A maldição da grana pelo mestre francês

Chega às lojas o último filme de Robert Bresson, o diretor que mudou a linguagem do cinema

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

09 Agosto 2008 | 23h19

Último filme do cineasta francês Robert Bresson, O Dinheiro deu a seu autor, no ano da sua morte, 1983, o prêmio de melhor diretor do Festival de Cannes. Justo reconhecimento. Bresson encerrou a carreira com uma obra-prima ligeiramente inspirada num conto de Tolstói. Como no original, o dilema de Bresson é moral: o dinheiro é o meio pelo qual ele prova, segundo observou Tim Cawkwell, como a corrupção humana é mais o resultado do livre arbítrio do que da posse do mesmo. E, desde o prólogo, deixa claro que não está julgando categorias sociais, mas seres perversos, que empurram seus semelhantes para a tragédia, agindo conforme o livre arbítrio. A parábola de O Dinheiro, lançado pela Versátill sob licença da MK2 francesa - há outra versão, pirata, no mercado brasileiro - é simples: por causa do gesto voluntarioso de dois garotos de classe média, um pobre entregador de gás é jogado na cadeia e vê sua vida transformada num inferno. A dupla de jovens entra numa loja de fotos e compra um porta-retrato com uma nota de 500 francos falsificada.   Repreendida pelo gerente por ter recebido dinheiro falso mais de uma vez, ela repassa a nota para um entregador de gás que, preso, recebe, inconsolável, a notícia da morte da filha por falta de assistência médica. Cresce nele um sentimento de vingança contra a sociedade, que vai eclodir de forma violenta ao sair da prisão. Bresson é um realizador parcimonioso, tanto no uso da música - há apenas uma concessão, e ainda assim a Bach - como na sintaxe visual. Mas a experiência de ver um filme seu marca o espectador para o resto da vida.

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