Além da imaginação

A CURA: Ciência e curandeirismo têm um embate arrepiante na série escrita por João Emanuel Carneiro, que entra na onda sobrenatural das séries americanas

Patrícia Villalba, O Estado de S. Paulo

07 de agosto de 2010 | 16h00

Gravando! Ricardo Waddington dirige cena em Diamantina: preferência por atores mineiros

 

DIAMANTINA - Há uma onda na TV americana, que demora a passar, de produções ligadas ao sobrenatural - de paranormais a vampiros. Mas, justamente no Brasil, onde o misticismo é bastante presente no cotidiano das pessoas, o tema andou meio esquecido nos últimos anos, até ser resgatado pelo autor João Emanuel Carneiro que, em parceria com o roteirista Marcos Bernstein, escreveu A Cura. Com direção-geral de Ricardo Waddington, o seriado estreia nesta terça-feira, às 23h.

 

Cercada de mistério, a trama acompanha a trajetória do jovem médico Dimas, interpretado por Selton Mello. De volta à cidade natal, a histórica Diamantina, em Minas, o que ele mais quer é se tornar cirurgião no hospital da cidade. Mas quem disse que alguém quer vê-lo com um bisturi na mão?

 

"Paira sobre ele uma dúvida, porque ele é acusado de ter matado um amigo quando criança. Por isso, a chegada dele causa um rebuliço. Um cara que matou alguém pode operar as pessoas?", explica Selton, que conversou com o Estado em um dos 25 dias que passou na cidade para as gravações.

 

Não bastasse a acusação de assassinato, Dimas descobre na cidade que tem poderes de cura espiritual, como o famoso Dr. Fritz. "Ele se surpreende ao perceber que pode operar tanto cientificamente quanto espiritualmente. Você assiste e passa o tempo todo na dúvida se ele tem mesmo poder de curar ou não e se matou mesmo alguém na infância", completa.

 

Carma. Logo no primeiro capítulo o telespectador vai descobrir que a cura espiritual não é novidade na Diamantina da ficção. A história de Dimas remete à de um outro médico curandeiro, Otto (Juca de Oliveira), que foi assassinado na cidade décadas atrás. Quando se espalha a notícia sobre os supostos poderes de Dimas, muitos pensam que ele é a reencarnação de Otto.

 

E lá longe, no século 18, a história se entrelaça com a vida de Silvério (Carmo Dalla Vecchia), um explorador de diamantes de caráter duvidoso e que não tem pudores em arrancar a língua de uns e outros. Por causa desse temperamento e por sua ambição desmedida, ele sofre uma maldição terrível, lançada por um pajé. "Aos poucos, as pessoas vão perceber o que o Silvério tem a ver com o Dimas. É a repetição de um carma", adianta Carmo (na foto da página ao lado), quase irreconhecível na caracterização, que lhe deu dentes destroçados, unhas sujas, feridas e pústulas nojentas - fora isso, ele emagreceu 15 quilos para o papel. A maquiagem levava 1h30. "Os machucados deles têm cinco fases, conforme avança a doença."

 

Mineirice. Pelas primeiras imagens que foram divulgadas, deu para perceber que Diamantina, com seu casario colonial em ótimo estado de conservação, foi a escolha perfeita para ambientar a série e imprimir um ar fantasmagórico. A produção movimentou a cidade com 120 profissionais do Rio, utilizando mais de 30 locações, entre elas pontos turísticos como Rua da Quitanda, Mercado Velho e Monumento a JK. As cenas do século 18 foram gravadas a 15Km, onde foi erguida uma casa característica da época.

 

O isolamento da cidade histórica, a 4h30 de Belo Horizonte, pareceu ideal para João Emanuel, que escolheu Minas Gerais como cenário para se valer da fama de desconfiado que o mineiro tem. "É uma terra de meias-verdades, o que combina com a ambiguidade do protagonista", explica.

 

Para tornar a série o mais mineira possível, digamos assim, Waddington preferiu escalar atores mineiros. Selton, por exemplo, é de Passos. "Optamos por aprofundar o acento regional, porque a história não se passa numa cidade fictícia, mas na Diamantina de verdade", detalha o diretor.

 

Foi uma oportunidade para levar de volta à Globo a atriz Andréia Horta, que chamou a atenção do diretor como a protagonista de Alice, série da HBO. Ela interpreta Rosângela, uma médica legista que é amiga de infância de Dimas. A personagem feminina, que curiosamente tem um trabalho ligado à morte, é um contraponto ao misticismo em que Dimas está envolvido. E é claro que há um clima de romance entre os dois. "Ela é uma pessoa muito correta. Será um apoio para Dimas na cidade quando tudo começar a acontecer", conta ela, nascida em Juiz de Fora.

 

Suspense. A maneira como a série será apresentada é uma novidade na Globo. Os nove capítulos estão interligados, como numa minissérie. Mas serão apresentados semana a semana, no modelo da TV americana. "O desafio é prender as pessoas a ponto de esperarem uma semana para saber como a história continua. Vamos atravessar esse rio pela primeira vez. Se der certo, será um grande feito", observa João Emanuel.

 

No seu primeiro seriado, o autor retoma a parceria com Bernstein que foi tão feliz quando os dois escreveram o roteiro do longa-metragem Central do Brasil, em 1998. Vale dizer que Bernstein estreia na TV logo depois de assinar o roteiro do sucesso Chico Xavier - O Filme. "A narrativa tem muitos ganchos, que são muito fortes, e a dúvida vai prender o telespectador", aposta ele.

 

9 CAPÍTULOS tem a série

 

25 DIAS DE GRAVAÇÃO em Diamantina, onde foram usadas 30 locações

 

160 PESSOAS trabalharam no projeto, entre elas 40 figurantes locais

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