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Análise: É o 'fim' do mundo e você vai ver o momento chegando

A primeira temporada de 'The End of the f***ing World' era exatamente o tipo de série - imprevisível, sarcástica, desconcertante - que não exigia uma resolução clara. Mas o novo lote de episódios se dedica a juntar as pontas soltas da história original

Mike Hale, The New York Times

05 de novembro de 2019 | 19h04

A primeira temporada da comicamente angustiante e estupidamente melancólica série britânica The End of the f***ing World terminou com o que poderíamos chamar de gancho para o próximo capítulo: um adolescente foge da polícia por uma praia suja; a tela fica escura; ouve-se um barulho de tiro. Sobem os créditos.

A televisão moderna abomina o vácuo deixado por uma pergunta sem resposta - é só perguntar para o David Chase - e a segunda temporada de End traz as respostas, a partir desta terça-feira na Netflix (após sua estreia no Channel 4 na Grã-Bretanha). Pode parecer desagradável questionar a necessidade da nova temporada, especialmente quando assistir a seus oito episódios leva menos de três horas.


Mas a questão continuou me incomodando enquanto acompanhava os eventos cheios de suspense, mas bem menos urgentes, da segunda temporada. Na primeira temporada, End, escrita por Charlie Covell a partir da graphic novel de Charles Forsman, era exatamente o tipo de série - imprevisível, sarcástica, desconcertante - que não exigia uma resolução clara. Mas o novo lote de episódios, que Covell indicou que será o último, traz todas as resoluções, uma temporada que se dedica a juntar as pontas soltas da história original e, embora tenha boa execução, não tem nada de extraordinário.

Para recapitular (spoilers da primeira temporada logo abaixo e da segunda temporada mais adiante): Alyssa (Jessica Barden) e James (Alex Lawther) são jovens de 17 anos cujo tédio, raiva e alienação estão nos níveis de intensidade de Chernobyl (e, consequentemente, são tão tristes quanto hilários). Eles descolam um carro roubado, fazem pequenos furtos e maltratam alguns serventes desgraçados, mas também cruzam o caminho de um sádico sexual, o que desencadeia um assassinato e a fuga desesperada que termina com James correndo pela praia.

A segunda temporada, que continua a história para além do final da graphic novel, é assombrada por esses eventos de maneira bem literal: eles ficam piscando na tela, nas memórias agonizadas de Alyssa e James (sim, ele está vivo). Já se passaram dois anos, mas eles não conseguem superar aqueles que foram os momentos mais terríveis e, na inesperada proximidade que compartilharam, também os mais felizes de suas vidas.

Talvez seja spoiler demais dizer que, nesses oito episódios, eles acabam se reaproximando e descobrindo como expressar seus sentimentos, apesar de sua extrema esquisitice e da armadura de niilismo com que se protegem. Mas o que poderia acontecer de diferente? Para complicar o processo, Covell introduz uma terceira personagem, uma jovem chamada Bonnie (Naomi Ackie), que, assim como Alyssa e James, foi talhada pela dura indiferença e aspereza do mundo adulto.

Os estragos de Bonnie se cruzam com os de Alyssa e James, e ela se junta aos dois em uma violenta desventura que recapitula alguns dos temas da primeira temporada - uma viagem sem rumo por uma região da Inglaterra que lembra ‘Twin Peaks’, ferimentos graves em um homem quem provavelmente teve o que mereceu. As estratégias cômicas da série mantêm sua força, com falas não muito sutis, ditas sem a menor sensibilidade, e reflexões que desprezam qualquer forma de sinceridade ou sentimento.

Tudo ainda é muito divertido, e os instantes de romantismo sufocado e mínima dignidade continuam em vigor. Mas o enredo não tem o ímpeto e a energia maluca da primeira temporada, e é mais difícil ignorar o caráter manipulador da série: como ela usa os monólogos de Alyssa e James para nos dizer o que pensar, as constantes sugestões musicais para nos dizer o que sentir e os flashbacks para nos lembrar de tudo que está em jogo. Você pode até dizer que isso é bom, que é uma franca intervenção pós-moderna, mas a verdade é que é só um jeito de mastigar as coisas para o espectador.

O pior efeito dessa mastigação é a maneira como ela restringe os atores - não sobra muita coisa para eles expressarem, e a contumaz apatia de Barden, em particular, começa a desandar. Lawther se sai melhor, mas apenas porque a carência servil de James é inerentemente mais engraçada. Ackie, cujo rosto registra perfeitamente o turbilhão de emoções dentro de Bonnie, domina as cenas entre os três.

Trabalhando com as diretoras Lucy Forbes e Destiny Ekaragha, Covell ainda tem uma mão hábil para incorporar epifanias sentimentais nos momentos mais apressados e improváveis, como o comentário que James ouve enquanto rasteja pelo chão de uma cozinha de restaurante. Desta vez, porém, a história caminha inexoravelmente para sua grande catarse e, ao contrário da 1ª temporada, você vai ver esse momento chegando.

Assista ao trailer da segunda temporada:

 


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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