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Ameaças a José Jr. dão ar de reality show a série

Escolta a líder do AfroReggae marca 6ª temporada de ‘Conexões Urbanas’

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

21 de outubro de 2013 | 19h55

O set tem câmeras e policiais do Bope de fuzis nas mãos, mas as balas não são de festim nem isso é Tropa de Elite. O que parece ficção é, na verdade, a vida real da sexta temporada de Conexões Urbanas, programa comandado por José Junior. Ameaçado de morte e escoltado por policiais durante 24 horas, Junior é o coordenador do Afro Reggae, movimento social que mexeu com o poder do tráfico no Rio.

Com direção do premiado cineasta Jeferson De, a nova safra estreia neste domingo, às 22h30, no Multishow. E já que a rotina vivida por Júnior afeta todas as suas atividades, a temporada reserva um inevitável caráter de reality – sem show –, especialmente nos dois primeiros dos 15 novos episódios.

Em conversa com a reportagem do Estado por telefone, Júnior contou que o plano inicial previa gravações em São Paulo, Minas, Pará, Amazonas, Bahia e Pernambuco. Mas a situação de quem é jurado de morte forçou uma reforma no roteiro e a equipe quase não saiu do Rio. A exceção é o episódio Alcatraz Mineiro, gravado no presídio privado de Ribeirão das Neves.

“A confusão do ataque ao Afro Reggae começou no primeiro dia de gravação”, ele lembra. “Isso foi dia 9 de julho. No dia 11 de julho, meu pai faleceu e duas semanas depois, minha filha nasceu.” Foram dias intensos.

O momento mais tenso foi o nascimento da filha. A mulher sentiu as dores do parto à noite, quando ele já havia dispensado a escolta que o acompanha – em casa, o plantão policial é de 24 horas. Teve de esperar pela volta da escolta para seguir até o hospital. Lá pelas 6h da manhã, quando levou o bebê até a vitrine onde o pai costuma apresentar o recém-nascido a familiares e amigos, encontrou dois policiais do Bope a lhe sorrir.

Durante as gravações, um episódio marcante foi a visita a um menino com câncer, em casa. “Ele morava perto de uma favela e, no meio da entrevista, um dos policiais que trabalham comigo, que estava fora da casa, entrou e começou a me olhar nos olhos. Perguntei: ‘Aconteceu alguma coisa?’E ele: ‘Aconteceu. Você vai ter que ir embora agora. Teve um tiro aqui atrás’. Eu perguntei: ‘Mas foi por minha causa?’ Ele falou: ‘a gente não sabe ainda’. Na hora ele não sabia.” À tarde, Júnior viu na internet que os tiros vinham de uma operação policial.

“O garoto estava debilitado. Eu olhava para o policial e olhava para o garoto. E se eu não fosse embora? Se o tiro fosse por minha causa, eu teria colocado aquela família em risco. Quando fui embora e cheguei no escritório, chorei, fiquei mal por causa do garoto. Ele estava feliz porque eu estava lá, ele estava debilitado e estava me contando a história dele.”

Uma compensação foi encontrar gente de diferentes níveis sociais e idades manifestando apoio e solidariedade à sua causa e ao Afro Reggae. “O público que não dialogava antes, as pessoas mais velhas, todos começaram a dar apoio, a querer estar perto, a proteger.”

Outro efeito do momento foi o assédio político enfrentado por Júnior nesse período. Quase todos os partidos lhe estenderam tapete vermelho, a fim de vê-lo candidato a deputado nas próximas eleições. “Me senti uma noiva”, brinca.

Bem relacionado com todas as siglas, Júnior cita nominalmente convite de Aécio Neves (PSDB). Diz que voltaria em Eduardo Suplicy (PT) se morasse em São Paulo, elogia Jean Willys e Marcelo Freixo, ambos do PSOL, Romário (PSB) e o governador Sérgio Cabral (PMDB), a quem agradece pelo apoio na sua segurança.

“Eu já não queria me candidatar, e o meu mapa astral dizia que eu não deveria me filiar a nenhum partido até 6 de outubro. Mas o prazo para filiação expirava no dia 5”, ressalta.

Sujeito de fé, José Júnior reverencia Ogum, Jesus Cristo, Buda e Xangô, mas seu oráculo é mesmo o mapa astral, que faz bimestralmente, e às vezes com consultas semanais a André Porto, com quem conversa via Skype, na Índia. “Isso é ciência”, defende. O astrólogo, conta, previu com meses de antecedência os atentados e ameaças que vem sofrendo. E diz que em dezembro, do dia 20 ao dia 30, há grande risco de ele ser assassinado.

“Minha filha mais velha pergunta: ‘pai, isso vai acabar quando?’ Eu digo: ‘não sei’.”

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