por Escobar. Talvez isso não fosse a intenção – e, com caso seja verdade, acertaram na mosca –, mas isso empobrece a trama com tanto potencial. 

É preciso encarar que a sutileza nunca foi uma das qualidades da arte de Padilha, que, como seu Capitão Nascimento, gosta de derrubar portas a força e arremessar sua história diretamente no rosto do público. Com um tapa bem dado, de preferência. Narcos não coloca seu espectador na incômoda situação de se ver torcendo pelo “vilão”, pelo “monstro”, pelo “inimigo”, por Escobar.

Uma falha que pode ser virtude se questões mercadológicas forem levadas em conta. A escolha por narrar a trajetória através de um policial norte-americano, por mais questionável que seja, é compreensível. Afinal, aquilo o que Padilha mostrou no Rio de Janeiro, corrupção, medo, excessos por todos os lados, ganha uma versão colombiana. Nada é local, contudo. O alcance da Netflix, com seus 65 milhões de assinantes, é gigantesco. Perde-se as camadas, mas fica a história que sempre mereceu ser contada. 

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