Robson Fernandes/Estadão
Robson Fernandes/Estadão

A morte de Goulart de Andrade, o repórter que desceu ao submundo

Jornalista, que morreu hoje, aos 83, de uma doença pulmonar, foi pioneiro ao se colocar no lugar de seres marginalizados para mostrar a realidade das ruas

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

23 de agosto de 2016 | 19h59

Quando alguém se refere ao jornalista Goulart de Andrade, que morreu ontem, aos 83 anos, no Hospital Sancta Maggiore, em São Paulo, automaticamente associa sua figura ao bordão “Vem Comigo”, criado, segundo ele, durante uma reportagem numa discoteca na zona leste da cidade. Na mesma noite ele também introduziu o plano-sequência na televisão (em tributo a Orson Welles e Hitchcock, dizia), sempre ajudado na tarefa por seu cinegrafista Capeta. No entanto, Goulart de Andrade, nascido Luís Felipe, no Rio, em 1933, tem um histórico na TV, no cinema e no teatro que muitos desconhecem, de diretor de um programa de Bibi Ferreira a colaborador do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, passando por ator – do Hair original e, recentemente, da série Os Experientes, na Globo.

Goulart de Andrade não morreu hoje, mas outras vezes antes dessa, vítima de uma doença pulmonar obstrutiva que levou ao colapso seu sistema cardiorrespiratório. Há anos, durante uma entrevista com o cardiologista Euryclides de Jesus Zerbini (1912-1993), pioneiro no transplante de coração no Brasil, sofreu um enfarte e passou por uma cirurgia de emergência, que Capeta filmou e levou ao ar. Foi sua primeira morte, ainda que por dois minutos. Ao acordar, disse que não viu nada “do outro lado”.

Na ocasião, ainda conseguiu falar “vem comigo”. Ontem, preferiu ir sozinho ao encontro de Capeta, seu cinegrafista, que morreu, segundo Goulart, de “801” – ou seja, de um desastre que resultou da soma de uma moto 750 cilindradas mais uma garrafa de 51. A exemplo do amigo Capeta, Goulart gostava de uma branquinha. E era também workaholic. Deixou de herança 15 mil horas de imagens documentais arquivadas na Cinemateca Brasileira, lugar onde está na companhia de antigos colaboradores, como o cineasta Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988), seu sócio numa nanica produtora carioca que filmou a construção de Brasília.

Sua vocação de documentarista foi logo notada por Fernando Barbosa Lima, que o convidou a integrar a equipe do programa Preto no Branco, da extinta TV Tupi. O cinema, porém, não saía de sua cabeça. Assim, sugeriu ao produtor Carlos Niemeyer que ousasse mais dentro do campo – e foi assim que as imagens dos jogos de futebol do Canal 100 viraram referência para os cinegrafistas de esporte.

Goulart de Andrade, que criou um dos programas de maior duração na televisão brasileira (Comando da Madrugada, no ar por 32 anos) e nela revelou o submundo das ruas, mudou o padrão da TV aberta ao assumir o difícil papel do “outro” e demonstrar ao vivo a teoria do filósofo René Girard, que acreditava ser nossa natureza mimética a responsável pela violência coletiva contra o indivíduo. Goulart colocou-se no lugar de travestis, de mendigos e presidiários para mostrar como a sociedade se vinga daqueles que ousam não “imitar” os outros, transformando-os em bodes expiatórios.

“Você tem de tratar uma prostituta da mesma forma que trata a rainha da Inglaterra”, declarou numa entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, respondendo uma pergunta sobre os limites de um jornalista que assume a persona de seres marginalizados. E ele não tinha limites, chegando a se prostituir nas ruas como travesti – não conseguiu nenhum cliente por ser um tribufu, revelou – e ser levado para a delegacia com as colegas de trabalho, testemunhando uma delas cortar os braços com cacos de uma garrafa de água de colônia fedorenta.

Goulart de Andrade, que até recentemente orientava estudantes de jornalismo da Casper Líbero, tinha um projeto de novo programa: O Brasileiro. Sairia pelas ruas em busca de personagens como o carroceiro pintor e sua companheira, uma mulher de classe média, moradora num apartamento de dois quartos, em Pinheiros, que abandonou tudo para viver na rua. Sensacionalista ou não, o fato é que foi, acima de tudo, um repórter.

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