Celeste Sloman/The New York Times
Celeste Sloman/The New York Times

A ex-‘The Nanny’ Fran Drescher está de volta com sua voz inconfundível à série ‘Indebted'

Esse talvez seja o maior equívoco sobre a atriz - o de que sua voz é um malfadado obstáculo em vez de um dom

Amanda Hess, The New York Times

10 de fevereiro de 2020 | 06h10

A voz de Fran Drescher, se você já teve a oportunidade de ouvi-la na proximidade de um tempurá de camarão e sushis de atum, é muito calmante. Quando Drescher fez o papel de Fran Fine em The Nanny, uma sitcom que ela criou nos anos 1990 com seu então marido, Peter Marc Jacobson, ela atuava com uma voz nasalada. 

Na época, o New York Times comparou a voz dela com “um Buick com o tanque vazio tentando pegar numa manhã de inverno”. Mas aqui, em seu apartamento no Central Park, sentada em meio a cristais, esculturas e fotos em que aparece com democratas do alto escalão, a voz lembra mais um Mercedes bem regulado ronronando na Long Island Expressway.



Para os que cresceram tendo The Nanny como babá, a voz de Drescher está tão entranhada no subconsciente que ouvir a versão amaciada é quase terapêutico. “Era como uma sirene misturada a um cacarejo”, avaliou Drescher em seu modelito negro, equilibrando o prato no colo. “Sempre soube que tinha uma voz única.”

Quando ela deixou o Queens por Hollywood, no fim dos anos 1970, seu agente lhe disse: “Se você quiser fazer papéis que não sejam o de piranha, vai ter de aprender a falar”. 

Em vez disso, Francine ‘Fran’ Joy Drescher decidiu manter seus dons naturais. Em 1992, ela se apresentou ao presidente da CBS como estrela de sitcom (série cômica de TV com personagens fixos): “Por causa de minha voz, as pessoas acham que sou o tempero da série. Estão erradas. Eu sou o prato principal”.

Os Estados Unidos não ouviram falar muito de Drescher nos últimos tempos - ela não aparecia regularmente na TV desde que a sitcom Happily Divorced terminou, em 2013, e The Nanny está tristemente esquecida na TV a cabo. Mas, aos 62 anos, ela está de volta à televisão com Indebted (Endividados), comédia que estreou na quinta, 6, no canal NBC. Ela e Steven Weber fazem Debbie e Stew Klein, um casal de cinquentões que irrompe na casa do filho Dave (Adam Pally), bagunçando sua vida matrimonial - ele é casado com Rebecca, vivida por Abby Elliott - com a notícia de que estão endividados. O papel de Debbie, que passa a viver na casa do filho como se fosse sua comunidade pessoal de aposentados, inverte a dinâmica de The Nanny: agora, é o filho que tem de cuidar dela.

O criador de Indebted, Dan Levy, disse que originalmente moldou Debbie e Stew inspirado nos próprios pais, mas Drescher fez toda a diferença e elevou o papel “a um nível que ele não esperava”. 

The Nanny foi adaptada por uma dezena de países, entre eles Turquia (Dadi), Polônia (Niania) e Argentina (La Niñera). Na série original, Drescher faz uma judia do Queens contratada para tomar conta dos três filhos precoces de um viúvo inglês rico, Maxwell Sheffield, que é o segundo mais importante produtor de shows da Broadway (depois de seu rival Andrew Lloyd Webber). 

Em versões estrangeiras, a etnicidade é readaptada - na versão russa, a babá é ucraniana -, mas a personagem criada por Fran Drescher é preservada: inexperiente e impulsiva, mas é inteligente e elegante e aprende logo o serviço, conquistando os patrões pela dedicação e simpatia. 

Fran Drescher inspirou uma nova geração de comediantes judias - “uma espécie de influenciadora”, diz ela, e explica que, como não teve filhos, não é na verdade do tipo maternal, embora seja “uma mãe” para seus cachorros. 

Drescher tem uma vida não convencional e compartilha isso, o que lhe dá “um propósito na vida”. Em dois livros de memórias ela conta que foi estuprada aos 20 anos sob ameaça de uma arma, sobreviveu a um câncer de útero aos 40 e divorciou-se de Jacobson apenas para arranjar um novo amigo gay depois que ele finalmente saiu do armário.

Recentemente, ela revelou na internet que tem um amigo com o qual se encontra duas vezes por mês para ver televisão e fazer sexo. “Não o amo e não acho isso chocante”, afirmou.



As crianças que cresceram vendo The Nanny estão agora na faixa de idade de Fran Fine e há vários sites oferecendo-lhes roupas e objetos relacionados a seu ídolo. No Instagram, @whatfranwore tem catálogos de vestidos clássicos de The Nanny e @thenannyart combina-os com peças de arte contemporânea. A rapper Cardi B legendou uma foto dela própria usando um traje com estampas de patas de gato com: “Fran Drescher em @dolceandgabbana”.

A atriz Isabelle Owens estreará neste mês um espetáculo solo de canto e dança dedicado a Drescher, em Nova York, chamado Fran Drescher, Please Adopt Me (Fran Drescher, por favor, me adote). “Com os anos 1990 de volta, as pessoas estão redescobrindo-a”, argumentou Owens. 

“Tudo dela [FRAN FINE] está em mim, mas eu não estou em tudo dela”, diz Fran Drescher. A atriz está preparando uma adaptação musical de The Nanny para a Broadway, com roteiro dela e de Jacobson. 

The Nanny é uma oportuna aposta para a Broadway. Drescher pega o mais clássico arquétipo feminino do palco e lhe dá uma modernizada: ela é uma Eliza Doolittle que se recusa a tomar lições de dicção.

Esse talvez seja o maior equívoco sobre Fran Drescher - o de que sua voz é um malfadado obstáculo em vez de um dom. Uma vez, um fã perguntou a Drescher sobre a cena clássica em que Fran Fine, comendo sushi, engole desastradamente um bocado de wasabi e diz com uma voz assustada, mas normal: “Cara, essa mostarda realmente limpa os canais nasais”. 

O fã queria saber como Drescher conseguiu fazer essa voz. Sentada em seu apartamento do Central Park e dosando apropriadamente o wasabi, Drescher respondeu: “É que sou muito talentosa”. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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