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30 anos sem Janete Clair

Seus ensinamentos, estratégias, sutilezas e artimanhas sobrevivem em praticamente toda a produção da telenovela brasileira

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2013 | 17h36

Muito antes que a gente se perguntasse "Quem matou Odete Roitman (Beatriz Segall), em 1989, quando Gilberto Braga escrevia Vale Tudo, um certo Salomão Hayala (Dionízio Azevedo) já havia testemunhado o efeito que o suspense em torno do "quem matou?" pode alcançar num país de proporções como o Brasil. Não foi Janete Clair quem descobriu a eficiência desse recurso nos enredos de ficção. Àquela altura, quando O Astro (1977) alcançou seu pico de comoção nacional, a literatura e a própria radionovela já haviam se beneficiado à exaustão de estratégias do gênero. Mas foi dona Janete quem primeiro provou que a receita, bem executada dramaturgicamente, pode mobilizar uma plateia gigantesca, sem contar com esse negócio de redes sociais, convém lembrar.

Neste 16 de novembro de 2013, faz 30 anos que a chamada Nossa Senhora das 8 (que hoje seria das 9, vá lá) nos deixou. Seria mais preciso, no entanto, dizer que dona Janete tem 30 anos de sobrevida, visto que seus ensinamentos, estratégias, sutilezas e artimanhas sobrevivem em praticamente toda a produção da telenovela brasileira, mesmo depois que sua ausência física se fez presente.

Em maior ou menor grau, Janete se faz notar nas linhas de Gilberto Braga, de Manoel Carlos, de Benedito Ruy Barbosa, de Walther Negrão, de Silvio de Abreu, de Aguinaldo Silva, de Carlos Lombardi, de Lauro César Muniz, de Glória Perez - a quem foi dada a missão de terminar a novela Eu Prometo, iniciada por Janete - e pontua o enredo de todos os profissionais que tenham a pretensão de escrever folhetins para a TV. Mesmo os autores mais recentes, como João Emanuel Carneiro, Filipe Miguez, Izabel de Oliveira, Cláudia Lage e João Ximenez Braga guardam dela alguma inspiração para os seus scripts.

Invenções e modernizações à parte, Janete Clair criava dentro da essência do folhetim, e desse DNA não há como escapar. Cercava a fórmula do melodrama de elementos capazes de despertar a identidade do telespectador, individualmente, a ponto de multiplicá-lo em proporções de comunicação de massa. Coisa de gênio.

Não é exagero dizer que a telenovela brasileira se divide entre antes e depois de Janete Clair. Alinhado a esse raciocínio está Irmãos Coragem, um divisor de águas na história da hegemonia conquistada pela Rede Globo e, por consequência, da própria história das comunicações no Brasil. Foram os irmãos coragem, em busca de um diamante, no interior de Goiás, que protagonizaram a primeira produção de uma Globo em busca de uma embalagem requintada em suas novelas. E novela, como se sabe, foi produto fundamental na conquista da liderança de audiência exercida há décadas pela emissora.

Irmãos Coragem seria a primeira telenovela brasileira a contar com uma cidade cenográfica. Ganhou abertura e trilha sonora tratadas com atenção de superprodução. Mas nada dessa alegoria teria funcionado se a trama não se agarrasse ao vício do espectador. Vieram outras dezenas de enredos. O Brasil chorou a morte de Carlão (Francisco Cuoco) ao final de Pecado Capital (1975), com o drama de Simone (Regina Duarte) em Selva de Pedra (1972), e com o drama de André Cajarana em Pai Herói (1979).

Um breve histórico

Nascida Ginette Stocco Emmer, em Conquista (MG), Janete viria a acrescentar "Dias Gomes" ao sobrenome, assim que se casou com o dramaturgo baiano. Seu sonho era, na verdade, ser estrela do rádio, onde chegou a se apresentar e onde conheceu o marido, que a incentivou a escrever.

A estreia na TV foi em 1964, na Tupi, com a novela O Acusador. Três anos depois foi convidada a trocar de canal pela Globo, onde ficaria até morrer. Chegou para salvar a audiência de Anastácia, a mulher sem destino. Como a trama andava muito mal, Janete promoveu um grande terremoto e matou mais de 100 personagens e recomeçou o enredo do zero. Esse episódio se tornou famoso no gênero e viria a motivar transformações profundas numa novela, dali para frente, sempre que a audiência demandasse novos rumos.

A obra de Janete também é marcada pela entrada do folhetim de TV na realidade - vide Pecado Capital, Pai Herói, O Astro e Eu Prometo, sem falar em Véu de noiva, que marcou a carreira de Regina Duarte.

Janete teve quatro filhos: Guilherme, Alfredo, Denise e Marcos Plínio, que morreu com dois anos e meio, deixando um rastro de sofrimento sem fim para a mãe.

Em 16 de novembro de 1983, um câncer no intestino levaria a "Nossa Senhora das 8" embora, sem que seus enredos jamais pudessem abandonar a imaginação de quem se comove em fazer ou ver novela. Dias Gomes ajudou Glória Perez a levar até o fim a novela Eu Prometo, mais uma história sua protagonizada por Francisco Cuoco, quase um talismã da autora em suas novela. Amém, Janete.

Personagens lendários:

Carlão (Francisco Cuoco) - Pecado Capital

Lucinha (Betty Faria) - Pecado Capital

Herculano Quintanilha (Francisco Cuoco) - O Astro

Clô (Tereza Rachel) - O Astro

Jerônimo (Cláudio Cavalcanti) - Irmãos Coragem

Duda (Cláudio Marzo) - O Astro

João (Tarcísio Meira) - Irmãos Coragem

André Cajarana (Tony Ramos) - Pai Herói

Salomão Hayala (Dionízio Azevedo) - O Astro

Luana Camará (Regina Duarte) - Sétimo Sentido

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