TV Globo/ Estadão
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‘A Teia’ enreda, mas ainda não decola

Série policial centra muito na atmosfera, na caracterização, mas ainda não mostrou boa história e diálogos originais

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2014 | 16h28

Uma citação ao policial que deixa origamis na cena do crime em Blade Runner, o Caçador de Androides. Algumas alusões ao personagem John McLane, da série Duro de Matar (o segundo filme, Die Hard 2, tratava justamente de uma quadrilha num aeroporto). Uma trilha sonora que usa de Angie a You Can’t Always Get What You Want, dos Rolling Stones. Atores de ponta do cinema e do teatro nacional, como Denise Weinberg e João Miguel, além de estreantes do underground.

Estão aí todos os ingredientes para uma série policial bem cool e bem-sucedida, certo? Bom, cool certamente. Mas bem-sucedida, em termos. É preciso ainda uma boa história, um bom ritmo de filmagem, e o primeiro capítulo de A Teia só deixou entrever essas possibilidades. Tem muito clichê de “tough guy”, muito chavão, muito carão e pouca invenção. Os diálogos são secos, como seria de se esperar, mas não têm grandes achados até agora.

O crime como profissão regulamentada é o mote de Baroni, personagem de Paulinho Vilhena, que lidera o bando de 8 bandidos que roubam 60 kg de ouro durante seu embarque por carros-forte num avião na pista do Aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília. O delegado titular se machuca durante uma pelada de futebol e manda um substituto para fazer as primeiras averiguações. Quem chega lá é o delegado Macedo (João Miguel), conhecido nos círculos policiais como “cearense pinga fogo”. Foi expulso pelos colegas de delegacia em Fortaleza (CE) por recusar-se a sujar as mãos, e quer voltar para acertar contas. O êxito em desbaratar o assalto no aeroporto JK é sua chance.

Miéle parece que saiu de uma câmara criogênica diretamente para o seriado, no qual faz o papel do ex-senador corrupto Gama. Com seus óculos seventies e a cara de crupiê de cassino, ele arrasou na estreia: beijou muito e encarou muito. O coroa Gama acaba sendo apresentado pela mãe do delegado Macedo como seu novo namorado, o que enfurece o policial.

A direção ousou pouco no início. Há um momento em que um vigia é interrogado pelo policial e diz que ficou amordaçado no chão enquanto os bandidos agiam. Ato contínuo, como num flashback, o vigia aparece de novo amordaçado no chão e o delegado continua lhe fazendo perguntas, uma mistura de tempos interessante. Mas é só um insight: as cenas de ação durante o assalto foram banais, muita câmera balançando e muito “PQP”, como no Cidade Alerta.

Mas há uma insinuação de que deve pegar fogo. Um comparsa largado para trás dentro de um poço, a tensão da perseguição, a vida classe média do chefão, além de novos personagens, podem arrastar a trama para a seara dos feios, sujos e malvados do terceiro escalão do crime. Nem sempre são os protagonistas, muitas vezes são os operários da cena que costuram uma boa teia.

A série policial brasileira voltou de Miami muito americanizada. Não é um problema em si, mas sugere preocupação excessiva em olhar mais para fora do que para dentro. Na América, esse é um universo que foca demais em heróis superdotados, infalíveis. Falta o acidental, o improvisado, um pouco de realismo caboclo – algum detalhe trivial, burlesco (tipo o Tonico Pereira cantando a bizarra Comer Tatu É Bom, dos Mamonas Assassinas, e falando em revolução permanente enquanto palita os dentes).

Bandidões românticos e cruéis, delegados solitários e edipianos, políticos corruptos e muita grua e tomadas aéreas e rock clássico. Foi boa a série nesse início, mas não fenomenal. 

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