George Kraychyk/Hulu/AP
George Kraychyk/Hulu/AP

A responsabilidade na capa vermelha de Elisabeth Moss

Atriz que dá vida à Offred em 'The Handmaid's Tale' viu personagem se tornar rosto da resistência feminista

Timothy Bella, The Washington Post

03 de junho de 2019 | 15h22

AUSTIN, Texas - Elisabeth Moss deseja estar num lugar onde exista franqueza. Se você não vê o que estamos fazendo, diz ela, como pode olhar e confrontar o que vem sucedendo em torno, em seu país e neste mundo?

Sentada no bar de um hotel, onde está  para promover o lançamento nacional do seu filme independente Her Smell, a conversa acaba se voltando para o reverendo Martin Luther King Jr.  E ela disse que estava gravando uma cena no Lincoln Memorial para a terça temporada de O Conto da Aia quando olhou para seus pés e deparou com o lugar onde foi esculpido o discurso transcendental de King, Eu tenho um sonho. Então,  com sua capa vermelha de aia, ela se ajoelhou no monumento.

Moss, que transformou June “Offred” Osborne – e Peggy Olson antes dela – em algumas das mais notáveis ícones feministas imprevistas da TV nos últimos dez anos, não deixa de reconhecer o elo entre a série e alguns dos problemas sociais e políticos do país. Ela até chama isto de catártico.

“Não sei quantas pessoas têm esta experiência de estar nesse hábito e nessas fases da vida”, diz ela, “com o presidente a algumas quadras tomando decisões que afetarão a imigração, a liberdade e os direitos de muitos cidadãos”.

Se a sua capa vermelha é hoje o símbolo de protesto internacional envolvendo questões femininas, seja em apoio aos direitos de reprodução no estrangeiro ou contra um nomeado para a Suprema Corote nos Estados Unidos, Moss, ou a sua personagem, é o rosto dessa vertente de resistência. Como afirmou durante entrevista para o The Washington Post durante o festival South by Southwest, ela espera que Gilead esteja a uma longa caminhada da América do presidente Donald Trump, mas isso não muda a presente realidade. É um papel que ela sem dúvida deseja não assumir, mas afirma que continua honrada pela responsabilidade na “circunstância realmente inusitada”.

“Como você se sentiria? O fato de a série se introduzir na cultura da maneira como ocorre é algo incrivelmente incomum. Gostaria que fosse uma fantasia, um Game of Thrones ou This is Crazy!, disse ela. “Mas infelizmente não é assim”.

Outros trabalhos. É meio-dia de um sábado no início de março e os coquetéis a US$ 16 já estão jorrando no hotel repleto de hipsters e pessoas que só vieram para ver os famosos que estão na cidade para o famoso festival, esperando algum vislumbre de Seth Rogen, ou Henry Winkler. Mas ninguém chama mais atenção do que Elisabeth Moss, a brilhante estrela no bar, com os longos cachos loiros caindo sobre a camiseta preta com inscrição Led Zeppelin e um blazer combinando. Ela veio dar apoio a dois filmes, um bate-papo com sala lotada com a compositora Brandi Carlile (ela é a estrela no vídeo da música Party of One de 2018 de Carlile) e uma sequência de muitas coisas no intervalo.

Moss não dormiu na noite anterior, quando Us, de Jordan Peele, fez sua estreia mundial a algumas quadras dali. E o mesmo ocorreu depois naquela noite no caso do filme Her Smell, uma carta de amor alimentada com álcool e drogas do diretor Alex Ross Perry aos altos e baixos do rock punk dos anos 1990, filme lançado no festival antes de chegar aos cinemas este mês.

Enquanto saboreia um smoothie verde, ela jura que está calma durante esse fim de semana cansativo. A atriz de 36 anos pergunta se tem smoothie no rosto. Não.

Se perguntar a Moss ela lhe dirá que Her Smell , a terceira colaboração da atriz com Perry, foi a coisa mais difícil para ela até hoje. A angústia, a raiva e a depressão do grunge dos anos 1990 colocou Elisabeth Moss – que cresceu ao som do jazz e ao lado dos músicos de blues, adorava Paula Abdul e cujo primeiro concerto que viu foi Bad de Michael Jackson – estavam completamente fora do seu elemento.

“Nirvana não era a minha praia, de modo algum. Eu mudava rapidamente para Britney Spears”, disse ela, citando Baby One More Time.

Becky Something,  nome da personagem de Elisabeth Moss nesse filme biográfico ficcional, é a autodestruição toxica de uma pioneira do movimento punk feminista (o chamado riot grrl). Ela é menos Courtney Love e mais Kurt Cobain, como também Amy Winehouse, Marilyn Monroe e James Dean – aqueles cuja luta com uma vida de fama incrível se mesclou com a dependência química devastadora. Você não consegue tirar seus olhos da inquietação e instabilidade de Becky, cujas bebedeiras, acessos violentos de raiva e a subsequente sobriedade são fascinantes e holisticamente constrangedores.

“Em uma sessão de gravação ela consegue o que fez temporada após temporada na TV, criando uma narrativa multianual para suas personagens”, disse Perry em uma declaração.

Não importa como ela chegou aí, o fato é que deixou Brandi Carlile, uma fã e colaboradora, visivelmente  abalada.

“Por vezes eu vi o filme visivelmente incomodada”, disse ela a Moss quando conversaram em Austin antes de rodar mais uma sequencia. Fiquei inquieta o tempo todo”, disse ela.

Desde a época em que estreou na série Mad Men, em 2007, até agora, quando está partindo para a terceira temporada de outra série aclamada e assumindo papéis principais em filmes a um ritmo vertiginoso, o foco na atriz nunca foi tão grande. Mas isto tem um preço. Com toda essa atenção  voltada para Elizabeth Moss e seu trabalho, também surgem os questionamentos de fãs, colegas e críticos no tocante à sua crença na Igreja de Cientologia. Ela se recusa a responder a essas críticas, mas diz que este é um assunto pessoal.

“Honestamente o que posso dizer é que tenho muito pouco controle sobre o que é meu e o que é privado e aquilo que não é. É minha escolha manter certas coisas privadas e não falar a respeito. A verdade é aquilo em que acredito e o que é importante para mim no meu trabalho. E com frequência, as coisas que eu defendo, tudo o que significa algo para mim e meu coração, procuro inserir no meu trabalho”.

Nesse trabalho, o espetacular percurso de Elizabeth Moss esteve à mostra durante todo o fim de semana. Uma noite ela é Kitty, a vaidosa dona de casa fofoqueira que afoga suas inseguranças num rosé no filme Us. Na noite seguinte ela é Becky e sua vida complicada. Moss diz que interpretou quatro personagens diferentes em menos de cinco meses no ano passado, casualmente dizendo que acabou de voltar de um trabalho num filme de Wes Anderson na França.

Essa versatilidade ficou aparente para Jordan Peele que quis que Elizabeth explorasse a vibe de Real Housewives of  Orange County  no filme Us.

“O maravilhoso de trabalhar com Lizzie, do ponto de vista da direção, é que você pode experimentar”, disse Peele numa entrevista promovendo o filme de horror. “Ela tem instrumentos tão refinados que você consegue um desempenho tão belo, tão nuançado, estranho e assimétrico, e então você diz “tente mais uma vez , mas diferente”, e então ela lhe dá as mais difíceis opções que você consegue imaginar”.

Um fim de semana com ovações de pé terminou com um baile no Austin Convention Center. Os fãs com seus iPhones clamavam por uma chance de fotografar Moss ou como roteirista, a roqueira punk, a estrela. É o preço da fama. A cena não era muito diferente de um dos temas de Her Smell – o custo da fama e os sacrifícios que surgem com ela.

De volta ao hotel Four Seasons, ela diz que o custo da fama já ocorreu no caso dela.

“Minha família é muito importante, meus amigos, meus namorados são importantes para mim”, disse ela.

Ela então, retorna à sua franqueza.

“Essas são as pessoas com as quais desejo realmente estar”.

“Sem querer ofender, mas você entende o que estou dizendo”.

Não me ofendi.

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