A busca do amor na visão de Antonioni

A alegoria da viagem em direção ao Sol marca 'Identificação de uma Mulher', do mito italiano

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2008 | 23h38

Aos 70 anos, o diretor italiano Michelangelo Antonioni (1912-2007) realizou Identificação de uma Mulher, que a Versátil Home Vídeo coloca no mercado em versão restaurada e com uma hora de extras (incluindo uma longa entrevista com o roteirista Tonino Guerra). Antonioni, que renovou a sintaxe do cinema italiano nos anos 1960 com suas longas reflexões sobre o vazio da vida burguesa na cidade, retomou nesse filme, de 1982, alguns de seus temas mais caros, como o tédio e o abismo entre o universo masculino e feminino. Ele conta a história de um cineasta que, ao ser abandonado pela mulher, busca não só um novo argumento para um filme como uma nova companheira.Crises conjugais são mais ou menos freqüentes nos filmes de Antonioni, especialmente em clássicos como A Noite, O Eclipse e Deserto Vermelho, todos lançados pela Versátil, mas, em Identificação de uma Mulher, a separação do casal assume uma dimensão alegórica. Niccolò (Tomas Milian), o cineasta, imagina um filme em que uma nave erra pelo espaço em direção ao Sol, como, de fato, aconteceria anos depois num filme dirigido pelo inglês Danny Boye (Sunshine - Alerta Solar, que estreou no ano passado). A diferença é que Boyle fez um filme de ficção científica e a metáfora de Antonioni é de outra ordem: mergulha-se em direção ao desconhecido para entender o sentido da existência (ou, no caso, a origem do conflito existencial).Antonioni carrega um pouco na construção formal do filme, que tende ao maneirismo, apesar da bela fotografia do veterano Carlo Di Palma e da trilha com composições de grupos experimentais pop como a banda alemã Tangerine Dream, atuante nos anos 1980.

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