Tasso Marcelo/AE
Tasso Marcelo/AE

A favela na mira dos holofotes

O Estado acompanhou, na Tavares Bastos, gravações da série, que ganhará 2.ª temporada

Julia Contier, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2009 | 20h40

"Olha o carro!". "Olha o carro e a moto pessoal, vamos abrir espaço!" "Pessoal, atenção que tem criança de colo passando!". É sob a voz forte e ampliada pelo megafone que o técnico de cinema Raimundo Camargo, de 32 anos, prepara a equipe de figurantes de A Lei e o Crime. É mais um dia de gravação na Tavares Bastos, favela no bairro do Catete do Rio, ocupada pela Record desde dezembro de 2005 - quando a emissora iniciou a gravação da novela Vidas Opostas - e pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope), desde 2000.

Mais conhecido como Raimundão, o negro forte é um dos que faz o seriado, dirigido por Alexandre Avancini, acontecer. Sob o sol (ou chuva) do Rio, ele comanda seis pessoas do apoio. "Procuro locação, vejo o carro que está vindo, peço pro pessoal sair". "Ele é o cara", diz o câmera André Amado. E por ser "o cara" da Tavares Bastos, foi convidado a participar das filmagens no Canadá, como ator, do filme O Incrível Hulk. Orgulhoso da carreira internacional, diz que o cinema é o seu lugar. "Assim como eu, muitos daqui se descobriram depois das gravações."

FAMA

A aposentada Norma Azevedo, de 56 anos, que o diga. Graças às gravações, distribui até autógrafo na rua. Mas o cachê também conta. "Aumenta a nossa renda", diz a figurante, entre uma cena e outra. O amigo e companheiro de set, Ademir da Rocha, de 63 anos, revela que chegou a receber R$ 600 em um mês. O papel dele na trama? "Passante - aquele que fica passando de um lado pro outro", define. Ele também veste a camisa. É fã da série, não perde um capítulo e ainda avisa os amigos quando vai aparecer na TV.

DISTRAÇÃO

A mistura da voz do diretor com o som da venda tocando música romântica e os cachorros passando a esmo pelas ruas estreitas da comunidade dão vida a um cenário parado do dia a dia. É justamente o agito que atrai Edjane dos Santos, de 27 anos. Toda vez que tem gravação, pega o filho de 2 meses e corre para perto das câmeras. "Adoro assistir ao programa e é muito melhor do que ficar lá com o menino sem fazer nada", diz. A distração também serve para os alunos da creche local, que disputam entre si um espaço na grade para assistir à filmagem.

LUZ, CAMERA, AÇÃO

Avancini diz que prefere mil vezes gravar uma externa a gravar no estúdio, porque "cenário nenhum reproduz a favela". Além de dar o tom realista, gravar na Tavares quebra mitos, diz: "Já me perguntaram se usamos colete à prova de bala. Mal sabem que aqui é a maior paz."

A PONTE

Responsável por resolver os possíveis conflitos entre moradores e produção, Alessandro Maciel, o Sandro, de 32 anos, parece não ter muito trabalho. "Só os novos reclamam, mas não sabem o que passamos antes do controle do Bope. A gravação também dá segurança", diz o representante da Associação dos Moradores.

ATORES

Heitor Martinez, o ?polícia? Leandro na série, caminha pela comunidade como quem anda pela própria casa. Ele, que grava lá desde Vidas Opostas, até recomenda onde comer bem: o joelho de porco da Dona Socorro, segundo ele, é muito bem feito. Outro que fica entre autógrafos e sorrisos é Caio Junqueira, que vive Romero, o policial vilão da trama. "Gravo muito mais em estúdio, mas adoro filmar aqui. Além da vista ser maravilhosa, é bom estar com as pessoas que a gente está retratando no seriado".

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