A força e o lirismo de O Padre e a Moça

Longa de estréia do ator Paulo José, filme conta o amor de um religioso por uma garota mineira

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2008 | 23h45

Tudo no filme recende a ruína e incenso. É um monumento do cinema brasileiro, uma crônica vigorosa da vida provinciana em Minas, além de marcar a estréia do diretor Joaquim Pedro de Andrade no formato longa-metragem. O ator Paulo José, em seu primeiro filme, interpreta um padre que chega a uma cidade do interior mineiro para substituir o antecessor, velho, que morreu, apaixonando-se automaticamente por uma moça (Helena Ignez) prometida em casamento. Adaptação livre do poema de Carlos Drummond de Andrade, O Padre e a Moça (Videofilmes) é um dos mais belos filmes produzidos na época do Cinema Novo (é de 1965). Feito com poucos recursos, o filme ganha em invenção o que perde em produção, reduzida a filmagens em locações (São Gonçalo do Rio das Pedras).Dividido entre o voto de castidade e a atração pela moça, o padre propõe que ambos fujam da cidade, mas, arrependido, retorna e sofre com ela a hostilidade dos habitantes do vilarejo. O chiaroscuro da fotografia de Mário Carneiro acentua a dualidade moral que persegue o casal, contrapondo a cor da batina do padre aos sensuais cabelos da moça. Esse contraste ajuda a compor um painel sociológico em que a grandeza da cidade, outrora marcada pela exploração de minas de diamantes, é reduzida a ruínas arquitetônicas do século 18, amalgamando as almas de ferro de seus cidadãos. O filme traz interpretações soberbas de Paulo José e Mário Lago.

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