Patrick T. Fallon/ Reuters
Patrick T. Fallon/ Reuters

A produção de TV se adaptou à pandemia. E agora?

Sindicatos que representam atores e equipes de filmagem estão em negociações com os estúdios para estender - e possivelmente alterar - os protocolos de segurança acordados em setembro

Matt Stevens, The New York Times

01 de maio de 2021 | 10h00

Quando ficou claro, ainda no início da pandemia, que seria mais seguro estar ao ar livre do que dentro de algum lugar, os criadores de Big Shot: Treinador de Elite, uma nova série da Disney+, sob direção de John Stamos, começaram a reescrever as cenas para que pudessem ser filmadas do lado de fora. Em seguida, surgiu uma nova orientação, destacando que botar o elenco e a equipe de filmagem nos ônibus e despachá-los para locações em toda Los Angeles apresentava seus próprios riscos. Então, eles reescreveram seus roteiros mais uma vez, para que as cenas pudessem ser filmadas nos sets.



Como o vírus deixava o trabalho presencial arriscado, muitos atores procuraram empregos em animações, para as quais pudessem gravar suas vozes de casa. Mas trabalhar em casa representava desafios, mesmo para os veteranos: membros de Os Simpsons tiveram de gravar episódios de dentro de armários, debaixo de cobertores, dentro de estúdios improvisados, feitos de travesseiros, almofadas e camas de cachorro.

E quando a velha série policial Law & Order: SVU retomou as filmagens em Nova York neste outono, tudo também mudou com o tempo. Os filtros de ar bombavam no set até o momento em que alguém gritasse “Ação!” Houve menos cenas filmadas em locações, menos trocas de figurino e menos extras, já que cada figurante tinha de ser testado para coronavírus.

Foi um ano de dificuldades e experimentação para a indústria da televisão, que teve de aprender no meio do processo, enquanto tentava criar novas diversões para um público doméstico extraordinariamente cativo. O trabalho tinha seus riscos: depois que a produção de TV foi reiniciada no verão, ela teve de ser interrompida nos momentos em que as estrelas adoeciam ou o vírus estava em alta; em Los Angeles, ocorreram 23 surtos em locais de produção de filmes e televisão desde julho, ocasionando 187 casos, de acordo com dados de saúde do condado fornecidos ao New York Times.

Agora os sindicatos que representam atores e membros das equipes de filmagem estão em negociações com os grandes estúdios para estender o acordo de retorno ao trabalho a que chegaram em setembro, estabelecendo protocolos de segurança. Executivos do setor disseram acreditar que o acordo atual, que expira no final do mês, será simplesmente estendido - com pequenas mudanças - no curto prazo. Mas eles também disseram que, conforme aumenta a proporção de americanos vacinados, os estúdios podem exigir que os trabalhadores se vacinem, procurando reduzir significativamente a quantidade de testes exigidos para alguns trabalhadores, os quais atualmente fazem o teste pelo menos três vezes por semana. Outros aspectos do acordo também podem ser revisados.



Mas algumas mudanças podem durar mais que a pandemia. Assim como a natureza da escola e do trabalho de escritório foi transformada à medida que milhões aprenderam a funcionar remotamente, a televisão também teve de se adaptar, com showrunners, atores e equipes obrigados a inovar, ajustar e mudar.

“A pandemia acelerou nosso uso da tecnologia de forma produtiva e deixou as coisas mais eficientes”, disse Jaime Dávila, presidente da Campanario Entertainment de Los Angeles, que produziu a série da Netflix Selena: a Série.

Em vez de visitar o set pessoalmente, Dávila disse que acabou assistindo grande parte da produção ao vivo, por meio de um programa de vídeo online - algo que ele percebeu que agora possibilitará que ele supervisione mais facilmente vários projetos.

“A tecnologia permite que eu não precise estar lá”, disse ele.

Na maior parte do ano, quando os teatros estavam fechados e as apresentações ao vivo proibidas, a televisão era a única atração da cidade para os atores que corriam para encontrar trabalho.

Law & Order: SVU tem aparecido como linha nas biografias de atores de teatro por muitos anos, mas depois que a Broadway fechou, a série se tornou um elemento ainda mais importante de sua dieta de trabalho - em parte porque trazer estrelas era complicado por causa das regras de quarentena, em parte por um esforço consciente para ajudar a comunidade teatral de Nova York.

“Quando tudo fechou, ficamos todos tipo, ‘e agora, o que vamos fazer?’”, disse Adriane Lenox, vencedora do Tony Award que atuou como jurada em SVU poucos meses após testar positivo para o vírus no início da pandemia.

Lenox, como muitos outros atores, disse que teve de viver de auxílio-desemprego em dado momento e que tentou sobreviver procurando trabalhos de passeadora de cachorro em sites como ZipRecruiter.

Ela foi um dos mais de cem atores locais que apareceram na série este ano, de acordo com Warren Leight, o showrunner.

“Logo no começo eu falei: ‘Vamos fazer deste ano o ano em que o primeiro grupo de atores que procuramos seja o grupo dos atores da Broadway, dos atores off-Broadway’”, disse ele. “Realmente parece a coisa certa a fazer. E, em termos logísticos, é mais fácil contratar localmente”.

Os efeitos da pandemia foram sentidos de forma mais aguda em Los Angeles e Nova York, onde se encontravam, pelo menos em tempos pré-pandêmicos, cerca de dois terços dos empregos de cinema, televisão e teatro do país. Na cidade de Nova York, por exemplo, as autoridades estimam que o emprego no setor de artes, entretenimento e recreação caiu 66% de dezembro de 2019 a dezembro de 2020.



Mas há sinais de recuperação. No final do ano passado, os dias de filmagem para a televisão em Los Angeles haviam recuperado cerca de 62% do que eram em 2019, de acordo com o FilmLA, o escritório oficial de cinema da cidade e condado de Los Angeles. Depois de um hiato durante o inverno, quando um surto afetou a Califórnia, a produção de TV na cidade está se aproximando dos níveis normais pré-pandêmicos, informou a FilmLA na semana passada, mesmo com outros setores da indústria do entretenimento ficando para trás.

Em Nova York, as autoridades disseram que cerca de 40 programas de televisão estavam em produção ou prestes a começar a ser filmados novamente - um nível semelhante a como as coisas estavam antes do fechamento de março de 2020.

E na Geórgia, que se tornou o terceiro maior centro de produção do país, as autoridades disseram que a indústria parece estar se recuperando de um declínio pandêmico que viu os gastos com projetos de cinema e televisão no estado cair de cerca de US $ 2,9 bilhões no ano fiscal de 2019 ano para US $ 2,2 bilhões no ano fiscal de 2020.

Ainda assim, a produção na pandemia tem custos mais altos. Os produtores de televisão disseram que tiveram de fazer testes várias vezes por semana, contratar “oficiais da covid” com vestes laranja e empresas de limpeza extras - todas as quais aumentaram os orçamentos em até 15%. Eric Tomosunas, diretor da Swirl Film, com sede em Atlanta, estimou que sua empresa realizou cerca de 20 mil testes PCR desde julho.

O sindicato de atores de televisão e cinema SAG-AFTRA trabalhou com a Directors Guild, os Teamsters e outros grupos e empregadores para estabelecer protocolos de segurança. O acordo, que pode ser prorrogado em breve, abriu caminho para que muitos membros voltassem ao trabalho, com algumas pausas, como quando o SAG-AFTRA pediu uma “suspensão temporária da produção presencial” no sul da Califórnia neste inverno, quando um aumento repentino de infecções ameaçou sobrecarregar os hospitais de Los Angeles. (Os sindicatos têm lutado para encontrar um equilíbrio entre manter os trabalhadores seguros e ajudá-los a ganhar a vida: alguns membros da Actors’ Equity, que representa atores de teatro e diretores de palco, reclamaram que as regras de segurança do sindicato dificultaram muito encontrar trabalho).

David White, diretor executivo e negociador-chefe do SAG-AFTRA, disse acreditar que eles encontraram um caminho seguro a seguir.

“Eu sinto que a coisa certa a fazer é seguir em frente e sinto que estamos vivendo uma história de sucesso dramática”, disse ele.


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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