A versão delirante de Satyricon

Adaptação do épico, que causou escândalo há 40 anos, é um banquete felliniano pós-moderno

Antonio Gonçalvez Filho, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2008 | 20h29

Apenas fragmentos do Satyricon de Petrônio chegaram até nós, mas constituem uma herança bastante incômoda para o mundo globalizado. Séculos antes de Fellini transpor o texto clássico para o cinema, Petrônio anteviu não só a queda do Império Romano, mas a catástrofe da barbárie no terceiro milênio - emigrantes errando sem pátria à procura de abrigo, hedonistas dispostos a tudo num mundo sem fronteiras e, principalmente piratas seqüestradores. E note que Fellini assinou sua versão para o cinema (agora lançada em DVD pela Silver Screen Collection) há quase 40 anos, provocando escândalo com sua lisérgica versão de Satyricon, especialmente pelo elenco multinacional, que atuou visivelmente em estado alterado.Petrônio foi um refinado ?arbiter elegantiae? (consultor de moda) de Nero, antes de ser preso por traição e levado ao suicídio. Como era também o ?promoter? das festas do palácio, conhecia bem os hábitos dos novos-ricos retratados em Satyricon, entre eles Trimalquião (Mario Romagnoli), ex-escravo e pretenso poeta em cuja villa encontram-se os protagonistas da história, os jovens Encolpio (Martin Potter) e Ascilto (Hiram Keller), posteriormente envolvidos no seqüestro de um semideus hermafrodita e albino. Essa ofensa custará ao primeiro uma boa temporada de impotência, até ser curado por uma feiticeira de origem africana, não sem antes perder seu jovem amante Giton.Fellini, em Satyricon, delira mais que de costume. Constrói cenários que reproduzem uma moderna galeria de arte em Roma antiga, promove uma reconstituição quase naturalista das orgias e, principalmente, não despreza a metáfora principal de Petrônio, quando Encolpio, cansado da "civilização" romana, parte para a África em busca de novos ares. Enfim, um banquete felliniano pós-moderno, que inaugura um gênero musical: Nino Rota, em 1969, foi o primeiro autor a fazer world music, convocando músicos africanos e recuperando instrumentos gregos para compor a trilha sonora originalíssima do filme.

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