A voz do povo é a voz do autor

Dona Alaíde nasceu pra levar pancada. Talvez por isso ela tenha sempre na cara aquela expressão de quem não gostou do que comeu. Cada vez que entra em cena, nos capítulos de A Favorita, dona Alaíde (Irene Serejo) vem incumbida de transmitir o que se convencionou chamar de voz do povo. Quase sempre ao lado de Elvira (Rosana Prazeres), sua parceira de fofocas, Alaíde emite comentários mais que conservadores - maldosos- a respeito da vida alheia, especialmente se a alheia for Catarina (Lília Cabral) ou Stela (Paula Burlamaqui). E quase sempre a cena termina com Alaíde levando uma lição de moral dos triunfenses mais liberais.Com expressão azeda e moralismo medieval, Alaíde é sem dúvida uma representante do pensamento comum. Embora as grandes cidades experimentem a cada dia uma maior aceitação de outras formas de comportamento, a maior parte do Brasil é feita de "Alaídes e Elviras". São elas que ainda torcem o nariz para a menina solteira que fica grávida ou para o filho do vizinho que tem um jeitinho meio fresco . Com sua visão de mundo mais tacanha, Elviras e Alaídes são capazes de infernizar a vida de qualquer um que não siga seu receituário.Um acerto da novela foi criar cumplicidade entre o público e Catarina. Sabemos o quanto aquela mulher sofreu e torcemos para que ela dê a volta por cima - não necessariamente por cima de Stela. O marido asqueroso, a mãe rancorosa e a vida insossa podem virar passado, bastando que Catarina resista às pressões de dona Alaíde e sua gangue. Mas pichação e cara feia não bastam. Há muitas Alaídes espalhadas. A personagem poderia expressar mais jóias do pensamento conservador, para que sua derrota fosse mais saborosa. Ridicularizá-la reduz a importância da vitória que Catarina terá sobre os seus fantasmas.Um ponto baixíssimo de A Favorita esta semana foi o passeio de Lara (Mariana Ximenes) a uma caverna. Estudante de geologia, corretíssima sempre, Lara jamais deveria ir sozinha num passeio desses. Nem mesmo se preocupou em dizer onde estaria, caso precisasse ser localizada. Lara foi irresponsável e deu um péssimo exemplo em rede nacional. Mas o castigo veio a galope: ela teve de passar a noite agarrada ao homem mais chato de toda Triunfo.

Mário Viana, e-mail: mvianinha@hotmail.com, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2008 | 00h42

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