REPRODUCAO / TV GLOBO
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Análise: Big Brother Brasil é hoje a maior escola da televisão brasileira

Reality show é um retrato das manias do público do País, principalmente na hora de escolher vencedor como Juliette

Eugênio Bucci e Mario Dallari Bucci *, Especial para o Estadão

05 de maio de 2021 | 18h54

Por mais que gostem de xingá-lo pelo mau gosto e pelo tom apelativo e pelo visual escatológico, o Big Brother Brasil é hoje a maior escola da televisão brasileira. Não tanto pelos hábitos, gírias e gestos que dissemina entre os espectadores, mas, principalmente, pelo que ensina sobre os caprichos e as manias do público brasileiro quando é convidado a decidir o destino das celebridades de ocasião. Em nenhum outro programa se vê com tanta nitidez o caráter sentimental da nossa gente. Em nenhum outro se escancaram, em close, as costuras estéticas e éticas que atam uma certa pieguice nacional a um senso de justiça popular, que se pretende o próprio juízo final. 



Assistir ao BBB é um aprendizado insubstituível. No circo dos atores confinados, que performam durante as 24 horas do dia para saciar a volúpia do olhar da massa, revela-se um laboratório rico em lições preciosas, não sobre o entretenimento vulgar, mas sobre a política. Como as massas gostam de lidar com seus astros de estimação? Veja no BBB. Com que critérios essa mesma massa se relaciona com o poder? Veja no BBB.

Por certo, os aficionados que votam no reality show da Globo não são uma composição idêntica à do eleitorado nacional. São universos distintos. Os eleitores de verdade votam movidos por seus interesses imediatos e materiais, por suas necessidades prementes, mas também por seus medos e por seus ódios. Ao comparecer às urnas, exercem um direito - uma única vez a cada pleito. Já os “eleitores” do BBB pagam para participar (cedem seus dados pessoais em troca do cadastro que lhes autoriza a escolher quem será o eliminado da semana). Nesse caso, portanto, o “direito” de “votar” é mercadoria. Fora isso, os “eleitores” do BBB podem dar seu veredicto quantas vezes quiserem, razão pela qual o total de votos apurados na final de terça-feira, 600 milhões, ultrapassa em quase três vezes a população brasileira. 

Em suma, embora ter um título de eleitor e ter um aplicativo para tomar parte nas decisões do BBB sejam coisas diferentes, bem diferentes, o BBB proporciona aos interessados um painel diversificado e detalhista dos critérios subjetivos que a plateia continental brasileira leva em conta para aplaudir ou vaiar alguém. O resultado final, anunciado quando a noite de terça-feira já se transformava na madrugada de quarta, sufragou a competidora de nome Juliette, que teve, segundo proclamado, 90% dos votos. 

Por que ela ganhou? As razões são políticas e, por serem políticas, são afetivas. A mesma massa que consagrou Juliette repeliu quem fez jogo duplo (como a participante Viih Tube, eliminada antes da final por 96,69% dos que opinaram), do mesmo modo que rechaçou quem promoveu o ódio ou o cancelamento (como a participante Karol Conká, que bateu o recorde de rejeição do programa, eliminada por 99,17% do público). A leitura desta edição e das anteriores indica que a plateia gosta de recompensar quem tem imagem de gente ambiciosa, mas não inescrupulosa. No juízo da massa, a fé em Deus não entra em contradição com a adoração da mercadoria, tanto que Juliette, na final, acariciou e beijou o automóvel com que seria premiada e, ao se saber campeã, gritava: “Obrigado, Deus”. 

A massa define o vitorioso como quem dá compensação ao sofredor. O “eleitor” anônimo se sente magnânimo, um tanto maior. O BBB lhe dá de brinde a certeza de que o poder emana do auditório virtual, fonte da justiça quase divina.

Você pode dizer que os marqueteiros que comandam as campanhas eleitorais já sabem de tudo isso. De fato, muitos já sabem mesmo. Acontece que, ao examinar cada lance, cada eliminação, cada vitória, até os marqueteiros sabidos terão o que aprender sobre os humores da gente brasileira. Estudando os meandros e os dilemas de cada um dos cem dias de duração do programa, terão material de sobra para abastecer estratégias de imagem dos clientes que ambicionam exercer cargos públicos. 

Ainda em matéria de aprendizado político, é interessante observar como, no BBB, a estratégia de imagem de cada um dos competidores precisa articular televisão (mídia de massa) com redes sociais (mídia que não funciona na base do broadcasting). Os fãs se manifestam nas redes para angariar apoios ou satanizar os desafetos. É nas redes sociais que o público condena ao “paredão” (nome revelador) o vilão da semana.

Trechos das edições se espalham pelas redes para alimentar milhões de seguidores ávidos por novidades. Brigas, diálogos fora de contexto e conchavos fornecem combustível para mutirões que se organizam para votar e eliminar o inimigo público da vez ou proteger o favorito dos espectadores. Os fãs usam todas as armas. Acusam a direção do programa de sabotagem, reclamam de injustiças. Narrativas paralelas são construídas e propagadas pelos feeds de cada “brother” ou “sister” - e de seus fãs-clubes.

Os competidores que querem se dar bem neste jogo atuam como políticos. Pega bem, por exemplo, posar de vítima de vez em quando. Quem sofreu um golpe desferido por forças mais poderosas pode ter vantagens. Não precisa ser uma facada ou uma prisão ilegal - basta um bullying sádico perpetrado pelos condôminos da casa do BBB.

Sai melhor quem se mostra merecedor de uma reparação. Tem preferência quem não banca superioridade. Dar provas de lealdade pessoal vale mais que mostrar compromisso objetivo com as regras da ética pública.

No BBB, como na vida, o anônimo dá sua sentença acreditando que seu próprio discernimento coincide com a vontade de Deus. Eleitor ou “eleitor”, vota para se sentir sincero, virtuoso e sábio. Gosta disso. Imagina-se o portador da verdade, sobretudo quando, por gozo ou por vingança, aposta seu coração numa farsa.


* EUGÊNIO BUCCI É JORNALISTA, PROFESSOR TITULAR DA ECA-USP E ARTICULISTA DO ‘ESTADÃO’

* MARIO DALLARI BUCCI É JORNALISTA E COMMUNITY MANAGER

 

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