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A malvada premiada

Jane Lynch coleciona troféus por sua interpretação de Sue Sylvester, em 'Glee'

Alline Dauroiz / LOS ANGELES *,

08 de fevereiro de 2011 | 23h00

No último ano, a atriz Jane Lynch teve sua vida transformada. Um mês e meio antes de completar 50 anos, a atriz, lésbica assumida, casou-se em maio com a psicóloga Lara Embry, de 41, e - justamente ela que nunca foi chegada em crianças -, tornou-se madrasta da filha de Lara, além de compartilhar de uma batalha judicial para ganhar a guarda de outra filha da parceira. Na vida profissional, viu sua personagem, a malvada Sue Sylvester de Glee, explodir no mundo inteiro, foi indicada a importantes prêmios da TV americana e, após 22 anos de carreira, recebeu seu primeiro Emmy. Foi 2011 começar que a maré de sorte (ou reconhecimento?) continuou: em janeiro, levou um Globo de Ouro por sua performance na série, que estreia hoje a 2ª temporada no Brasil, na Fox, às 22 horas.

 

Em entrevista ao Estado, com a presença da imprensa internacional, a atriz mede sua popularidade e confessa, com humor, que tem muito a ver com a sarcástica Sue Sylvester.

 

Ano passado foi muito especial para você por causa do seu casamento, da maternidade, de Glee, do Emmy, (em dezembro, data desta entrevista, Jane ainda não havia ganhado o Globo de Ouro). Você poderia fazer um balanço de tudo isso?

Com relação ao Emmy, com certeza foi um momento marcante. Ainda não acredito que realmente aconteceu. E na vida pessoal, sabe, não sou a pessoa mais ocupada em Glee - os meninos trabalham três vezes mais que eu - mas estou muito agora sou muito ocupada com a família. E eu não tenho 50 conhecidos com quem vou almoçar. É engraçado. Enquanto o seu mundo se torna maior em termos de trabalho, sua vida pessoal tem de ficar menor, pra que você dê conta de tudo.

 

E você completou 50 anos neste ano. Encara bem o fato de envelhecer?

Levo bem sim, porque não tem outro jeito, ou estaria morta (risos). Mas acho que o fato de ter me casado, de ter ganhado uma filha ao completar 50, deixa tudo muito mais legal. Lembro quando tinha 39, estava sentada em uma secadora de uma lavanderia esperando minha roupa secar e me toquei: "Não posso ter 40 e lavar minha roupa em uma lavanderia." Aí, mudei: comprei uma casa e fiz acontecer. Sempre quis ter uma parceira, atravessar a vida com alguém. E nunca tinha tido isso até conhecer Lara. E pensar que há apenas dois anos, eu tinha uma vida completamente diferente. Não sabia que poderia ter tudo isso.

 

Como é se tornar mãe a essa altura da vida?

Eu não era uma pessoa muito chegada em criança. Amava muito mais os cachorros e gatos, sou apaixonada por eles. E essa coisa de criança tem sido, assim... (sorrindo) fofo. Por isso, tinha de ser uma criança muito especial. Estou me encontrando nisso tudo, mas é maravilhoso.

 

No episódio da Madonna (Power of Madonna, da primeira temporada), você disse que ela é a mulher mais poderosa do mundo. Mas agora você é que está muito...

Sim, eu sou uma pessoa muito poderosa (risos).

 

Como você definiria o poder de uma mulher nesse negócio?

Bem, raramente briguei o suficiente por mim para dizer que sou uma mulher poderosa nesse negócio. Uma das melhores coisas que estão acontecendo é que, embora homens é que criem a maioria dos papéis na TV, agora estamos vendo gente como Sally Field (em Brother & Sisters) e Glenn Close (Damages), que estão fazendo os melhores trabalhos da sua vida. Antes era só a Meryl Streep. Hollywood é um negócio lucrativo e acho que eles estão começando a ver que existe dinheiro a ser feito com os dilemas de alguém acima dos 50. Sou a sortuda da vez nessa tendência.

 

 

Você já fez muitos bons trabalhos no passado, mas só com a Sue Sylvester seu nome explodiu internacionalmente. Não te parece um longo tempo para chegar a esse nível de sucesso?

Sabe de uma coisa? Não. Não acho que muitos atores chegam a isso. Durante todo o caminho, raramente parei para pensar onde estou. Não tive aquela coisa de: 'tenho que ser a grande estrela que sou'. Amo o que faço. E se tudo acabasse amanhã, juro por Deus que ainda ia fazer isso. Juro que iria encontrar um pequeno teatro em Palmdale (município perto de Los Angeles) e fazer cabaré ou qualquer coisa do tipo.

 

Sue é muito popular, o que é estranho, porque ninguém gostaria de um tipo como ela dando ordens nas escolas. Porque acha que ela tem essa popularidade?

Em geral, as pessoas gostam do que a Sue Sylvester faz. Teve professor que me falou: "Deus, como gostaria de poder dizer o que você diz." (risos) Fico encabulada, porque ela é terrível. Tipo, qual é o seu ponto fraco? Pois é lá que eu vou cutucar. Acho que a gente gosta disso, porque não é uma coisa legal de se fazer. Mas às vezes você gostaria de poder.

 

Nem sempre séries musicais deram certo na TV. Qual então o segredo de Glee?

Realmente pensei sobre isso. A série funciona porque segue a receita dos musicais de teatro, que leva o personagem a um ponto de emoção que ele não tem outra escolha se não se expressar com uma canção. Ninguém canta sem razão. E essa é a forma mais vulnerável e crua de expressão, em termos de performance.

 

Quando você leu o roteiro, cantar e dançar fazia parte das funções da Sue?

Não. Mas percebi que ninguém entra na série só por ser um bom ator, mas porque sabe cantar e dançar. Na verdade, eu não posso dançar, mas eu gosto de fantasiar que sou cantora. Os garotos que interpretam os valentões, achei que os contrataram só porque eles parecem ser perigosos e jovens o suficiente para estar no Ensino Médio. Mas ambos cantam e dançam.

 

Você tem algo em comum com Sue Sylvester?

Tem essa atitude de guerreira, de ser mais durona do que realmente sou. Tenho esse lado agressivo. E não preciso cavar tão fundo para achar a Sue. Ela é parte exagerada de mim parte do (roteirista) Ian Brennan, que a escreveu. É essa parte da gente que é meio: "Você não vai tirar o melhor de mim e vou fazer você se sentir tão pequeno como eu me sinto bem lá no fundo." (risos)

 

E a personagem foi escrita assim, ou você deu seu toque pessoal?

Foi escrita assim. Na descrição dela estava: "Sue Sylvester pode ou não ter posado para Penthouse (revista americana de nudez) e pode ou não tomar estrogênio de cavalo." Isso me deu o que seria a essência de sua crueldade, ela faz o que for preciso para ganhar. E Ian disse que se inspirou em (no criador da série) Ryan Murphy para criá-la, quando ele começa a se achar, e seu nariz começa a empinar. E sempre que Ryan me dirige, age como tal para que eu veja como fazer. E ele também vê a natureza do ator e coloca no personagem. Amo isso. Por isso, claro, ela tem meu toque.

 

A roupa ajuda a compor a personagem? Quantos agasalhos ela deve ter?

Uns 20 e eles estão sempre me fazendo mais. Eles são confeccionados especialmente para mim. E Lou (Lou Eyrich, a figurinista da série ) é maravilhosa. Sempre me pergunta: "O que acha dessa cor com essas listras?"E eu digo sim ou não. Temos dois estilos: o com gola alta e o de gola redonda com zíper. Amo vesti-los. Eles são o melhor guarda-roupa no mundo. Basicamente, trabalho de pijama. E claro que eles são uma armadura. Ela se imagina uma guerreira, um soldado. Foi ideia do Ryan. E mesmo com toda a variedade de cores, ela quer aquele uniforme diário que ela sabe que funciona e que as pessoas temem.

 

Você se identifica com alguém do elenco?

Com a Tina (Jenna Ushkowitz), porque ela fica lá no fundo, não faz alarde e as pessoas não sabem quanto ela é talentosa até que ela canta e você fica: "Nossa! Olha como essa garota é boa!". E nessa temporada ela tem momentos muito bons, em que ela realmente brilha.

 

Como foi sua experiência na escola?

Aqui nos EUA, Ensino Médio é uma versão um pouco menos exagerada do que fazemos em Glee. E eu instintivamente me mantive ligada, segura. Eu tinha um grupo de amigas. Algumas cheerleaders, outras, nerds da matemática. Mas todas nós meio que nos encaixávamos. Eu fazia a política da boa vizinhança, não surpreendi muito as pessoas. Mas tenho certeza que me agarrei no fato de ser engraçada pra poder atravessar esse universo da escola, que me fez não apenas especial, mas me protegeu. Porque você pode andar com uma porção de gente diferente se você é engraçado.

 

Como você tem visto toda essa questão do bullying levantada pela série?

Eu sou a favor do bullying, acho que constrói o caráter (risos). Não, existe um monte de maus pais lá fora ensinando seus filhos a ser agressivos, a detonar quem é diferente. Isso é terrível. E uma das coisas que o Ryan (Murphy) disse sobre o Kurt foi que ele nunca seria uma vítima. O que amo - e a maneira como o Chris Colfer o interpreta - é que ele chega pro valentão e pergunta: "Qual é o seu problema? Você não pode machucar o gay que existe em mim mais do que eu posso arrancar a mediocridade que existe em você." Acho muito legal a maneira que ele está enfrentando tudo.

 

E você sabe explicar por que Sue é tão cruel?

Quando comecei a interpretá-la, sabia que tinha de haver algum traço de vulnerabilidade, para que ela fosse tão ruim. Imaginei que ela foi difamada na escola e agora está se vingando. Mas eles me deram falas incríveis que explicam como ela se tornou o que é. Talvez ela tenha sofrido bullying. E a mãe dela, uma caçadora de nazistas interpretada por Carol Burnett, aparece nesta temporada, e vemos que ela nunca esteve em casa e abandonou Sue e a irmã Jean (Robin Trocki) com Síndrome de Down. Então, ela é construída nessa armadura, mas tem uma ternura muito, muito profunda - num momento destrói as pessoas e no outro se solidariza. Ela é muito confusa (risos). Mas é humana.

 

 

*A repórter viajou a convite da Fox

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