Alice e Capitu se encontram

Passei algum tempo do último domingo debatendo a microssérie Capitu com alguns amigos, cuja opinião é mais do que respeitável. Alguns não gostaram nada do que viram. As liberdades que o diretor Luiz Fernando Carvalho tomou com o romance de Machado de Assis dividiram as opiniões - ao longo da semana, fui coletando "adorei" e "insuportável" a torto e a direito. Tanto os que gostaram quanto os que execraram diziam que Dom Casmurro é uma obra-prima. Para os primeiros, ela foi bem traduzida na TV. Para os segundos, Machado foi traído em rede nacional.Fechei o domingo com o último episódio da série Alice, na HBO. Ao lado de 9mm: São Paulo, Alice foi uma das boas iniciativas da TV paga este ano. Ao contrário da série policial, que prepara uma temporada completa em 2009, Alice acabaria ali mesmo e, por isso, parecia querer dizer tudo de uma vez. No afã de retratar um grupo muito específico de paulistanos - moderninhos, adeptos de drogas e sexo irresponsável - a série, que começou muito bem, acabou por se transformar numa versão dublada da americana The L Word. Virou, mexeu, tinha duas mulheres indo pra cama em Alice. Mas, se em L Word, retratava-se sem metáforas a rotina das lésbicas, em Alice as cenas pareciam fetiche de diretor machista.Além disso, Alice tinha pretensões. E nisso ela se aproxima de Capitu: nas pretensões. Muitos vão dizer que a nossa televisão é que está viciada na linguagem tatibitate e eu concordo. Mas lembrem que a história registra várias telenovelas, minisséries e casos especiais requintados - e, nem por isso, inacessíveis. Gostei tanto de Capitu, quanto de Alice, mas reconheço que nenhuma das duas facilitava muito para "o da poltrona". O último episódio da sapequinha de Tocantins economizou nas presenças de Regina Braga, Denise Weinberg e da sensacional Daniela Piepszsyk (a irmãzinha da protagonista). E mostrou toneladas de Alice caminhando pelas dunas do Jalapão - num forçadíssimo merchandising turístico. Alice buscava a mãe, que do nada teve morte misteriosa. Pode ser muito lindo em cinema, mas na TV, ficou chatinho. Quem tem o que dizer não pode achar feio contar uma história que as pessoas simplesmente entendam. Clareza não reduz o valor do trabalho.

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