'A pandemia mostrou que a gente não é ninguém sozinho', diz Reynaldo Gianecchini

'A pandemia mostrou que a gente não é ninguém sozinho', diz Reynaldo Gianecchini

De volta ao ar na novela 'Laços de Família', que será reprisada a partir desta segunda, 7, o ator fala da sua estreia na TV como protagonista na trama de Manoel Carlos, das lições da pandemia e de sexualidade

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2020 | 21h50

Enquanto muitos artistas são vistos em lives ou compartilhando mais suas rotinas nas redes sociais nesta quarentena, Reynaldo Gianecchini tem preferido ficar “mais quietinho”, como o próprio ator paulista, de 47 anos, diz em entrevista, por Zoom, ao Estadão. “Nesta pandemia, tem de ser respeitado o momento de cada um, porque são várias as fases que a gente passa”, acredita ele. 

O nome do ator, no entanto, voltou a ganhar destaque com o anúncio da reprise da novela Laços de Família, de Manoel Carlos, exibida entre 2000 e 2001 e que vai ao ar no Vale a Pena Ver de Novo a partir desta segunda, 7, na Globo, juntamente com a última semana de Êta Mundo Bom! (e que entra no Globoplay dia 14). Sucesso no horário nobre, o folhetim rendeu momentos marcantes, como a cena de Camila (Carolina Dieckmann) raspando a cabeça durante seu tratamento contra leucemia, e alçou à fama Gianecchini, em seu primeiro papel na TV, como o personagem Edu, que vivia um triângulo amoroso com Camila e Helena (Vera Fischer), filha e mãe. Na trama, ele ainda contracenou com outros veteranos, como Marieta Severo e Tony Ramos

Enquanto a novela volta ao ar, Gianecchini espera, ansioso, poder retomar projetos como a peça inspirada no filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e a série Verdades Secretas 2, que foram adiados por causa da pandemia. Mas esse período 'de pausa' lhe rendeu a participação em uma produção do isolamento: a microficção Amor de Quarentena, que estará disponível ao público pelo WhatsApp a partir do dia 14. Com direção de Daniel Gaggini, o projeto, realizado em mais de seis países, conta também com Mariana Ximenes, Débora Nascimento e Jonathan Azevedo. O espectador escolhe um dos artistas do elenco para conduzi-lo ao longo da experiência de 13 dias (os ingressos podem ser adquiridos no site www.sympla.com.br). 

Na entrevista a seguir, Gianecchini fala sobre Laços de Família, pandemia e sexualidade.

Você já disse em entrevistas que assistiu ao primeiro capítulo da novela sozinho, não queria ver com ninguém do lado (por não ter experiência na TV). Agora, 20 anos depois, você acha que terá um olhar mais benevolente para esse ator em início de carreira?

O tempo faz ter um olhar muito bom sobre as coisas, né? Na época, eu me machucava muito me assistindo, até porque é muito estranho você se ver pela primeira vez. Eu já consumia muito teatro, TV, cinema. Eu tinha supernoção do que era ser um bom ator. Então, eu tinha supernoção de que eu estava muito aquém, muito verde. Hoje, olho com muita complacência isso, porque sei que é muito difícil você não ter experiência. Eu me vejo, acima de tudo, muito corajoso por ter bancado esse desafio. Agora que tudo passou e estou mais maduro, acho importante os erros também. Nada é absoluto. Tudo é um processo. 

Na época, você fazia teatro, e a TV sempre foi uma grande exposição. Quais dilemas que enfrentou para aceitar fazer Edu?

Eu tinha acabado de voltar para o Brasil, porque eu queria estudar para ser ator, e de cara fui fazer curso. Passei num teste e ganhei meu primeiro papel profissional numa peça do Zé Celso, no Teatro Oficina. Fiz duas peças em seguida. Achei que minha vida era aquilo. Foi nesse contexto que o produtor de elenco, Luiz Antônio Rocha, foi me ver em Boca de Ouro e falou que tinha um papel que era a minha cara. Naquela época, eu não era ligado em televisão, muito menos em novela. Eu estava muito empolgado com o teatro. Falei para o Luiz Antônio: ‘Não vou nem ter tempo, é no Rio, estou aqui em São Paulo’. Aí ele falou: ‘É para fazer par com a Vera Fischer’. Parei e falei ‘oi?’. Eu cresci assistindo a Vera, admirando os trabalhos que ela fez, e achava ela linda. Fui para o Rio, fiz o teste – nem achei que fiz um grande teste. Depois viajei, era Réveillon, fui para fora do País. Quando voltei, fiz uma escala em Los Angeles, e vi um jornal brasileiro que falava que tinha sido definido o próximo papel da novela de Manoel Carlos: o papel de Edu seria do Rodrigo Faro. Voltei para o Brasil, (o diretor) Ricardo Waddington me ligou e disse: ‘O papel é seu’. Falei: ‘Você tem certeza? Nunca fiz nada na TV’. Ele, muito honestamente, disse: ‘Não tenho certeza de nada, mas o Manoel Carlos quer você de qualquer jeito’. O Manoel Carlos me contou que ele pegou todos os testes, chamou a filha, a mulher dele, as amigas, e passou o teste de todo mundo e ele disse que fui unanimidade. Foi aí que ele bateu o pé que seria eu. 

Que memória você tem dessa estreia?

Estreei muito nervoso, muito inseguro. Foi o ano mais turbulento da minha vida. Eram horas e horas de trabalho. Fora isso, tinha a minha cobrança, eu me machucava muito, e mais difícil ainda era a perda da privacidade, porque tenho uma natureza muito reservada. De repente, você está em todo lugar da mídia, as pessoas falando de tudo a seu respeito, te criticando e falando da sua vida pessoal. Sinto que nesse ano vivi dez anos. Acho que saí ganhando muita coisa, mas que não foi fácil, não foi. 

De certa forma, Vera Fischer estimulou você a fazer o teste para a novela. Marieta Severo também é sempre lembrada por você. Fale como a acolhida delas foi importante?

Eu me senti muito acolhido por todo o elenco, principalmente os veteranos. Me lembro nitidamente do primeiro dia que encontrei a Marieta, eu quis falar para ela que estava muito feliz, por causa da excelente atriz que ela é, mas não só isso, era muito gostoso assistir ao trabalho dela. E eu, de cara, falei isso para Marieta e ela me abraçou muito, me ajudou muito. Sempre falei: ‘Nossa, Marieta, como te dei trabalho’. Porque eu realmente eu estava muito nervoso, eu errava, e ela sempre me acalmava de uma certa forma, tinha paciência. Depois de 20 anos, a gente se encontrou em Verdades Secretas. Eu disse: ‘Espero me redimir, que a gente possa jogar um jogo mais redondo’. Foi maravilhoso a gente trabalhar 20 anos depois e eu um pouco mais maduro.

Carolina Dieckmann e você já falaram que, a princípio, não houve empatia entre os dois, mas isso mudou com o tempo, não?

Cheguei com muita vontade de trocar, muito humildemente, e acho que a Carol, de cara, talvez não acreditou. Depois, ela me falou que esperava chegar um cara moreno, musculoso, Rio de Janeiro, e aí chegou um paulista, magrelo, branquelo e de São Paulo. Ela, muito franca, olhou para mim e falou: ‘É ele?’ (risos). A gente já riu muito disso. A gente teve uma história linda junto, de troca. Mas foi engraçado. Na hora, realmente não me senti acolhido tanto por ela. Mas logo em seguida já quebramos isso, e fomos que fomos.

Há temas tratados na novela que repercutiriam se houvesse redes sociais na época – e talvez isso aconteça agora. O que acha que vai repercutir após 20 anos? 

A novela não é datada. Tenho a impressão de que nada ficou velho, a gente continua discutindo as mesmas coisas, até essa questão do social, de falar da leucemia. Vai continuar sendo importante ainda falar do transplante, de doação de medula. 

E em relação ao triângulo amoroso que se formou entre filha, mãe e Edu? Carolina disse recentemente que, se fosse hoje, ela seria cancelada nas redes sociais. Você acha que o Edu também seria cancelado?

A Carol fala isso porque na época tinha muita gente que achava a personagem chatinha. E hoje em dia tem o cancelamento. Acho que o Edu não seria cancelado, mas também sabe por quê? As pessoas, geralmente, põem muito mais a culpa na mulher. Isso é uma coisa a ser discutida. Quando envolve traições, não sei o que: ‘ah é feio para a mulher’. E, para o homem, não fica tão feio. A gente já viu vários casos. Tenho essa sensação que é mais cruel com a mulher.

Ainda pensando nos termos contemporâneos, o Edu seria chamado de macho tóxico?

Não tem como, não dá. Ele era muito fofo, gente. Vejo as chamadas e acho ele um príncipe.

Uma das cenas mais emblemáticas da novela, e que deve ser comentada novamente quando for ao ar, foi da personagem Camila raspando o cabelo. Como se lembra dessa repercussão?

Acho que parou o Brasil. Nessa época, vale lembrar que, como não tinham outras plataformas nem muita internet, as novelas tinham audiência absoluta. Então, vários capítulos batiam recordes em cima de recordes. Essa foi uma cena que parou o Brasil, porque era muito emocionante. É um assunto delicado, a possibilidade da morte. Sempre é muito comovente, porque ainda não entendemos a morte. Muita gente não aceita, parece aniquilamento, porque se acredita que a gente é isso aqui: essa mente e esse corpo. E aí o que vai acontecer depois que isso acabar? As pessoas não sabem lidar. Então, toda vez que a possibilidade da morte surge, parece um golpe do destino, quando não é. A única certeza que se pode contar é que a gente vai morrer. A gente age sempre como se foi pego de calça curta. Sei de experiência própria, vivi isso. 

A batalha contra o câncer é tratada na novela, e anos depois você enfrentou isso na sua vida. Em algum momento, você fez conexão com a personagem de Carolina?

Muito. Quando começou a cair meu cabelo e resolvi raspar, na hora, só vinha a Carol na minha cabeça. E a primeira coisa que fiz foi pegar o telefone e deixar uma mensagem para ela falando: Carol, estou vivendo aquela cena que você fez tão lindamente e, ao contrário de você, não estou chorando, me olhei no espelho e achei que tenho cara de guerreiro. Não tinha como não associar com ela. E lembro que o recado que ela me deixou de volta me fez chorar muito, fiquei muito emocionado com o amor que senti vindo dela. Porque, no meu tratamento, o que me emocionava sempre era a manifestação do amor, eu só chorava quando via isso. Não chorava de medo, de sofrimento por nada. Eu estava muito aberto para receber e dar amor. 

Tenho feito essa pergunta a todos os meus entrevistados: como você acha que as pessoas vão sair dessa pandemia?

Acho que parece difícil acreditar que as pessoas, a príncipio, vão mudar, porque parece que está tão polarizado e tanta gente em guerra ainda, querendo provar que está certa e odiando a visão do outro. O País está tão polarizado, porque tudo vira política, que dá uma certa sensação que a gente vai passar por isso, vai sair disso e ainda vai estar todo mundo polarizado e se odiando. Mas, no fundo, acredito que vai ter muita transformação, não tem como. Estou me transformando muito nessa pandemia, estou entrando em contato com muitas coisas boas de rever, principalmente a questão da empatia, do afeto, da necessidade da troca, e de entender que a gente não é ninguém sozinho, nada funciona sozinho, que não adianta querer focar no bem-estar só seu e esquecer dos outros, porque você não vai ter esse bem-estar enquanto seu entorno também não estiver apagazigado. Por exemplo, no meu trabalho, e de todo mundo que trabalha com arte, acho que vai mudar muito, porque é uma sensibilidade muito grande que a gente acessou. Como ator, vou ter muito mais coisa para oferecer porque tenho material aqui dentro agora mais interessante, e eu estou louco para pôr para fora essa questão, da troca, da afetividade, da empatia. Quero muito fazer obras que tratam da liberdade de você ser quem você é, de você não ser racista, não ser homofóbico, de você aceitar o outro. Tudo isso foram questões que, na pandemia, ficaram muito claras. 

Você vai estrear Amor de Quarentena numa plataforma totalmente diferente. Como vai ser?

Tenho acompanhado muitas coisas que estão surgindo nessas plataformas, o teatro feito em casa, como as pessoas estão se virando, tem muita coisa boa sendo oferecida dentro da nova realidade. Então, quando me ofereceram isso, achei bem inédido, porque isso foge um pouco também do teatro. Nem sei se pode ser considerado teatro, é uma experência audiovisual feita pelo WhatsApp. É uma coisa realmente muito inovadora, nunca vi nada parecido. Quando fui participar, tive de criar esse personagem, que é um cara que, na pandemia, está muito sensível e resolve retomar a discussão com um ex-amor na vida dele, que há muito tempo ele não via. Ele sente que está pronto para falar coisas que nunca falou para essa pessoa, e essa pessoa vai ser quem comprar o ingresso.

E como você está passando esse período de pandema? 

Nessa pandemia, tem que ser respeitado o momento de cada um, sempre falo isso para meus amigos, porque são várias fases que a gente passa, e o emocional faz uma montanha-russa danada. Então, tem que respeitar os momentos em que você quer ficar em silêncio, em que você quer falar. Eu, na maior parte da minha quarentena, fiquei com vontade de ficar mais quietinho, tanto é que não fiquei com vontade de fazer live. Acho legal você falar de todos os assuntos e se manter em contato com pessoas. Eu assisti a algumas lives interessantes, mas não era meu movimento. Meu movimento era muito mais me voltar para dentro.

Você falou sobre sexualidade em uma entrevista no ano passado, e numa entrevista recente disse que nunca quis levantar bandeira e não sente que tem que se colocar dentro de uma caixinha: sou hétero, sou gay. Como vê essa questão?

Com relação a isso, acho que não tenho mais nada para falar, porque é isso que eu penso: acho que a sexualidade é fluida, é mais fluida do que todo mundo imagina. Eu jamais vou ficar falando das minhas experiências práticas, me expondo, expondo as pessoas. Acho que não interessa. Acho que o que posso fazer como pessoa que tem uma voz para comunicar é falar: ‘Presta atenção na liberdade que você pode ter, na fluidez, em tudo que rola dentro de você’. E a sexualidade tem tudo a ver com isso.

 

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