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A nova rotina de David Letterman (e sua barba)

'Não sinto falta da TV de fim de noite. E me constrange um pouco o fato de que, durante 33 anos, ela foi o centro da minha vida'

Dave Itzkoff, The New York Times

01 de novembro de 2016 | 11h13

Por que David Letterman está de barba? Ou, mais precisamente: por que Letterman, depois de deixar o "Late Show" da CBS, 33 anos de carreira na TV de fim de noite e desaparecer da vida pública, passou o último ano e meio cultivando uma quantidade prodigiosa de pelos faciais que, dependendo da boa vontade de quem vê, faz o ex-apresentador de 69 anos parecer um Papai Noel magrinho ou um recém-fugido do asilo?

Será que deixou crescer o imponente acessório para manter o mundo afastado enquanto se recolhia à aposentadoria? Foi a forma que encontrou de dizer que não era mais o homem que passou seis mil noites lendo 4.600 listas dos Dez Mais e entrevistando vinte mil convidados, será que vocês poderiam deixá-lo em paz, por favor?

Na verdade, o próprio explicou, há algumas semanas: "Fiquei cheio de fazer a barba todo dia, mas aí virou outra coisa que eu ainda nem sei bem o que é".

Com o jeito de falar meio seco típico do Meio-Oeste, mais um toque novo e inédito de melancolia, ele completa: "A barba é um bom lembrete de que aquela era uma vida diferente. Espero que eu ou encontre outra coisa, ou outra coisa me seja oferecida."

"Minha família já desistiu de falar alguma coisa. Meu filho acha assustadora."

Foi em uma manhã de outubro que Letterman fez essas reflexões, a mais de cem andares acima do nível da rua, enquanto contemplava a vista panorâmica do Baixo Manhattan no observatório do 1 World Trade Center - uma perspectiva um tanto peculiar, de onde pôde fazer os comentários sarcásticos, tão típicos seus, sobre a cidade agitada a seus pés. ("Tem um filme do Bruce Willis bem ali", comentou, indicando um prédio comercial em Nova Jersey.)

Enquanto ainda estava no ar, Letterman projetava uma combinação fascinante de ambição e insegurança, e a tensão entre os dois impulsos fez surgir uma sensibilidade cômica inteligente e cáustica que influenciou toda uma geração de uma forma que nenhum apresentador atual tem a capacidade de fazer. Ele talvez não tenha uma mesa ou um microfone no momento, mas ainda tem a motivação e o sarcasmo (sem falar na ambivalência), embora não saiba muito bem o que vai fazer com eles.

O observatório, que estava visitando pela primeira vez, foi um lugar onde pensar no que mais pode fazer da vida agora que não tem a obrigação diária de subir ao palco, contar piadas e falar com gente famosa.

Pode apreciar as atividades cotidianas com que raramente se envolveu desde os anos 80, como fazer compras na CVS e Walgreens ou pegar o trem para o Grand Central Terminal. Ou pode tirar onze dias, como já fez antes, para viajar para a Índia e fazer uma reportagem sobre mudança climática para a temporada inaugural de Years of Living Dangerously, uma série de documentários que o canal National Geographic exibe em trinta de outubro.

Porém, ainda com anos de vitalidade, desde que se despediu do Late Show, em maio de 2015, está tentando decidir o que fazer daqui em diante.

Com um visual discreto e comum - camiseta de manga comprida, calça e tênis - sem o público para provocar e sem banda para enfatizar seus comentários sucintos, Letterman disse que um caminho certamente ele não vai percorrer de novo.

"Não sinto falta da TV de fim de noite. E me constrange um pouco o fato de que, durante 33 anos, ela foi o centro da minha vida."

Por todo o tempo que passou tentando ser o sucessor de Johnny Carson no The Tonight Show da NBC, travando uma disputa ferrenha com Jay Leno, foi o antigo amigo que abocanhou a chance - e o superou na audiência, ainda por cima. Ao comentar a experiência, Letterman revela: "Investi uma energia inacreditável ali, que poderia ser mais bem aplicada para outra coisa. Hoje parece um lance, tipo, 'sério mesmo que foi isso que você fez?'."

E admite: "Eu sei que sucumbi à pressão da rivalidade que foi construída entre mim e o Jay."

 

Letterman continua morando em Manhattan e no Condado de Westchester. Para ele, o fim do Late Show foi o golpe em uma constituição interna à base de conflito e uma rotina diária implacável que aperfeiçoou a tal ponto que confessa ter tido um período, logo após o encerramento do programa, de desassossego. "Ficava zanzando pela casa pensando: 'Ah, não posso ficar assim, tenho que sair, tenho que fazer alguma coisa'."

Aí, aos pouquinhos, foi se reacostumando com o que se pode chamar de "vida normal" e saiu para fuçar na Target no meio da tarde de um dia de semana. Também descobriu as vantagens de baixar a guarda e fazer contato com outros civis. "O pessoal é muito mais gente fina comigo hoje do que quando eu fazia o programa." Ri, autodepreciativo, e conclui: "Acho que sentem uma peninha. 'Vamos ser gentil com esse velhinho'."

Seu breve retorno à TV - para um único episódio de uma série de não ficção sobre o aquecimento global - é resultado de um processo que começou quando ainda apresentava o Late Show.

Os criadores de Years of Living Dangerously, que usam correspondentes como Matt Damon e America Ferrera para explorar questões ambientais ao redor do mundo, tinham notado que Letterman vinha recebendo convidados como James E. Hansen, o famoso cientista climático - e quando os produtores perguntaram se ele queria participar, descobriram que era um apaixonado pelo tema e estava ansioso para se envolver no projeto.

"Dave fez questão de fazer a lição de casa. A maioria das pessoas como ele nem se dá ao trabalho de vir se encontrar com a gente; prefere ler um resumão e pronto. Ele não só quis saber o que ia fazer como o que eu queria fazer. Fez um monte de perguntas, quis saber tudo", conta Joel Bach, um dos criadores e produtor executivo do programa.

Letterman, que com a mulher, Regina, tem um filho de doze anos, diz que passa bastante tempo pensando em que tipo de planeta as crianças de hoje vão herdar.

Embora tenha tentado tomar medidas ecologicamente responsáveis como comprar um carro elétrico e instalar painéis solares na propriedade de pouco mais de mil hectares em Rocky Mountain Front, em Montana, Letterman se questiona: "Será que faz alguma diferença? Será que é uma boa ou sou só um idiota dirigindo um carro elétrico?".

Entretanto, ao emprestar sua fama e curiosidade a Years of Living Dangerously, Letterman sentiu que poderia ajudar a educar o público a respeito de um tópico cujas consequências são reais e duradouras.

O que mais o impressionou na viagem, mesmo tantos meses depois, foi o fato de a Índia ser completamente diferente de toda e qualquer experiência que teve nos EUA, além daquilo que considera uma natureza fundamentalmente esperançosa do povo indiano.

"Você fala da energia de Nova York... a Índia faz esta cidade parecer a hora do cochilo! Só o primeiro dia foi meio deprimente porque começa a sentir um cheiro de queimado que nunca se dissipa."

"Aí, de repente, um dia é só euforia. O que nunca parece diminuir é o otimismo do povo. E o fato de haver 1,2 bilhão de pessoas assim é uma vantagem. Ali não tem essa de 'Ai, meu Deus, o que vamos fazer agora?'."

Agora que Letterman sentiu o gostinho da programação de TV com o objetivo de falar às massas sobre assuntos sérios, reconhece que é algo que gostaria de repetir, embora não saiba ainda exatamente em que formato.

"Eu vivo dizendo: 'Nossa, ainda acho que posso fazer alguma coisa'. Quero aquela epifania que tantos outros já tiveram, a mesma que eu tive quando, aos 17 anos, soube que queria fazer um programa de TV. Sabia exatamente o que queria. Invejo muito quem tem essa percepção em termos humanitários."

 

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