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Análise: Minissérie 'The Night Of' traz tons sombrios ao pesadelo verdadeiro de jovem

Uma noite. Um erro. Uma garota. Um sorriso. Um beijo. Uma transa. Nada poderia dar errado para o jovem Naz, de origem paquistanesa, interpretado por Riz Ahmed (de O Abutre). Sujeito dedicado aos estudos, convidado, pela primeira vez, para uma festa acompanhado dos populares jogadores de basquete do colégio, um dos quais era seu pupilo nos estudos – uma explicação: nos estudos, os atletas precisam de boas notas para continuar jogando e, em muitos casos, os melhores alunos da turma são chamados para ajudá-los. Nada poderia dar errado, mas deu.

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2016 | 07h00

Guri que nunca havia experimentado drogas e ficava longe do álcool, entrou de cabeça nessa noite louca proposta pela desconhecida, que entrou desavisadamente no táxi pego emprestado do pai dele. Naz acorda na cozinha, desajustado e perdido. Vai ao quarto. Encontra a garota, com quem havia se deitado horas antes, com o corpo nu coberto de sangue e perfurado a facadas. Foge, mas é pego em uma sucessão de infelizes coincidências. 

Nasce assim The Night Of, cujo título em português poderia ser traduzido em algo como “a noite de folga”, que leva a história da primeira temporada de Criminal Justice, minissérie da britânica BBC de 2008, para o sistema judicial norte-americano. Escancara as suas injustiças, como aquelas cometidas contra o jovem Naz. O rapaz, invariavelmente, é visto precisando provar a inocência. Afinal, não seria o inverso: inocente até que se prove o contrário? The Night Of nasce da ideia de questionar conceitualmente o que acontece com aqueles que aguardam o primeiro julgamento nos Estados Unidos – às vezes, por meses –, mas ganha força nos personagens.  Não há mocinhos e vilões, mesmo que se trate de um drama policial. Cada novo nome e rosto que aparece na tela tem uma função para o desenvolvimento da trama. Não há gorduras ou distrações. O rapaz que mexe com Naz e sua ascendência árabe na rua tem sua importância, tal qual o próprio acusado (injustamente?) pelo assassinato da garota. E é aí que entra a magistralidade de John Turturro em cena. Seu advogado, Jack Stone, vê em Naz mais um caso para ajudá-lo a pagar as contas. E rouba a atenção tamanha a imersão nesse submundo não caricato das prisões em The Nigh Of. 

A relação que se desenvolve entre advogado e cliente é maior do que essa, a profissional. Existe, em Stone, a angústia na luta contra a injustiça. É um sujeito já vivido, com suas fobias mil – como o medo de gatos, por ser alérgico, algo compartilhado pelo ator Turturro. É consumido por dentro e isso extrapola para a sua aparência física cansada, desgastada diante da vida que leva, e até em uma doença de pele que o deixa com feridas nos pés – ele usa sandálias “para ventilar”, como explica a Naz. 

The Night Of, criada por Steven Zaillian, vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado por A Lista de Schindler, além de outras três indicações, é soturna e angustiante. São poucas cores. Varia-se do branco, preto e cinza para enclausurar o telespectador – sem saída, tal qual o protagonista. 

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