A novela, vista como um desfile, ou vice-versa

Já pensaram se uma novela fosse exibida como as transmissões de desfiles de carnaval? Seria uma catástrofe. A produção até poderia chegar ao nível de excelência que temos hoje (goste-se ou não, é preciso reconhecer que a qualidade das produções atinge padrões excelentes e as escolas de samba andam cada vez mais caprichosas), mas o fluxo da história seria comprometido pelos comentaristas. "A comissão de frente vem bonita e apresenta o enredo de forma clara", elogiaria Maria Augusta, com o entusiasmo característico, referindo-se ao primeiro capítulo, onde os personagens principais devem ser apresentados. Pena que o espectador, principal destinatário do programa, não entenderia patavinas. As imagens estariam tão entrecortadas, que seria preciso correr aos jornais para ver as fotos e entender o desfile. "Que maravilha, daqui a gente tem uma idéia da beleza que é essa escola tomando conta da avenida", elogiaria a deslumbrada Renata Ceribelli, quando a novela estivesse entre os capítulos 30 e 40, audiência conquistada, personagens definidos e tramas amarradinhas. Pena que a imagem seria um tanto desfocada, não passando de pontinhos coloridos e emplumados e com alguma vinheta berrante tomando conta da tela. Complicado seria quando Dudu Nobre explicasse os compassos da trilha sonora, contando pontos como um marca-passo. "A bateria tá acelerada", reclamaria o sambista, sem levar em conta a emoção do espectador. Esse, coitado, nem conseguiria ouvir a letra do samba. Por falar nisso, tem cada letrinha infame, hein? Tanto no Sambódromo, quanto em novelas, a coerência da língua portuguesa vai pro beleléu em rede nacional. A novela-desfile atingiria o auge do nonsense quando pedissem a opinião de Leci Brandão sobre uma cena de multidão - um casamento, uma invasão de favela, tanto faz. "Olha a tia Cotinha! A prima Teresa! Aquele ali, fingindo que é bandido, é o Ximbica, grande partideiro!" Sem chance. Felizmente para quem escreve, dirige, atua e assiste novela, as tramas não passam pelos comentaristas de carnaval. Mesmo tênue, há uma lógica conduzindo mocinhas e bandidos - assim como há coerência nos desfiles que os carnavalescos apresentam. A TV ainda não achou o jeito certo de mostrar isso.

Mário Viana, O Estado de S.Paulo

10 Fevereiro 2008 | 00h52

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.