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A queda da ‘Terrace House’

O emocionante sucesso da TV no Japão terminou em tragédia quando a participante Hana Kimura se matou após uma onda de abusos online. Mas “Terrace House” sempre foi mais complicado do que parecia

Eric Margolis, The New York Times

21 de julho de 2020 | 10h00

Hana Kimura, lutadora profissional do Japão, entrou em setembro para o elenco do reality show Terrace House, porque, segundo ela, queria “encontrar um romance maravilhoso”.

Era um objetivo bastante comum em Terrace House, que acompanha o cotidiano de seis rapazes e moças que moram juntos numa casa deslumbrante enquanto vão navegando o amor, a vida e as carreiras. Ao longo de cinco temporadas na Fuji TV do Japão e na Netflix, que a transmite para cerca de 190 países, a série virou um fenômeno global, amada por fãs e críticos de todo o mundo por sua abordagem suave ao gênero “estranhos compartilhando uma residência luxuosa”, um dos mais antigos formatos de reality shows.

Nove meses depois, Kimura estava morta. Ela foi encontrada em sua casa em Tóquio no dia 23 de maio, junto com várias cartas de suicídio. Uma sequência um tanto agourenta de tweets e stories no Instagram precedeu sua morte. Ela tinha 22 anos.



É impossível saber por que alguém tiraria a própria vida. Mas, nas semanas que antecederam sua morte, Kimura se tornou alvo de ódio nas redes sociais – em grande parte inspirado no seu comportamento em Terrace House que, segundo ela disse a um amigo, foi a conduta que os próprios produtores do programa a instruíram a apresentar. Horas antes de Kimura morrer, ela twittou: “Todos os dias, recebo quase 100 opiniões bem francas e não posso negar que fico machucada”.

Sua morte deixou o país frente a frente com o cyberbullying e pôs um fim repentino e trágico a Terrace House. A Fuji TV rapidamente cancelou o restante da atual temporada e não disse se o programa voltará. (A Netflix, que continua apresentando episódios existentes, até mesmo os de Kimura, não quis fazer comentários para este artigo).

Mas as pessoas próximas a Kimura, entre elas sua mãe, Kyoko Kimura, continuam se perguntando até que ponto não foi o meigo reality show que colocou Hana numa rota fatal de declínio emocional. Nesta semana, ela registrou queixa junto a um órgão de ética em radiodifusão japonês, a Organização para a Ética de Transmissão e Melhoria dos Programas, implicando o programa na morte da filha e alegando que o reality show a retratava como uma pessoa agressiva e violenta, o que violara seus direitos pessoais.

Ela disse que continua profundamente decepcionada com a resposta – ou a falta de resposta – à tragédia por parte da Fuji TV, da East Entertainment (produtora que faz o Terrace House) e da Netflix.

“Ouvi um silêncio ensurdecedor”, disse ela. “Ela estava trabalhando tão duro. Foi tudo pelo benefício monetário das outras pessoas”.

É do conhecimento geral que os reality shows são bastante produzidos e editados para criar narrativas e dramas, mas muitos fãs acreditavam que a simplicidade artística de Terrace House deixava este reality mais real do que a maioria. As interações entre os colegas de casa eram ternamente hesitantes e confusas, passavam-se longos períodos de tempo nos quais quase nada acontecia. Tanto a Fuji TV quanto o “painel de fofocas” de celebridades, que faziam comentários sobre os acontecimentos da casa desde um estúdio separado, diziam repetidas vezes que “não havia roteiro nenhum”.

Enquanto alguns ex-participantes defendem Terrace House, dizendo que era uma visão honesta e transparente de seu tempo e experiência na casa, outros dizem que o programa era tão manipulado quanto seus primos mais cruéis. Em entrevistas, eles disseram que os funcionários da Fuji TV sempre consultavam os participantes sobre seus sentimentos e lhes diziam para ter determinadas conversas ou tomar certas decisões. Disseram também que as intervenções da equipe resultaram em namoros, discussões e algumas das cenas mais icônicas do reality.

Vários participantes que falaram com o New York Times pediram anonimato porque haviam assinado acordos de confidencialidade que os proíbem de contar o que acontece no set. Três entrevistados pelo Times disseram que o programa, de maneira bastante agressiva, ditava como algumas interações deveriam acontecer e como alguns participantes deveriam agir.

“Vários produtores me puxavam de lado e ficavam furiosos comigo”, disse um(a) ex-morador(a) da Terrace House. “Eles me pressionaram muito para fazer as coisas no programa. Me escolheram para desempenhar um papel determinado”.

Essa intervenção teria ocorrido no evento que transformou Kimura numa pária. Um único episódio – no qual ela reagiu com raiva quando uma pessoa da casa estragou sem querer uma de suas roupas de luta – provocou uma série de insultos no Twitter e no Instagram, alguns dizendo para Kimura “morrer” e “desaparecer”. (As mensagens mais inflamatórias foram removidas das plataformas.) Como os membros do elenco tendiam a uma abordagem menos hostil da resolução dos conflitos, como é comum no Japão, a explosão de Kimura provavelmente pareceu um clímax para muitos espectadores.

Uma série de mensagens no LINE (um aplicativo de mensagens muito popular no Japão) de Kimura para um amigo, originalmente publicada pela revista japonesa Bunshun Online e compartilhada com o Times por Kyoko Kimura, indica que o episódio foi encenado pelos produtores. Segundo os textos, a equipe instruiu Kimura a perder a paciência e dar um tapa no colega de quarto Kai Kobayashi. “Não foi de verdade”, ela escreveu. “E realmente me sinto péssima com tudo isso”.

Reiko Hara, porta-voz da Fuji TV, disse que “não houve encenação ou instrução inadequada” e acrescentou que “estamos investigando a situação”.

Numa entrevista coletiva neste mês, o presidente da Fuji TV, Ryunosuke Endo, disse que o programa mostra apenas cenas que representam com precisão os sentimentos do elenco.



 

Uma experiência mista


Muitos ex-participantes do Terrace House relembram com carinho o tempo que passaram no programa e dizem que foi uma experiência significativa, que teve o potencial de impulsionar suas carreiras. Shohei Uemura, um famoso membro do elenco da temporada Abrindo novas portas, que decorreu entre 2017 e 2018, garante que morar na casa foi uma fonte de crescimento para ele.

“Eu tinha que pensar fora dos meus limites”, disse ele.

Quatro ex-membros do elenco também comentaram que a equipe era muito amigável e solidária. “Gostava muito de todos os envolvidos”, disse Chikako Fukuyama, que participou da temporada de 2016 do programa, Estado de Aloha. “Eles não achavam que a gente não tinha importância”.

Alguns ex-participantes contestam as alegações de que a ação era projetada pelos produtores. Um membro do elenco disse que nunca recebeu nenhuma instrução específica. Outro explicou que, embora ele não tivesse recebido nenhuma orientação da equipe, os próprios moradores da Terrace House costumavam agir de maneira diferente na frente e atrás das câmeras.

Mas mesmo aqueles que gostaram do tempo no programa reconheceram que os fãs apaixonados podem ser cruéis. “Os comentários sobre as Kardashians são mais leves e gentis”, disse outro membro do elenco. “Eu me sentia a pior pessoa do mundo”.

Os críticos apontam que a estrutura de Terrace House pode ter contribuído para os ataques online contra Kimura.

“Como nos dizem que o programa é real, o espectador acredita que seja real mesmo”, disse Hiroaki Mizushima, crítico de TV do Yahoo News Japan e professor de literatura da Universidade Sophia em Tóquio. “Então, quando alguém faz alguma coisa de que um espectador não gosta, ele o ataca como ser humano”.

A juventude dos membros do elenco e sua relativa inexperiência em relacionamentos e parcerias íntimas provavelmente os deixaram ainda mais sensíveis a esse julgamento, disse a Dra. Julie Ancis, diretora de ciberpsicologia do Instituto de Tecnologia de Nova Jersey.

Os aspectos mais problemáticos de Terrace House também lançam luz sobre questões sociais prementes no Japão. As autoridades do governo há anos tentam encontrar uma maneira de equilibrar o abuso online com a liberdade de expressão. Após o suicídio de Kimura, renovaram seu esforço para punir o cyberbullying e, em 4 de junho, um painel do Ministério de Assuntos Internos e Comunicações propôs que as operadoras de mídia social fossem obrigadas a divulgar os nomes e números de telefone de pessoas que fazem publicações difamatórias. O ministério espera elaborar a versão final do plano em novembro.

Mas o Japão também sofre com uma alta taxa de suicídio, altos níveis de bullying nas escolas e acesso limitado a recursos de assistência à saúde mental. Novas leis sobre cyberbullying podem significar pouco, sem primeiro abordar a falta de assistência à saúde mental.

“Nossa pesquisa mostrou que leis e punições não detêm os agressores de cyberbullying”, disse Sameer Hinduja, professor de criminologia da Florida Atlantic University e co-diretor do Cyberbullying Research Center. “O que parece mais importante é o papel das instituições sociais, como família, comunidade e escola, no fornecimento de instrução e educação em áreas como empatia e resiliência”.

A atual educação sobre cyberbullying no Japão não é suficiente para lidar com a amplitude do problema, disse Michal Ptaszynski, professor de ciência da computação no Instituto de Tecnologia Kitami em Hokkaido, que pesquisa o cyberbullying.  “As crianças aprendem pouco sobre o assédio nas aulas sobre sociedade”, disse ele. “E estas não lhes dão nenhum meio de defesa em situações reais de cyberbullying”.



 

Marcha para uma tragédia


Kimura apareceu como mais uma atração encantadora para o elenco de Terrace House, com sua curta mas célebre carreira na luta, cheia de campeonatos e prêmios. De cabelos rosados, ela era tão tímida nos primeiros dias do programa que nem conseguiu olhar para sua paixão, o jogador de basquete Ryo Tawatari, e cobriu o rosto com o travesseiro.

“Ela ficou muito feliz quando entrou no programa”, disse Kyoko Kimura. Mas Hana começou a sofrer com as críticas das mídias sociais, mesmo antes do episódio da roupa.

Terrace House é uma relativa raridade na televisão japonesa no que diz respeito à seleção de participantes multirraciais e ocasionalmente não japoneses. A origem meio-indonésia de Kimura a transformou em alvo de racistas e cyberbullies.  “Eu me lembro de ter visto desenhos grosseiros onde ela aparecia como gorila, zombando de sua pele mais escura”, disse Farrah Hasnain, colaboradora do Japan Times que traduziu para o inglês artigos e postagens de mídia social em japonês sobre Kimura para seus fãs internacionais. “Fiquei muito chateada com isso, porque ninguém na Fuji TV ou no painel parecia defendê-la. Estava tudo liberado”.

Segundo sua mãe, Kimura já vinha pensando em sair do programa meses antes. Então, um surto de comentários cruéis após o episódio “O incidente com a roupa”, que estreou em 31 de março na Netflix e 18 de maio na Fuji TV, contribuiu significativamente para o declínio emocional de Kimura. Na época, disse sua mãe, Kimura estava morando sozinha num apartamento alugado, depois que a pandemia interrompeu as filmagens, e não conseguia se encontrar com a família com muita frequência.

Numa entrevista, Kai Kobayashi, a co-estrela da cena da roupa, disse que Kimura ligou para ele em maio, seis semanas depois de o episódio ter sido lançado na Netflix, para pedir desculpas e dizer que os produtores haviam dito para ela agir daquela maneira. “Fiquei feliz em ouvir isso dela porque não achava que ela era o tipo de pessoa que reagia assim”, disse Kobayashi.

Kyoko Kimura disse que a Fuji TV, a East Entertainment e as agências de Hana, World Wonder Ring Stardom e WALK, eximiram-se da responsabilidade e a trataram como um estorvo quando ela as procurou depois da morte de Hana. “Eles me disseram que Hana nunca tinha falado que queria sair do programa, mas Hana estava falando em sair desde o final de novembro”, disse ela.

A World Wonder Ring Stardom e a WALK não responderam aos pedidos de comentário. (A East Entertainment encaminhou as perguntas à Fuji TV.) Quando perguntada se eles estavam cientes de que Hana Kimura pode ter ficado deprimida com o surto de comentários online, a representante da Fuji TV disse que a empresa não comentaria por respeito ao luto da família.

“Lamentamos muito que os comentários que aparecem nas mídias sociais tenham se tornado um problema”, disse ela.


 


 TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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