MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO
MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO

'A gente conseguiu transformar a família em programa de TV', diz Márcio Garcia

Ator, apresentador e cineasta celebra seu novo programa na Globo, 'Tamanho Família'

Entrevista com

Márcio Garcia

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

28 de junho de 2016 | 05h00

Apresentador, ator, diretor e escritor, Márcio Garcia, 46 anos bem talhados em atividades físicas, bem poderia consumir seu tempo entre as atividades paternas e o futevôlei na praia do Pepê, só à espera de mais um telefonema da Globo para a próxima produção da casa. Não é o caso. Às voltas com a produção e direção de dois novos filmes nos cinemas (leia abaixo), ele vem, há um ano, elaborando um programa para as tardes de domingo da Globo, em que retoma o papel de apresentador: Tamanho Família estreia dia 10, logo após o Esporte Espetacular, para o almoço de domingo.
A proposta prevê uma competição entre duas celebridades e suas famílias – cada um leva três membros – com jogos personalizados capazes de mexer com a memória afetiva dos participantes. A Família Lima faz as vezes de banda, engatando um repertório para a ocasião. Por telefone, ele falou ao Estado sobre a nova proposta, inspirada pelos quatro filhos – Pedro, quase 13 anos, Nina, 11, Felipe, 7, e João, 2. Rápido no raciocínio, Márcio engata uma história na outra, celebrando méritos, sem omitir fracassos.
Desde que você voltou da Record, em 2008, fala-se em um novo programa para você na Globo. Como nasceu essa ideia?
Começando lá de trás, então: eu nunca levei projeto de programa para a Globo, já me trouxeram. A Globo já havia me apresentado algumas ideias como base e eu achei que eram um pouco lugar-comum, seria mais um programa de variedades em que acontece tudo, e a casa tem dois programas de variedades de fim de semana bem consolidados – o Fausto e o Caldeirão. Então, não houve essa mútua vontade de execução de nada, eu enveredei um pouco pelo lado do cinema também, tive proposta para fazer filme, consegui filmar, e, quando eu já estava um pouco relaxado em relação a estar diante das câmeras – a questão da produção e da direção me mordeu mesmo –, tomei gosto. Atuar, nem tanto, mas sempre me diverti muito apresentando. E tenho quatro filhos, estou sempre preocupado com o que meus filhos assistem, só tem uma TV na casa, na verdade um projetor comunitário, nenhum deles tem TV no quarto.
Isso não gera conflito pela diferença de idade entre eles?
Tem conflito, não é fácil. O de 7, coitado, acaba vendo menos TV. E hoje tem o computador no quarto, que acaba virando uma tela, tem YouTube, tenho lá todos os filtros de controle. Sou um cara que sou pai, não pago só conta, não – faço parte do dia a dia, boto para dormir, dou banho, boto para fazer dever, troco fralda e sempre me preocupei com o que os meus filhos pudessem assistir. Minha ideia era juntar isso com essa saudade de apresentar um programa, mas nunca houve desacordo (com a Globo), promessas não cumpridas. Voltei da Record com a condição de fazer Caminho das Índias, era o combinado. Depois, iríamos ver se pintava um programa.
No ano passado, a Record o sondou para apresentar A Fazenda. Isso não teria motivado a Globo a retomar a ideia de lhe dar um programa?
Na verdade, eu estava meio que pensando em sair, ir para o backstage, produzir para a Globosat. Tenho aqui uma inteligência para geração de conteúdo, uma produtora, e sondei o interesse da Globosat para uns cinco ou seis projetos meus. Só que não seria muito ético oferecer conteúdo sendo contratado pela Globo – eu ia ficar sem contrato para fazer isso, senti que tinha condições de fazer muita coisa legal. Eu ia, provavelmente, entrar num desses programas de canal a cabo, um projeto que chamava Playcine, em que eu falaria sobre cinema, com cenas de making of, de bastidores. Mas, para isso acontecer, eu não poderia ter renovado contrato. Então, hoje, isso de fato não existe. Nesse ínterim, a Record me sondou para A Fazenda. Pode ser que tenha sido mais um gatilho, até para mim, porque eu estava focado em outra coisa. Aí, pintou um programa que era a ideia base do Tamanho Família, que ainda não era o Tamanho Família, achei que era uma coisa que eu deixaria meus filhos assistirem e que todos gostariam de ver juntos. E nós começamos a desenvolver o programa com a conotação de fazer um programa para a família. 
O formato é todo original?
É totalmente original. Por isso é que a gente demorou aí um ano testando as provas. A sensação, quando gravo, é que a gente realmente conseguiu transformar a família em um programa de TV. Tem ali a galera de uma família – na qual, por acaso, um é famoso –, com três parentes, e do outro lado, no outro sofá, mais um famoso com três parentes, fazendo o que a gente faz em casa: conversando, contando história, lembrando de coisa que aconteceu, brincando, jogando... Não tem briga, mas tem aquele ‘olhou ou não olhou?’. Qualquer coisa que você faça com seus filhos, quebra-cabeça, dominó, baralho, jogo de tabuleiro, sempre tem isso. E no fim tem uma grande emoção, uma homenagem aos convidados. Cada caso é um caso, um musical, uma lembrança. Dos seis que participaram até agora, os seis choraram, se emocionaram. É um Gente Inocente para gente grande.
Você poderia levar uma vida tranquila, só à espera do próximo convite para aparecer na TV. Em que momento foi atraído pela complexidade de produzir e dirigir?
Acho que foi, sabe quando? Quando eu estava fazendo Caminho das Índias, porque entrei ali gravando muito, enfim, protagonista da novela. Eu até detectei, ali no capítulo 20, uma coisa estranha, porque o Bahuan não estava dando liga com a menina (Maya, Juliana Paes). Fazendo aqui a brincadeira, ele andando com o pijama, arrastando corrente pra cima e pra baixo, vi que não ia funcionar. Na ideia inicial, o Raj (Rodrigo Lombardi) era o cara que faria a corte a Maya, mas, como o Bahuan já vinha fazendo muita cerimônia, o Raj veio meio que catando pelos cabelos, deu liga, e, como é obra aberta, meu amor, segura no bonde e vai embora. Não estamos aqui por ninguém, não, estamos pela história. Não sou de levar personagem para cama nem advogar por personagem, gravava igual a um camelo. Com isso (o personagem foi perdendo espaço), tive tempo, tempo, tempo, e tinha na minha cabeça uma decupagem que queria fazer, tinha uma ideia de fazer uns takes de ação. Um amigo apareceu com um helicóptero que tinha uma câmera, falei: ‘cara, vamos filmar na Perimetral, um take de perseguição’, a coisa foi tomando corpo e, quando vi, consegui uma grana aqui da Red Bull, começou a vir ator, começou a agregar gente, e falamos: ‘vamos fazer um curta’. Foi aí que tudo começou.
Curta premiado rende versões em longa-metragem
'Predileção', de 2009, primeiro trabalho como diretor de ciunema, se multiplica agora em inglês e português

O que começou quase como brincadeira, como se fosse uma sequência de ação e virou curta-metragem, rendeu uma boa prateleira de troféus a Márcio Garcia em seu trabalho inaugural como diretor de cinema, Predileção. “Com boa vontade, dá até pra imaginar que é Oscar”, brinca, ao citar as estatuetas que enfeitam as prateleiras de sua produtora, a MGP – Márcio Garcia Produções. Agora, Predileção ganhará duas versões em longa-metragem: uma em português, com roteiro que vem consumindo Márcio e Thiago Dottori há mais de um ano, sob a credenciada supervisão de Bráulio Mantovani (Cidade de Deus e Tropa de Elite), e outra em inglês, tendo como coprodutor o premiado Nate Parker, diretor, produtor e roteirista de The Birth of a Nation, aclamado no Sundance Festival e já comprado pela FOX.
“Eu dei uma sorte danada”, diz Márcio, lembrando que o projeto foi parar nas mãos de Parker há quatro anos, antes de suas glórias no Sundance, e ficou engavetado porque ele mesmo foi parar em outros sets. Dirigiu a comédia romântica O Amor Por Acaso e também Angie, com Andy Garcia e Juliette Lewis. “A gente achou que o Parker ia nos mandar passear, mas não só topou fazer o filme, como quis ser produtor.”
Todas as boas conexões de Márcio partem de Predileção – ou Predilection, “in english”, que aliás ganhará outro nome nas versões em longa-metragem.
Assim que o curta se fez notar, Márcio foi abraçado por uma grande agência internacional de talentos internacional, a Paradigme, associou-se a um profissional em Los Angeles, Uri Singer, que está em contato com Parker, e agora faz parte da agência WME. Até Predileção, a MGP, sua produtora, hoje com projetos de conteúdo até para a TV, era mais um espaço para pós-produção, efeitos especiais, com foco em publicidade. Duas sequências impressionantes do curta foram finalizadas lá: o detalhado percurso de um projétil de bala e uma batida de carro feita em slow motion e 3D. 

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