A moda agora é usar elencos menores

Pode até ser coincidência, mas não deixa de ser curioso. Beleza Pura e A Favorita, as duas novelas mais interessantes no ar, atualmente, têm poucos personagens. Com alguma coisa entre 35 e 40 seres, Andréa Maltarolli e João Emanuel Carneiro conseguem tocar suas histórias de maneira envolvente. Se a tendência vai vingar, ninguém sabe. Afinal, Manoel Carlos e Glória Perez adoram escrever tramas com gente saindo pelo ladrão. Mas, vamos e venhamos: uma lista com mais de 100 pessoas não é elenco, é comunidade no Orkut.Tramas com poucos personagens não são novidade na América Latina. As epopéias mexicanas e colombianas reúnem um elenco de 40 almas, no máximo, e dão conta do recado. Mas, no Brasil, as novelas ganharam características muito específicas, graças a profissionais como Janete Clair, Gilberto Braga e Cassiano Gabus Mendes, entre muitos outros. De braços dados com ótimos diretores e elencos especiais, esses autores jogaram a realidade nas tramas. Novela brasileira usa todos os chavões possíveis, mas acrescenta temas contemporâneos, como violência urbana, opções sexuais e tráfico de drogas. Para contar tantas histórias, foi crescendo o número de personagens em cena.Pode-se acusar nossas novelas de tentar impor ao resto do Brasil um padrão moral e comportamental típicos do eixo São Paulo-Rio, mas uma coisa é certa: algumas tramas levam aos lares discussões impensáveis sem o poder de penetração da TV. Novela, aqui, é assunto sério. Tanto que merece espaço nas primeiras páginas dos maiores jornais do País. A dose homeopática de realidade tornou algumas tramas até invendáveis no exterior, de tão ousadas.Mas ousadia e megalomania são sinônimos, conforme a leitura que se faça. Deixar de contar história para narrar epopéia pode ser lindo, mas não é fácil. Com a pressão da audiência, dos anunciantes e do merchandising - sem falar nos pitis de astros e estrelas -, o autor pilota um jumbo desgovernado. Alguns acertam o rumo, mas outros patinam feio e começam a acrescentar personagens à história, aumentando apenas as despesas com cada capítulo. Em Páginas da Vida, houve o caso de um ator que apareceu nos créditos desde o primeiro capítulo -mas o público só viu seu rosto no último dia, numa participação quase muda. Não há ego que resista.e-mail: mvianinha@hotmail.com

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.