A reciclagem dá o tom

Música inédita em novela virou exceção. A onda retrô disfarça carência de canções sob encomenda

Alline Douroiz, O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2009 | 16h01

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Quando o telespectador pensa em sofrimento de escravos na TV, além da mocinha de Lucélia Santos, é certo que o que venha à mente seja acompanhado pelo fundo musical do "lerê-lerê" de Retirantes, poema de Jorge Amado musicado por Dorival Caymmi, tema da novela Escrava Isaura. Talvez Dancy’n Days também não tivesse grudado no inconsciente coletivo sem o "abra suas asas/solte suas feras" das Frenéticas, nem Vera Fisher tivesse inspirado tantas mães a batizarem as filhas de Luiza, não fosse a canção feita por Tom Jobim especialmente para sua personagem em Brilhante.

 

Fundamental na composição de uma telenovela, a trilha sonora tem sido cada vez menos original e mais regravada, com canções repaginadas por artistas novos ou já consagrados.

 

Ao pegar carona tardia na onda "de volta aos anos 80", que já acontece há quase uma década, a próxima temporada de Malhação estreia dia 9 na Globo com a trilha toda composta por regravações de rock nacional nas vozes de bandas de sucesso na web. Léo Jaime, Ultraje a Rigor, RPM, Ritchie, Lobão e Legião Urbana estão entre os homenageados das 18 faixas musicais. Novo protagonista da trama, Filipe Galvão, o Fiuk, cantará com sua banda, Hori, a versão acústica de Só Você. Composta por Vinicius Cantuária, a música ganhou fama na voz de Fábio Jr, que vem a ser ninguém menos que pai de Filipe.

 

Cabe aqui um parêntese: foi gravando canções em inglês para novelas, sob o pseudônimo de Mark Davis, que Fábio Jr. se lançou na década de 70.

 

Voltando a Malhação: diretor da novela, Mário Márcio Bandarra conta que embora a produção seja feita para os jovens, o público de 30 a 60 anos representa quase 60% de sua audiência. "É uma maneira de juntar as duas pontas com música", explica.

 

O saudosismo oitentista estará pontuando ainda o figurino dos personagens adolescentes. E também ficará evidente quando eles trouxerem de volta um esporte esquecido há tempos pelos jovens: a patinação.

 

Composta por Rogério Vaz, produtor musical da novela, o tema da abertura, Quem Eu Sou, é a única feita exclusivamente para a trama, e por força do script. "A ideia é mostrar para a garotada o repertório divertido dos anos 80. Mas não achamos nada que contasse tão bem a história do protagonista. Por isso, tivemos de compor uma especial para ele", conta Vaz.

 

Ter um artista que componha sob encomenda para um personagem, como Paulinho da Viola em Pecado Capital (1975), é raridade hoje em dia.

 

Nem Manoel Carlos, famoso por rechear as tramas de bossa nova, tem conseguido tal luxo. "Nem todos os artistas (consagrados) gostam de participar de novelas, já que a música faz um sucesso efêmero", diz o autor de Viver a Vida. "Pensei até em encomendar toda a trilha a novos nomes."

 

Ao Estado, Maneco também explica por que prefere regravações. "Privilegio Tom Jobim e Vinicius de Moraes porque, além da qualidade absolutamente universal, tudo o que eles fizeram está ligado à vida carioca, ao Rio, onde situo minhas histórias."

 

Convidar grandes nomes para regravar hits para novelas implica outro problema, listado tanto por Manoel Carlos como pelo diretor musical da Record, Marco Camargo: o resultado da encomenda pode não ser o esperado. "Como dizer ao artista, normalmente consagrado, que a música não serviu?", questiona Maneco. Camargo ressalta que esse é um dos motivos por que a maioria das regravações da Record é feita por intérpretes em começo de carreira.

 

PRATO FEITO

Cinquenta anos depois de Trágica Mentira (Tupi, 1959), primeira novela a ter trilha exclusiva na TV, e 40 anos após o jornalista Nelson Motta produzir a primeira trilha original da Globo (Véu de Noiva, 1969), as tramas de hoje privilegiam o prato feito dos sucessos consagrados. A tendência, porém, não desagrada Motta. "Nada contra regravações. O que vale é o resultado, a qualidade da canção", diz o produtor. A trilha de Caminho das Índias está entre suas preferidas, por causa da inovação. "Mas as melhores são as trilhas das novelas do Gilberto Braga. Ele conhece muito de música brasileira dos anos 50 e 60", observa.

 

Para Maneco, a música brasileira sempre foi muito inspirada e algumas podem ser ouvidas eternamente. "Gosto de usar canções antigas que criem um ruído novo."

 

De acordo com Nilson Xavier, criador do site www.teledramaturgia.com.br e autor do Almanaque da Telenovela Brasileira, a tradição das trilhas sonoras originais se manteve até 1976. Depois disso, além de músicas inéditas aleatórias, as trilhas eram feitas de poucas regravações.

 

"A diferença está na quantidade. Hoje, regravações ocupam muito mais espaço na trilha sonora de uma novela. Antigamente acontecia o inverso", compara.

 

O pesquisador é contra a moda do revival. Ele diz que a trilha faz parte da identidade da novela e, com as regravações, isso já não é mais possível.

 

O fato é que a facilidade de ter uma música antiga de bom gosto no folhetim poupa muito trabalho às emissoras e gravadoras. Não é preciso esperar meses para a música virar sucesso na novela nem rezar para que ela seja hit nas rádios para bombar a trama, explica Marco Camargo, da Record.

 

Burocracia com gravadoras e estrelismos dos artistas também são empecilhos para a exclusividade. Camargo ressalta que nem sempre o artista é detentor da obra, que pertence ao compositor e sua editora, o que dificulta a negociação dos direitos autorais.

 

"Acontece muito também de o fonograma (música) ser de uma gravadora que privilegia uma emissora em detrimento da outra", diz o diretor musical. "Ou então, o artistas cede uma faixa do disco para a emissora ‘A’ e é impedido pela gravadora de ceder as outras faixas às demais emissoras."

 

Camargo, no entanto, garante que há vida fora da Globo, no que diz respeito a negociações musicais. Um dos troféus que o diretor gosta de exibir é a presença da italiana Laura Pausini na abertura da novela Poder Paralelo, com a música Belissimo Cosi. "Mas meu sonho é trazer o Roberto Carlos e o Elton John (risos)."

 

CAPRICHO

Recheada de regravações ou não, uma trilha de novela bem escolhida ainda consegue ser campeã de vendas, em tempos de downloads de músicas a granel. E, quem sabe, até ajudar a elevar o ibope. É o caso de Paraíso, em que o disco, de regravações sertanejas, superaram todas as expectativas. Por isso, Benedito Ruy Barbosa, autor da trama, planeja cuidadosamente a trilha de suas novelas – costuma, inclusive, citar trechos de modas de viola nas cenas.

 

De acordo com o diretor-geral de Paraíso, Rogério Gomes, o Papinha, os últimos números da trilha figuravam na casa das 100 mil cópias. Negócio da China, novela das 6 anterior à trama de Benedito, vendeu parcos 9 mil CDs.

 

Com longas cenas que combinavam a exuberância da paisagem pantaneira com canções interpretadas pelo cantor-ator Daniel, além da participação de artistas caipiras, a novela alçou o ibope do horário para a casa dos 30 pontos. "No universo sertanejo, regravar músicas antigas é o que mais acontece. Nos aproveitamos disso", assume Papinha.

 

Colaborou Gustavo Miller

 

*A fonte das curiosidades sobre trilhas sonoras desta reportagem é o livro Almanaque da Telenovela Brasileira, de Nilson Xavier.

 

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OS CAMPEÕES | Gal Costa e Caetano Veloso têm, cada, mas de 50 músicas em trilhas de novelas. Simone, Fafá de Belém, Maria Bethânia, Marina, Rita Lee, Djavan, Roupa Nova, Milton Nascimento e Lulu Santos são recordistas em músicas-tema de personagens

 

‘BRIGADU’ | Filipe Galvão, protagonista da nova temporada de Malhação, regravou Só Você, de Vinícius Cantuária, sucesso na voz do pai, Fábio Jr.

 

O REI DO VAREJO | A trilha de novela recordista em vendas é o 1.º disco de O Rei do Gado (1996): foram 2,2 milhões de cópias

 

SÓ DÁ ELES | Rita Lee é a intérprete mais constante em temas de aberturas: sete. E Elton John, o cantor estrangeiro que mais emplacou hits em trilhas de novela: 19

 

CANÇÕES MAIS TOCADAS EM NOVELAS

'Eu sei que vou te amar'

 Os Imigrantes | Band/1982

Bambolê | Globo/1987

Explode Coração | Globo/1995

Anjo Mau | Globo/1997

O Beijo do Vampiro | Globo/2002

América | Globo/2005

Maysa (minissérie) | Globo/2008

 

'Baby'

Locomotivas | Globo/1977

Ninho de Serpente | Band/1982

Transas e Caretas | Globo/1984

Anos Rebeldes | Globo/1992

Vira-lata | Globo/1996

Laços de Família | Globo/2000

 

'Io Che Amo Solo Te'

Anjo Mau | Globo/1976

Os Imigrantes | Band/1982

Vereda Tropical | Globo/1984

A Próxima Vítima | Globo/1995

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