Débora 70/Divulgação
Débora 70/Divulgação

"A TV tem de ser diversa, para influenciar mais"

Michel Melamed. Ele criou 26 programas: quem disse que não há ideias por aí?

Entrevista com

Patrícia Villalba / RIO

05 de abril de 2010 | 09h33

Se, como se diz por aí, falta criatividade na televisão, o ator Michel Melamed teve, de uma vez, 26 ideias para 26 programas. Duas delas vão ao ar em cada um dos 13 episódios da série Campeões de Audiência, que estreia dia 15, à meia-noite no Canal Brasil. "Cada um dos formatos tem apresentador, história e roteiro próprios, são totalmente independentes. É um misto de pesquisa de linguagem e de formatos, com uma brincadeira e uma crítica sobre os passos mastodônticos da TV", explica Melamed, roteirista, diretor e apresentador do programa.

 

No Campeões de Audiência estão os programas que não teriam guarita num canal de televisão convencional - hoje em dia, só mesmo o Canal Brasil para apostar em iniciativas do tipo. "São ideias tão loucas que os projetos não seriam nem lidos até o final", arrisca o ator, citando os incríveis Viva Voz - "o primeiro talk show da TV feito pelo telefone" -, Celebrity Sono TV - uma conversa na beirada da cama de Rodrigo Santoro - e o Degustação das Águas - um bate-papo com Jorge Mautner, Letícia Sabatella e Luana Piovani em volta de uma mesa de águas. Para tentar explicar de onde veio tamanha inspiração, Melamed teve a seguinte conversa com o Estado:

 

De onde veio a ideia para criar o ‘Campeões de Audiência’?

A motivação é a mesma de sempre: a medida da paixão. Mas a ideia surgiu da vontade de perceber a televisão de uma maneira diferente. Pensei: ‘Que programa eu gostaria de fazer?’. Eu gostaria de fazer milhões de programas, que questionassem por que a televisão se move tão lentamente, por que as coisas são tão repetidas e por que eu posso ficar seis meses sem ver televisão e te contar o que esta passando hoje.

 

E até que ponto o programa é experimentação ou uma crítica à televisão?

O desejo é que ele seja as 20 mil coisas. Porque a ideia de obra de arte é essa. O programa quer tratar de mil assuntos. Um deles é a questão da obra de arte versus entretenimento. Outra é o assunto pontual de cada programa, e cada um tem uma pegada. Os Campeões de Audiência têm um público tão segmentado que nunca vão encontrar patrocinador. Obviamente isso é uma crítica, porque se você ligar a TV agora vai ver coisas que mal acredita que estejam no ar. É patético, inaceitável, é o horror.

 

Pelo que você me mostrou, deu para perceber que o humor é peça fundamental na crítica.

A brincadeira é discutir quais os limites que separam uma ideia estapafúrdia que está no ar hoje de uma coisa que se a princípio eu te contasse, ela pareceria estapafúrdia, mas no ar se mostraria um sucesso.

 

Se há tantas ideias por aí, por que a televisão se move com tanta lentidão? Preguiça?

É... A pergunta "por que não está mudando?" não se restringe à televisão. Tem a ver com o Brasil. Por que enquanto estamos aqui fazendo essa entrevista, tem alguém sendo torturado, passando fome?

 

Filosoficamente falando...

O questionamento é: você tem cinco canais abertos e outros tantos a cabo, e a TV é o principal veículo de informação da população brasileira. Então a pergunta não é sobre televisão, é sobre o País. Daí, a minha resposta é que o Brasil está mudando e a televisão é um veículo recente, que pode mudar junto. Mas se você pensar, o cinema tem cem anos. Quantas linguagens existem no cinema? Centenas de linguagens de audiovisual. Televisão é audiovisual também e tem quase 60 anos!

 

Quando algum programa de gosto duvidoso faz sucesso, muita gente diz que o povo gosta de baixaria. A televisão moderna esbarra, então, no público?

Você tem de assistir a um dos programas, que chama TV TV. Parei no Largo da Carioca e botei uma TV no meio da praça, sentei para ver com as pessoas.

 

E aí?

Não perca: todas as quintas no Canal Brasil (risos). Mas, de novo, a sua pergunta não se restringe à televisão. É claro que a gente acaba caindo numa discussão de mercado, de que você tem de usar linguagem fácil para atingir a maior quantidade de segmentos. A televisão precisa ser mais diversa, há espaço para muita coisa. E existem artistas dedicados a essa diversidade, mas, para ser elegante, há outras pessoas que trabalham de forma não muito generosa. A TV é uma ferramenta de um potencial enorme. Ela influencia muito, mas poderia influenciar mais e melhor.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.