A obsessão pela luta de classes

Baseado em clássico, Maurice traz romance gay em meio ao trânsito social na Inglaterra

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2009 | 01h54

É uma cópia irretocável do melhor filme dirigido pela dupla James Ivory e Ismail Merchant, Maurice. Clássico da literatura inglesa, a obra de Edward Morgan Forster (1879-1970) só foi publicada um ano após a morte de seu autor, em 1971, apesar de ter sido escrita entre 1913 e 1914. Há duas razões para isso: Forster considerava que o leitor inglês não estava preparado para uma história de amor entre dois homens; o segundo motivo é que a homossexualidade foi considerada crime na Inglaterra até 1967 - até 1861, ela podia ser punida com a morte no país, pena depois reduzida para dois anos de cadeia.

Com tal ameaça, não causa espanto a associação entre homossexualidade e marginalidade no país de E.M. Forster, o célebre autor de Passagem para a Índia, ele mesmo homossexual, que explorou em seus romances o difícil trânsito interclassista na Inglaterra. Em Maurice, esse é um tema subjacente, mas não ausente. Os personagens principais são dois universitários de Oxford, Maurice Hall (James Wilby) e Clive Durham (Hugh Grant), que desenvolvem uma paixão platônica destinada a atravessar os muros da escola.

Maurice carrega a culpa ancestral de desejar outros homens, mas segue adiante. Clive, mais convencional, sublima a tendência e casa, para não perder sua posição social, uma vez que os homossexuais ingleses eram com frequência chantageados . Forster explora essa dicotomia entre natureza e cultura, fazendo com que Maurice, rejeitado por Clive, se apaixone pelo empregado do amigo. O comentário social da dupla Ivory-Merchant, que adaptou outra obra de Forster para o cinema (A Room with a View), vai além da paixão entre antípodas. Mostra como os ingleses sempre foram obcecados pela luta de classes, o que provavelmente dificulta a aceitação de uma relação simétrica entre dois homens que ousam quebrar as barreiras sociais.

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