Márcio Nunes/Divulgação
Márcio Nunes/Divulgação

A melhor idade de Passione

Não tem tempo ruim para esse núcleo de serelepes bem-humorados que se diverte diante e atrás das câmeras

Patrícia Villalba / RIO, O Estado de S. Paulo

23 de setembro de 2010 | 08h37

Se a televisão é um espelho da sociedade, quando a gente assiste a Passione, só pode mesmo achar que a terceira idade anda com tudo. Além de ter uma protagonista em torno dos 70 anos - Bete Gouveia, interpretada por Fernanda Montenegro, 80 anos na vida real - a novela das 9 da Globo tem um núcleo sensivelmente agitado, no qual os personagens, dos 70 aos 90 anos, estão prestes a montar um quadrado amoroso cheio de pequenos pecados, mentiras escondidas debaixo do tapete durante décadas e reviravoltas folhetinescas.

 

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Na TV há pelo menos meio século, os atores Cleyde Yáconis, Leonardo Villar, Elias Gleiser e Flávio Migliaccio sabem que em novela tudo pode acontecer. E nas de Silvio de Abreu, mais. Deve ser por isso que Cleyde não notou que era galhofa a "fofoca" contada a ela por Migliaccio, em suposta primeira mão, num intervalo das gravações, acompanhadas pelo Estado na semana passada. "Não está sabendo? Você vai se apaixonar pelo Benedetto", disse ele, em tom de conspiração e se referindo à personagem dela, Brígida, e ao personagem de Emiliano Queiroz, que vive na Toscana cenográfica do Projac. "Verdade? Como você ficou sabendo disso?", perguntou Cleyde, pensativa. "Me falaram...", despistou ele, com um risinho maroto no canto da boca.

 

Com 76 anos, Migliaccio, apenas alguns meses mais novo que Gleiser, é o caçula do grupo. Naquela sequência, que vai ao ar no capítulo de hoje, Fortunato, seu personagem, faz uma visita constrangedora e divertidíssima à mansão dos Gouveia. Calcado nos cômicos clássicos italianos e também muito na graça natural que o ator faz, sem esforço, Fortunato é o pobretão que circula na alta roda.

 

Na trama, Fortunato é amigo de juventude de Antero, a quem ajuda a esconder o passado de imigrante italiano que a mulher, grã-fina do Jardim América, despreza. No passado de Antero, ficaram as raízes italianas e o amor juvenil por Gemma (Aracy Balabanian), que o abandonou no altar. Nos últimos capítulos, os dois se reencontraram. Esse é um dos segredos, mas os velhinhos sacudidos têm muitos outros. Um deles, tem a ver com as visitas que Brígida faz ao quarto do motorista, Diógenes (Elias Gleiser). No texto, o autor solta frases que induzem o público a pensar que são segredos de alcova. Será? Mas nessa altura da vida? Brígida é serelepe o suficiente para isso, sem dúvida.

 

À mesa dos Gouveia, o queixo da aprumada Brígida cai quando ela vê o sujeito de paletó, tênis e cabelos despenteados (a marca de Migliaccio) entornar cerveja na taça e limpar o prato com miolo de pão. "O Antero foi bom de copo, viu? Armamos cada chumbrega, hein, Antero!", entrega ele, para desespero do amigo.

 

Nos bastidores, o pessoal da técnica mal consegue trabalhar, de tanto rir. E dá para perceber que todos ali, do diretor Carlos Araújo ao contrarregra que enche as garrafas de cerveja fictícia com cerveja sem álcool para Migliaccio parecer bebum em cena, têm consciência do quanto é especial a reunião daqueles quatro atores. "É um tipo de cena que nem cheguei a sonhar que dirigiria um dia", admite Araújo, ao fim da gravação. "Aqui, o preocupação da direção é meramente técnica. A interpretação e a condução da cena é com eles."

 

Quem frequenta gravações sabe que não há quase nenhum espaço para improvisações na TV de hoje - e os autores não gostam que os atores alterem seus textos, o chamado ‘caco’. Mas Silvio de Abreu não se incomoda com os cacos da turma de Migliaccio - quem pode, pode. Antes da saída triunfal da cena, ele muda a posição de uma cadeira. "E se eu tropeçar assim, na saída?", pergunta ele ao diretor, já tropeçando para exemplificar. "Ótimo, vamos nessa", responde Araújo, às gargalhadas.

 

Soltinha. Na outra sala do cenário, Cleyde diz à camareira que vai dispensar a bengala cenográfica que seria incorporada ao figurino de Brígida no capítulo. A intenção era dar mais estabilidade ao andar da atriz, que sofreu uma queda em julho, passou por cirurgia no fêmur e ficou seis dias internada. Em menos de 15 dias, demonstrando uma vitalidade surpreendente para uma senhora de 86 anos, ela voltou ao set, ainda de cadeira de rodas.

 

Agora, não precisa mais dela. Nem da bengala. "Não vou usar, não... Gosto de me sentir mais solta", diz, chacoalhando os braços. "Amanhã, vou ao meu fisioterapeuta, ele me dá uns apertões e a gente vê se vai precisar mesmo de bengala", observa. "Você gosta, né, Cleyde", malicia Migliaccio. Risada geral, mais uma vez.

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