A Portelinha vê a Portelinha

Passeie pelas ruelas de Rio das Pedras, e se sinta no cenário da favela de 'Duas Caras'

Patrícia Villalba, de O Estado de S. Paulo, O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2008 | 00h04

A favela da Portelinha, de Duas Caras, seria um exagero da ficção não fosse a existência da comunidade de Rio das Pedras, que está aí para provar que existe, sim, um lugar de gente humilde e trabalhadora, onde a paz e o respeito são leis. E deve ser por isso que a gente anda pelas suas ruelas com a sensação de estar no Projac, fantasiando que pode ouvir o "epa, epa, epa" de Antônio Fagundes a qualquer momento. "Tenho muito orgulho de morar aqui. Meus filhos têm uma educação ótima, não vêem drogas nem armas", diz Lúcia Rodrigues. Ela chegou há 14 anos de Fortaleza, vendeu cosméticos, progrediu e hoje tem um salão de beleza. É uma história que o autor Aguinaldo Silva conhece bem. Ele acompanhou de perto o nascimento da comunidade, formada por retirantes nordestinos a partir dos anos 70. "Eu morava num condomínio, que ficava no final da Estrada Velha de Jacarepaguá, em meio à qual foi criada a favela. Como passava por ali todo dia, acompanhei todo o processo, de invasão, criação e crescimento da favela", explica. E quando decidiu ambientar sua nova novela na Barra da Tijuca, adivinhe de qual comunidade ele se lembrou? "Na hora pensei naquela favela que eu conhecia tão bem - Rio das Pedras", explica. O que mais há em Rio das Pedras é cabeleireiro e botequim. Neles, não se fala em outra coisa, senão os mandos e desmandos de Juvenal Antena (Antônio Fagundes). O personagem é comparado a Félix dos Santos Tostes, assassinado no ano passado e que seria o chefe de uma milícia que atuaria no local - embora a existência do grupo não seja confirmada por ninguém ali. "Há quem diga que a paz daqui venha das milícias, mas eu prefiro acreditar que é Deus", observa o pastor Amós Rubens Teixeira. "Aqui todo mundo é muito unido. E, por isso, aos poucos, o povo de fora aprendeu a respeitar quem é de Rio das Pedras", completa o comerciante e músico César Dias. Dois caras   Juvenal Antena é o tal, mas quem faz sucesso mesmo em Rio das Pedras é Evilásio. E mais do que ele, o ator Lázaro Ramos é um exemplo, um verdadeiro herói para os moradores. "Comparo a trajetória dele com a minha. Somos negros, filhos de empregadas domésticas, batalhamos pelo sonho. Ele realizou o dele, e eu vou conseguir realizar o meu também", promete o músico e comerciante César Dias, de 29 anos, nascido e criado em Rio das Pedras, como Evilásio é nascido e criado na Portelinha - e tão popular quanto. Vocalista e compositor da banda Altivez, de pop rock e eletrônica, que chega a fazer show na comunidade para 10 mil pessoas, César compôs a música O Novo Rumo em homenagem ao ator. Em breve, deve apresentá-la na Câmara Municipal do Rio, quando Lázaro receberá uma comenda. "Sonhei com o Lázaro se defendendo num tribunal, daí veio a inspiração - eu durmo sempre com um gravadorzinho ao lado da cama, para aproveitar as idéias. Já fico imaginando como vai ser o clipe", diz ele, que começou a trabalhar aos 12 anos de idade e já foi de motorista de ônibus a paraquedista. Fiéis de verdade     Rio das Pedras tem uma rádio de poste, uma Mãe Setembrina e até um Evilásio. Mas a Portelinha não tem um pastor evangélico como o pastor Amós Rubens Teixeira. Terno risca-de-giz impecável e um ar de trompetista de jazz, ele está à frente do primeiro templo fundado na comunidade - há 47 deles -, freqüentado por cerca de 700 fiéis. "Estamos recebendo hoje a reportagem do Estadão, eu até já dei entrevista. Fiquem tranqüilos, representei bem vocês. E por que o Estadão está aqui?", pergunta ele de cima do altar. "Por que Jesus mandou!", responde um mar de fiéis, igreja cheia numa manhã de domingo. Amós comanda um culto animado, com músicas modernas e palmas, muitas palmas, e que em nada lembra o carrancudo e extinto núcleo evangélico de Duas Caras. Sim, extinto. Aguinaldo Silva diz que foi obrigado a abandonar a história do Pastor Lisboa (Ricardo Blat). "Tive de tirar essa trama da novela, porque ela era a única que me obrigava a ser politicamente correto", justifica o autor. "Essa é uma novela politicamente incorreta, e os crentes da novela, de tão perfeitos, ficaram chatos." Por motivos distintos, o pastor Amós não aprovou o núcleo evangélico da novela. Mas não proibiu seus fiéis de vê-la. "Eu mesmo não vejo a novela, mas sei que tem um pastor. Pelo que me contaram, somos motivo de chacota e nossa religião é mostrada de maneira superficial", lamenta.

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