A boa face da babá eletrônica

VIDA INTELIGENTE Uns tentam, outros alegam que a TV não tem obrigação de educar (mas também não precisa deseducar): aliar conteúdo de qualidade e audiência não é fácil

Alline Dauroiz

24 de julho de 2010 | 16h00

Cris Poli. Supernanny diz que 'acredita na função social da tv'. Foto: Wilson Magão/AE

 

 

Aliar cultura e educação em embalagem de entretenimento atraente aos olhos do público faz parte - ou deveria fazer - da missão de todas as redes de TV. Porém, poucos são os programas que conseguem conciliar conteúdo elaborado e apelo por audiência. Embora as intenções do gênero sejam mais comuns em canais ditos educativos ou pagos, a receita é um desafio para todos (sim, porque por mais instrutivos que alguns programas possam ser, ninguém consegue assisti-los por muito tempo sem um formato divertido).

 

Há 11 anos no ar como um dos programas mais populares do Canal Futura, o Afinando a Língua, comandado por Tony Bellotto, é caso raroMesmo liderado pela figura popular do titã e disposto a explorar gramática e literatura pela música, a atração nunca despertou a cobiça das redes comerciais, tão carentes de formatos inovadores. "Talvez as TVs comerciais estejam preocupadas com o entretenimento", arrisca a gerente de Conteúdo do Futura, Débora Garcia.

 

A Globo justifica, por meio de e-mail enviado pela Central Globo de Comunicação (CGCom) que o Afinando a Língua, fruto da Fundação Roberto Marinho, foi pensado para o perfil do Futura. Mas a mesma Globo já absorveu ideias testadas com êxito em outros canais do grupo - caso do Cilada, que Bruno Mazzeo fazia no Multishow e virou quadro no Fantástico.

 

O mesmo e-mail enviado pela CGCom, em resposta a perguntas que o Estado endereçou inicialmente ao diretor geral de Entretenimento da Globo, Manoel Martins, informa que "não é possível fazer uma avaliação isolada de um programa específico". "Os programas precisam ser avaliados no conjunto da grade de programação e, para tal, merecem estudo mais aprofundado do formato, da linguagem, do perfil, do público-alvo. Aliar entretenimento, informação e cultura nacional está no DNA da Globo."

 

 

 

MUNDO DA LUA (89/90). Com artistas cedidos da Globo, a série da Cultura, foi um bom exemplo de programa educativo e divertido que emplacou na TV aberta com bons índices de audiência (para a Cultura)

 

 

 

De fato, a TV comercial sofre para conciliar programas que agradem a todos, em busca de ibope. Temas sociais têm rendido cenas nas novelas, enquanto as minisséries que restaram trafegam por focos históricos ou literários. Longe da dramaturgia, encontrar atrações de edutainment (do inglês, educação + entretenimento) não é tarefa fácil. Muitas vezes, quando essa feliz conjunção ocorre, o programa é relegado a horários marginais, como o Altas Horas, de Serginho Groisman, sustentado pelo slogan "vida inteligente na madrugada". Mas por que na madrugada?

 

Ainda na Globo, em horário menos ingrato, é possível dar de cara com o doutor Drauzio Varella no Fantástico, programa que, entre um zilhão de ideias testadas nos últimos anos, fez bonito com as séries Filosofia e História. Na safra dos informativos, o leque pode ser maior, como manda o gênero, com linguagem de entretenimento mais caprichado nos casos do Profissão Repórter e das séries Globo Mar e Brasileiros.

 

Ou é bom ou não é. Diretora do prêmio de qualidade audiovisual Jeunesse Ibero-americano e ex-diretora de programação da TV Cultura, tendo participado da criação de programas como Castelo Rá-Tim-Bum, Mundo da Lua, Confissões de Adolescente, Cocoricó e Um Menino Muito Maluquinho, a jornalista Beth Carmona enfatiza que "ninguém quer tirar diploma pela televisão, mas é possível assistir a programas que façam você buscar mais e aprender".

 

"Quando se fala em audiovisual, é um erro separar forma e conteúdo", explica. "Se um programa é educativo mas a embalagem dele é chata, é porque não é um bom programa, não tem qualidade", crava.

 

Beth também dirigiu a Programação do Discovery para a América Latina e presidiu a fundação mantenedora da TVE, do Rio (hoje TV Brasil).

 

 

 

DEBATE MTV. "O povo tem cada vez menos opinião." Lobão, culpando o público pela carência Foto: Divulgação

 

 

 

Cris Poli educadora com mais de 40 anos de experiência que incorpora a Supernanny, concorda. "Acredito na função social da TV. Você entra na casa das pessoas, é um excelente meio de comunicação, de cultura, informação e educação", diz.

 

Com toque latino, a argentina dá à versão brasileira deste formato internacional, produzida pelo SBT, um caráter afetivo que falta às babás europeias. Como a TV tem multiplicado sua vocação para reality shows, Poli é caso ainda mais raro de vida útil nesse métier,

 

Para Beth, a fórmula depende de uma série de fatores, como bom diretor, bom produtor, bom conteudista, bom cenógrafo, bom figurinista, boa trilha... "Agora, é mais caro? Sim. E as emissoras comerciais, já que têm de investir em algo caro, escolhem sempre por algo que dê mais ibope."

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